Letra e Música

NESSA COMÉDIA ROMÂNTICA ENXERGO UMA METÁFORA PARA A VIDA A DOIS


Letra e Música: filme dirigido por Marc Lawrence

            Ludy e eu aproveitamos esta manhã ensolarada e quente para caminhar pelas ruas do bairro, cumprindo nosso ritual diário. Durante o trajeto decidi provocar um brain storm, tentando escolher um filme que pudesse servir de tema para a crônica da semana.
            – Já sei! Por que você não faz uma enquete? Tipo um post, para ver sobre que filmes as pessoas querem ler! – Foi a sugestão da minha mulher.
            – Não sei... Acho complicado... Vão sugerir filmes de todos os gêneros e muitos que eu ainda nem assisti!
            – Ah, então... Que tal você escrever sobre uma comédia romântica! Tem uma que eu adoro: Letra e Música, com aquele ator... o... Hugh Grant!
            – Putz... Esse é muito sessão da tarde!
            Cheguei em casa, preparei um post insinuando que estava à cata de sugestões e compartilhei. Dito e feito: vieram com os mais diferentes títulos. Como não consegui optar por um, decidi que o certo seria desagradar a todos. Resolvi agradar a Ludy.
            Falar sobre Letra e Música não é nenhum sacrifício. Ao contrário, gosto muito desse filme de 2007 escrito e dirigido por Marc Lawrence, um diretor que já esteve envolvido com outras produções do gênero, como Miss Simpatia, Amor à Segunda Vista e Forças do Destino. Todas leves, divertidas e... românticas. Mas antes de falar sobre o filme, vamos refletir um pouco sobre esse subgênero que faz tanto sucesso comercial. A primeira coisa que precisamos lembrar é que ele não nasceu no cinema, mas remonta às peças teatrais como Muito Barulho Por Nada e Sonho de Uma Noite de Verão, ambas escritas por William Shakespeare. Sim, o bardo inglês foi o responsável por eternizar os clichês que há séculos arrancam risos e suspiros do público.
            Faz tempo que as comédias românticas deixaram de ser “filmes para mulheres”. Na medida em que passaram a incorporar elementos estéticos ligados às artes e aos modismos, conquistaram outras fatias de público – principalmente entre os adolescentes – sempre tratando com bom humor e leveza de temas ligados aos relacionamentos humanos, suas complicações e seus desdobramentos passionais. O subgênero é território sob domínio dos atores e terreno fértil para o surgimento de grandes expoentes, que invariavelmente esbanjam charme e carisma. É inevitável: os grandes astros sempre acabam se metendo em confusões numa comédia romântica.
            O formato incorporou ingredientes narrativos que se tornaram indispensáveis. Como e de que maneira o par romântico se encontrará? Como irão superar suas diferenças? Em que momento descobrirão que foram feitos um para o outro? Quais serão as pressões da sociedade para impedir que terminem juntos? Por qual motivo vão acabar brigando? Quando, finalmente, irão se reconciliar? Quantos e quantos filmes já foram realizados seguindo esse roteiro de perguntas?
            Letra e Música segue essa receita, mas leva um ingrediente especial: o par romântico é criativo e precisa criar um produto para a indústria cultural. Alex, vivido por Hugh Grant, é um músico que fez sucesso comercial nos anos 80 como integrante de uma banda adolescente. Agora, imerso no ostracismo, tem a oportunidade de ressurgir das cinzas, desde que consiga, em poucos dias, compor uma canção encomendada por uma grande estrela pop. É aí que Sophie, interpretada por Drew Barrymore, entra em cena. Escritora talentosa, mas atormentada pelo término de um relacionamento conturbado, ela se mostra uma parceira ideal, mas complicada.
            O roteiro de Marc Lawrence é feliz ao criar cenas longas, mas envolventes, onde o casal romântico encontra espaço para interagir com charme e naturalidade. Ao mesmo tempo em que os vemos cumprindo todas as etapas do relacionamento amoroso – e torcemos para que terminem juntos – acompanhamos de perto o processo de criação da canção intitulada Way Back Into Love.
            Como a ideia musical surge na cabeça de Alex, como a letra de Sophie vai se encaixando nela, como as nuances da interpretação vão moldando a canção, como os instrumentos musicais são adicionados... Além de toda essa epopeia, vamos percebendo que a canção vai se tornando o resultado do envolvimento passional de ambos, exatamente como acontece na vida real – só que ao invés de canções, os casais costumam compor histórias de vida.
            Sim, Letra e Música é uma comédia romântica com pretensões apenas comerciais, que nos oferece emoção fácil e pronta para consumo. Mas de alguma forma enxerguei nela uma espécie de metáfora para a vida a dois. Tudo aquilo que construímos juntos é resultado de um processo criativo, que envolve os talentos, as aspirações e a experiência de cada um. Um entra com a letra, outro com música. No final, vira tudo uma coisa só, onde as partes não fazem o mesmo sentido quando admiradas separadamente.
            Fiquei com vontade de ouvir a canção Way Back Into Love. E também fiquei feliz por ter decidido agradar a Ludy.



Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.


 

Filme: Letra e Música


Ano de produção: 2007
Direção: Marc Lawrence
Roteiro: Marc Lawrence
Elenco: Hugh Grant, Drew Barrymore, Brad Garrett, Kristen Johnston, Haley Bennett e Campbell Scott

Comentários

  1. Quando tiver um tempinho, gostaria que você fizesse uma análise sobre o filme 'A lenda do pianista do mar', nada haver com o filme ' O pianista'. Um abraço.

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    1. Certo! Já vi bons comentários sobre esse filme, mas ainda não assisti. É uma boa dica. Obrigado!

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