Crítica | Nunca Deixe de Lembrar: Florian Henckel von Donnersmarck retrata um personagem irrequieto, determinado a encontrar na arte o significado da vida

Cena do filme Nunca Deixe de Lembrar
Nunca Deixe de Lembrar: dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck

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No filme Nunca Deixe de Lembrar, de 2018, escrito e dirigido pelo alemão Florian Henckel von Donnersmarck, há uma pergunta que jamais é feita em voz alta, mas é como se o protagonista tentasse respondê-la o tempo todo: – O que você quer ser quando crescer? Na infância, todos ouvimos essa crueldade; quem faz tal pergunta, quase nunca tem interesse real na resposta, quer apenas instigar. Quer colocar a criança no seu devido patamar de baixa maturidade; deixar claro que ela ainda não é o que deveria ser; jogar lá para o futuro a possibilidade de ter alguma relevância; incutir nela a noção de que precisará ser algo diferente do que já é.

Inspirado em Gerhard Richter 

        Em Nunca Deixe de Lembrar, Von Donnersmarck costurou uma história fictícia, mas inspirada na vida do conceituado artista plástico Gerhard Richter, que nasceu na Alemanha nazista, cresceu na Alemanha Oriental e fugiu do comunismo para fazer sucesso no ocidente. Para efeitos de dramatização, o diretor criou o personagem Kurt Barnert e o dotou com igual senso de observação, paciência, tranquilidade e gosto pelo silêncio. Alguém que está preocupado com o que vai ser quando crescer, mas sabe que terá que crescer para conhecer a resposta.

Cena do filme Nunca Deixe de Lembrar
Nunca Deixe de Lembrar: Donnersmarck retrata o peso do comunismo sobre seus personagens

Um artista inquieto 

        Dos primeiros contatos com a arte, ainda na infância e em meio aos horrores da guerra, até a consagração do artista, passam-se décadas turbulentas. A perda trágica da tia admirada e inspiradora, o período de estudos na escola de belas artes, o romance com a filha de um médico arrogante, com passado nazista e uma prepotência sufocante, a fuga arriscada para o ocidente... O filme cobre a vida do protagonista com critério, sem jamais desfocar a sua visão de artista inquieto. Nunca Deixe de Lembrar se estende por três horas e oito minutos, mas segue num ritmo tão bem conduzido que não cansa o espectador.

Um elenco escolhido a dedo

        O ator Tom Schilling, na pele de Kurt Barnert, ancora sua interpretação no olhar sempre angustiado e nas microexpressões. Deixa claro que não é fácil penetrar na mente de um artista fustigado. Paula Beer, no papel da filha do médico, é puro encanto e doçura. Sabe jogar lenha na fogueira romântica que em vários momentos ilumina o filme. Sebastian Koch convence como o pai nazista que se converte ao comunismo e ganha poder suficiente para atormentar a vida do artista. O elenco afinado responde aos comandos seguros de Von Donnersmarck, o diretor que venceu o Óscar de melhor filme estrangeiro em 2007 por A Vida dos Outros.

Cena do filme Nunca Deixe de Lembrar
Nunca Deixe de Lembrar: Tom Schilling entrega uma atuação compenetrada

Apuro audiovisual

        Nunca Deixe de Lembrar é, portanto, um ótimo filme. A fotografia sempre bem iluminada de Caleb Deschanel, com seus enquadramentos belos e formais, é deslumbrante – e não poderia ser diferente, já que se trata de um filme sobre artes visuais. A ótima trilha sonora não pode ser esquecida. Foi composta por Max Richter, também responsável pela música de No Escuro da Floresta, filme da diretora canadense Patricia Rozena. Os cenários e locações bem escolhidos, os figurinos perfeitos, os elegantes objetos de cena, as obras de arte vistosas... Não há dúvidas: estamos diante de uma produção cara e cuidadosa, à altura de um grande filme de época.

Amor profundo pela arte

        Em Nunca Deixe de Lembrar, a narrativa não se perde nos floreios ou excessos. Os flashbacks são pertinentes e ajudam a desenvolver subtramas essenciais na construção do protagonista. O diretor em momento algum esquece qual é o foco dramático do seu filme: a trajetória de um artista em busca da própria voz, que guarda um sentimento inexplicável – e definidor – de profundo amor pela arte. Mas antes de ser artista, o garoto precisa se tornar homem, viver, amar, sofrer, lutar, aprender...  Conjugar diferentes papéis até que finalmente possa se olhar no espelho e se reconhecer como artista.

Cena do filme Nunca Deixe de Lembrar
Nunca Deixe de Lembrar: a difícil escolha de deixar tudo para trás

Uma busca interna

        O protagonista Kurt Barnert passa boa parte da história ocupado com... a vida! Uma vida feita de encontros e desencontros, de felicidades e coincidências incríveis, de sofrimentos e reviravoltas. Sabe que um artista é o que vive, por isso segue no seu ritmo, com calma, paciência e olhar observador. Parece imune às pressões para ser criativo, revolucionário, carismático, ter opinião sobre tudo... A sua busca é interna e só saberemos que ele encontrou algo relevante quando finalmente o vemos se expressar por meio da sua arte.

Um gigante no mercado de arte

        Nunca Deixe de Lembrar não está interessado em discutir pontos de vista, retratar mazelas políticas ou dar lições de história. Contenta-se em narrar a trajetória de um sujeito talentoso, que atravessa a vida em busca de uma resposta para a pergunta que o atormenta desde garoto. Será que ele a encontra? Não vou dar spoilers, mas nem é preciso! Basta uma rápida pesquisa na internet para descobrir que as obras de Gerhard Richter, artista que inspirou o filme, alcançam valores estratosféricos no mercado de arte.

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Florian Henckel von Donnersmarck, a concepção visual impecável, o ótimo trabalho de atores e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: O diretor nos transporta para o  mundo interno do protagonista e nos faz acompanhar sua busca pelos caminhos da arte.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Nunca Deixe de Lembrar

Data de produção: 2019
Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck

Elenco:
  • Tom Schilling
  • Cai Cohrs
  • Sebastian Koch
  • Paula Beer
  • Saskia Rosendahl
  • Oliver Masucci
  • Hanno Koffler
  • Evgeniy Sidikhin
  • Jörg Schüttauf
  • Jeanette Hain
  • Hans-Uwe Bauer
  • Ina Weisse
  • Lars Eidinger
  • Johanna Gastdorf
  • David Schütter
  • Franz Pätzold
  • Jonas Dassler
  • Jacob Matschenz
  • Florian Bartholomäi
  • Ben Becker
  • Rainer Bock
  • Hinnerk Schönemann

Comentários

  1. Valeu pela dica Fábio. Vamos procurar. Depois compartilho com você o que achamos. Abraço!

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    1. E um filme que vale a pena, Jorge. Acho que vocês vão gostar. Abraços!

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  2. Nossa, eu gostaria muito de assistir a este filme... Vou ver se acho.

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    1. Legal, Jane, deve estar disponível no streaming da HBO. Pelo foi lá que assisti.

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  3. Oi Fabio, não tem como não querer assistir, depois da tua resenha. Mas não tem em streaming, né? Aliás, vc bem q podia fazer uma seleção do que tem de bom em Netflix, Amazon, etc. Que tal? Bjs. Adoro tuas críticas!

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  4. Ops!, agora q li o comentário anterior. Respondida minha pergunta. Mas fica pendente a sugestão. Rsrs

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  5. Quero assistir, preciso descobrir como!

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    1. Já vi este filme disponível em vários serviços de streaming.

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