Crítica | A Vida de Brian: por essa os ingleses do Monty Python não esperavam: o esquete que criaram foi repetido na vida real!

Cena do filme A Vida de Brian
A Vida de Brian: filme dirigido por Terry Jones

OS MARUJOS INGLESES PREFEREM OLHAR A VIDA SEMPRE PELO LADO BOM

A Vida de Brian é uma comédia hilária realizada em 1979. Foi escrita pelo grupo Monty Phyton, a trupe de humoristas ingleses que nasceu em 1969, formada por Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin. Ficaram famosos pelo programa Flying Circus, levado ao ar pela BBC, mas também foram autores de músicas e livros. O humor anárquico, inteligente e sempre atual que criaram, inspirou gente do mundo inteiro, e fez escola inclusive no Brasil. Foi graças aos filmes que conseguiram realizar ao longo dos anos – com o apoio financeiro de celebridades como o ex-Beatle George Harrison – que alcançaram notoriedade mundial.

Cena do filme A Vida de Brian ilustrando
A Vida de Brian: Terry Jones dirigiu o filme, com roteiro dos Monty Phyton

A sinopse: de revolucionário a messias

        Escrever sobre A Vida de Brian é uma tarefa ingrata   diria até que é inútil –, já que os Monty Phyton vêm com uma verdadeira artilharia de piadas, disparadas sem piedade com virtuosismo verbal e visual. É mais proveitoso assistir ao filme! Mas, para situar o leitor que eventualmente ainda não o conhece, vou resumir a sinopse: o tal Brian do título veio ao mundo na mesma noite em que Jesus Cristo nasceu – inclusive foram vizinhos de manjedoura! A partir daí, Brian segue uma vida pacata, como tantos outros habitantes da Judéia dominada por Roma. Mas Brian entra para um tipo de organização de libertação da Palestina, empenhada em combater o imperialismo romano. É quando passa a ser confundido com o próprio messias. A avalanche de piadas e sátiras que segue é de fazer chorar de tanto rir.

Vamos direto à cena final

        O ponto que desejo comentar diz respeito à emblemática cena final de A Vida de Brian, que apresenta a canção Always Look on the Bright Side of Life, escrita por Eric Idle. A cena é uma das mais engraçadas já realizadas pela trupe: enquanto o sol se põe, incontáveis cruzes aparecem enfileiradas no alto de uma colina nos arredores de Jerusalém; estão repletas de crucificados, alegres a cantar o lado bom da vida. Cena tão absurda e sem sentido só poderia ter saído das mentes criativas daqueles ingleses loucos!

Cena do filme A Vida de Brian
A Vida de Brian: a memorável cena final, com a canção de Eric Idle

Essa cena aconteceu de verdade!

        Sim, caro cinéfilo! Pode ter certeza de que o senso de humor dos britânicos não tem paralelo! A mesma cena se repetiu, dessa vez na vida real, durante a Guerra das Malvinas. O fato foi noticiado pela imprensa britânica e aconteceu em 1982, quando o destróier HMS Sheffield foi atingido por um míssil Exocet argentino – de construção francesa. Para a marinha inglesa, que desde a Segunda Guerra mundial não havia perdido nenhuma embarcação, foi uma tragédia. O míssil atingiu o Sheffield a apenas 2,5 metros acima da linha d'água e provocou uma explosão que matou 20 marinheiros e feriu 26. As chamas e a fumaça tomaram o navio rapidamente, enquanto a tripulação, impotente, nada pôde fazer, a não ser aceitar seu destino e aguardar pelo resgate.

Olhando a vida pelo lado bom

        O Sheffield não afundou imediatamente e só começou a fazer água quando foi rebocado. Enquanto o HMS Arrow, enviado para resgatar a tripulação não chegava, os oficiais formaram uma corrente para manter todos juntos. Foi quando o subtenente Carrington-Wood teve a ideia e começou a cantar a canção Always Look on the Bright Side of Life. A tripulação, em coro, entrou na brincadeira. Dá para imaginar uma cena dessas? Ainda mais num momento tão grave e tenso? A capacidade do ser humano de rir de si mesmo é ilimitada! Ver uma criação do cinema ganhar dimensões reais e incorporar novos significados é uma prova de que somos guiados por uma força narrativa, que nos impele a entender o mundo a partir das histórias que contamos uns aos outros.

Cena do filme A Vida de Brian
A Vida de Brian: a trupe de humoristas ingleses em esquetes impagáveis

Um choque de diversão

        Só me dei conta da existência do grupo inglês Monty Python no finalzinho dos anos 1970, quando entrei numa sala de cinema por acaso. Não fazia ideia do que encontraria pela frente. Comprei o ingresso porque gostei do cartaz e da possibilidade de assistir a uma comédia despretensiosa. Contei pouco mais de dez pessoas na plateia – lembro bem, era uma tarde de quarta-feira e tinha saído mais cedo do trabalho. Quando começou a projeção de Em Busca do Cálice Sagrado, minha vida se transformou. Jamais foi a mesma. Experimentei um choque de diversão! No final, continuei na poltrona e assisti ao filme de novo, na sessão seguinte.

Cinema de verdade

        Inicialmente o cinema me pareceu apenas um veículo para que os Monty Python transportassem seu humor criativo e revolucionário. Mas Terry Gillian estava lá para fazer cinema de verdade! Foi o cartunista americano que assinou as cenas de animação nos filmes da trupe inglesa. Dirigiu Em Busca do Cálice SagradoOs 12 MacacosBrazil – O FilmeOs Irmãos Grimm… É um contador de histórias com uma assinatura inconfundível e total domínio das técnicas narrativas, que certamente será objeto de outras análises aqui na Crônica de Cinema.

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: o texto impagável dos Monty Phyton, a direção espontânea de Terry Jones, a produção caprichada e a trilha sonora.

O que surpreende: a quantidade de esquetes hilários, que não perdem a graça mesmo quando são revisitados de tempos em tempos.

Acima da média. É entretenimento de qualidade.

Ficha técnica do filme A Vida de Brian

Ano de produção: 1979
Direção: Terry Jones
Roteiro:
  • Graham Chapman
  • John Cleese
  • Eric Idle
  • Terry Jones
  • Terry Gilliam
  • Michael Palin
Elenco:
  • Graham Chapman
  • John Cleese
  • Terry Gilliam
  • Eric Idle
  • Terry Jones
  • Michael Palin
  • Terence Bayler
  • Carol Cleveland
  • Kenneth Colley
  • Neil Innes
  • Charles McKeown
  • John Young
  • Gwen Taylor
  • Sue Jones-Davies
  • Peter Brett

Comentários

  1. Gostaria de ouvir a música.

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  2. Olha, nem sempre eu consigo rir com esse filme, mas com a sua narrativa, sinto vontade de assistir novamente.👏👏👏👏👏👏👏👏

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  3. Amei sua crítica. Já vi umas cenas desse filme, mas há muito tempo. Deu vontade de assistir todo. Obrigada.

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  4. 👏🏻👏🏻👏🏻

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  5. Valeu! A crítica estimula a vontade de vê o filme!

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