O Povo Contra Larry Flint: o drama real do fundador da Revista Hustler

Cena do filme O Povo Contra Larry Flint
O Povo Contra Larry Flint: filme dirigido por Miloš Forman

A LUTA PELA LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Defender a liberdade de expressão de alguém cujas ideias você concorda, é fácil. Tolerar que alguém com crenças e valores iguais aos seus tenha voz na mídia, é moleza. Mas quando o sujeito é inconveniente, infame e lhe parece asqueroso? Quando ele faz questão de lidar com temas desconfortáveis e vai na direção oposta à sua? Quando ultrapassa todos os limites e fala sobre aquilo que você não quer ouvir? É justamente aí que a tal liberdade de expressão ganha concretude e passa a fazer sentido. Mas também é aí que a tentação de amordaçar aparece. Os controladores acham que liberdade de expressão tem limites. Os liberais lembram que liberdade limitada deixa de ser liberdade. Quem vence essa discussão? A opinião pública americana foi testada por um provocador contumaz e acabou se rendendo ao óbvio: a liberdade não pode ter limites! É o que vemos no filme O Povo Contra Larry Flint, dirigido em 1996 por Miloš Forman.
        Para quem não associa o nome à figura, Larry Flint é o pornógrafo americano que fundou a revista Hustler nos anos 1970 e se tornou um magnata da indústria pornô. Seu império editorial foi construído à custa de muita controvérsia e suas tacadas ousadas tiveram influência decisiva nos costumes da sociedade americana. Seu talento para causar polêmica resultou em incontáveis processos judiciais e o manteve no centro das atenções da mídia. Nesse drama biográfico, acompanhamos sua ascensão, sua via-sacra pelos tribunais e sua luta com os problemas típicos das personalidades públicas imaturas às voltas com o sucesso, drogas e paixões desenfreadas. Vejamos uma sinopse do filme:
        Nos anos 1950, Larry Flint (Woody Harrelson), o menino caipira do Kentuck, que já se virava no mundo dos negócios vendendo bebida destilada ilegal, vai para Cincinnati com seu irmão Jimmy (Brett Harrelson). Lá administram uma boate de strip-tease. Para promover seu novo negócio, Larry cria alguns panfletos com fotos de mulheres nuas. A ideia evolui e vira uma publicação periódica – a tal revista Hustler, uma versão mais popular e escrachada da revista Playboy. Flint se envolve com a jovem striper Althea Leasure (Courtney Love) e vê o sucesso bater à sua porta. Quem bate também é a indignação dos grupos religiosos e demais avessos à pornografia, que jamais o deixarão em paz. Na primeira vez que vai parar na cadeia, conhece o advogado Alan Isaacman (Edward Norton), um jovem entusiasmado com a luta pelos direitos individuais e pela liberdade de expressão. Enquanto as idas e saídas da prisão se sucedem, o envolvimento de Larry com Althea ultrapassa o terreno da promiscuidade, vira amor e ganha contornos dramáticos depois que ele sofre um atentado a tiros. Teimoso, irascível, irreverente, Flint jamais deixará de lutar por seu direito de ser o que é, ainda que não consiga disfarçar seu instinto de autopromoção e sua tenacidade em lucrar com as celeumas.
        O Povo Contra Larry Flint mostra um protagonista fanfarrão e vulgar, em choque com uma sociedade hipócrita, que tolera alguns crimes e vícios, mas seleciona outros para condenar. O diretor Miloš Forman, com seu domínio absoluto da arte de contar histórias, faz comédia sem descer ao nível de vulgaridade de Larry Flint. Não o retrata como um herói incansável. Prefere investigar suas múltiplas camadas – seu lado desagradável, sua índole de malandro inveterado e sua paixão quase adolescente por aquela que se tornou o grande amor da sua vida.
        Quando foi sondado para dirigir O Povo Contra Larry Flint, Miloš Forman recebeu o roteiro escrito por Scott Alexander e Larry Karaszewski, mas não o leu de imediato – os roteiristas eram mais conhecidos pelo filme O Pestinha, comédia rasa que alcançou grande sucesso de bilheteria. Apenas quando soube que Oliver Stone estava envolvido na produção, resolveu ler. E gostou! O consagrado diretor de filmes icônicos, como Um Estranho no Ninho, Hair e Amadeus, já não filmava há anos, mas percebeu a oportunidade de contar uma história envolvente, sobre um tema que lhe era caro: a liberdade – nascido na então Checoslováquia, sofreu com o nazismo e com o comunismo antes de migrar para a América.
        O fato é que o roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski é uma peça eficiente. Os dois encontraram um ótimo recorte para a história, que segue linear sem se perder em subtramas. Deram o tom biográfico, mas prefeririam cobrir um período de 25 anos na vida do protagonista. Sua ascensão é retratada logo no começo e ainda no primeiro ato ele sofre o atentado que mudou sua vida. Os roteiristas também encontraram soluções criativas para marcar as passagens de tempo, deixando o último ato para dramatizar o processo que tramitou na suprema corte americana e tornou Larry Flint mundialmente famoso. Para alcançar maior consistência dramática, decidiram fazer do advogado Alan Isaacman, interpretado por Edward Norton, uma compilação de todos os advogados que prestaram serviços para Flint.
        Scott Alexander e Larry Karaszewski podem ter gestado o roteiro de O Povo Contra Larry Flint como uma comédia, mas Milos Forman chegou impondo sua visão pessoal, contando essa história com muita agilidade e fluidez. Sob sua batuta, o filme traz uma mistura de gêneros: é engraçado, mas tem passagens tristes. É humano e sensível, mas também é de uma franqueza desconcertante. E há muita ironia desfilando pela tela! Veja, por exemplo, o ator no papel do juiz que manda Larry Flint pela primeira vez para a prisão: é ninguém menos que o próprio... Larry Flint! Sim, ele faz uma ponta no filme, logo na pele do juiz que o condenou!
        O Larry Flint que o diretor nos revela é multifacetado e envolvente, mas há um outro personagem que ficou marcado em minha memória. Falo do advogado interpretado por Edward Norton, na cena em que ele está diante do júri, confessando que não gosta do seu cliente, nem admira sua postura. Mas admira o fato de viver em um país onde pode fazer livremente suas escolhas. Um país onde pode abrir uma revista Hustler e lê-la. Ou pode simplesmente jogá-la no lixo. Ignorá-la.

Resenha crítica do filme O Povo contra Larry Flint

Ano de produção:1996
Direção: Miloš Forman
Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski
Elenco principal: Woody Harrelson, Cody Block, Courtney Love, Edward Norton, Richard Paul, James Cromwell, Donna Hanover, Crispin Glover, Vincent Schiavelli, Brett Harrelson, Ryan Post, Miles Chapin, James Carville, Burt Neuborne, Jan Tříska, Norm Macdonald, Aurélia Thierrée e Larry Flynt

Comentários

  1. Tinha assistido há muito tempo esquecido destas observações. A ponta do próprio Larry e de Edwatd Norton pra variar dando um show!

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  2. Ah, esse detalhe faz muita diferença! Adiciona uma quantidade imensa de ironia e... deboche!

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