Os Gritos do Silêncio: fugindo do extermínio no Camboja

Os Gritos do Silêncio: filme dirigido por , Roland Joffé
O JORNALISMO REGISTRA OS FATOS, O CINEMA REVOLVE O DRAMA
Os Gritos do Silêncio, dirigido em 1984 por Roland Joffé, não é um filme de guerra; é um drama histórico, que revive os tristes fatos vividos pelos cambojanos nos anos 1970, quando os comunistas tomaram o poder. Para entender o contexto, no entanto, proponho voltar no tempo até a metade do século XIX, quando os filósofos Karl Marx e Friedrich Engels fumavam seus charutos e bebiam perto da lareira, enquanto escolhiam as palavras certas para rechear seu manifesto anticapitalista. Um impunha como prioridade acabar com a propriedade privada, o outro, queria antes desestruturar a família; um desejava eliminar a interferência da religião, o outro, queria limitar as liberdades individuais. Espiritualidade? Moral tradicional? Esqueça! O que importava para eles era o materialismo. Os meios de produção tinham que passar para as mãos do estado!
O pragmatismo como grande desculpa
Estou certo de que a dupla não se julgava inofensiva. Eram revolucionários dispostos a quebrar todos os ovos para fazer suas omeletes; ainda assim, dou a eles o benefício da dúvida: talvez não atinassem para as atrocidades que seriam cometidas pelos seus futuros seguidores. Com algumas variações, a mesma sandice coletivista infectou de totalitarismo um grande número de criminosos em todos os continentes; nos manuscritos de Marx e Engels eles encontraram justificativas para todo tipo de aberração pragmática que desejassem instaurar. Nos países em que tomaram o poder, promoveram genocídios.Gosta de analisar os filmes em profundidade?
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Inscreva-se grátis clicando aqui De todos os déspotas coletivistas, talvez o mais abjeto tenha sido o famigerado Pol Pot. O sujeito era um endiabrado! Desde que assumiu o comando do temido Khmer Vermelho, o Partido Comunista do Camboja, ele não sossegou; comandou a luta armada e tomou o poder em 1975, implantando um dos mais tristes experimentos de engenharia social já registrados: esvaziou as cidades cambojanas e impôs uma utopia agrária; fechou hospitais, templos religiosos e indústrias; controlou a mídia, os meios de produção e o sistema de educação. Para tanto, é claro que precisou prender, torturar e matar indiscriminadamente. Criou um medonho aparato de repressão que perseguiu dissidentes, grupos religiosos e minorias étnicas; os jogou em centros de detenção desumanos, que dividiam espaço com campos de extermínio. Cerda de 30% dos cambojanos foram eliminados – 1,5 milhão de almas.
Pontos de vista de dois personagens
Para retratar esse episódio macabro, Os Gritos do Silêncio focaliza a profunda conexão que se estabeleceu entre dois personagens bem diferentes, que viveram situações assustadoramente perigosas no Camboja. O primeiro é Sydney Schanberg, jornalista americano correspondente do The New York Times, que fazia a cobertura da guerra no país; foi um dos últimos americanos a permanecer trabalhando na capital Phnom Penh, depois que ela caiu em 1975. O outro personagem é seu assistente e tradutor, o fotojornalista Dith Pran; cidadão cambojano, ele não conseguiu sair do pais depois que os comunistas tomaram o poder; foi preso, passou por torturas e escapou dos campos de extermínio de forma dramática.
Os Gritos do Silêncio: na segunda parte, o drama do povo cambojano
Encurralados na embaixada americana
Os Gritos do Silêncio está dividido em duas partes; na primeira, seguimos a trama pelos olhos de Schanberg (Sam Waterston). Quando os estrangeiros em Phnom Penh são evacuados, o jornalista americano consegue despachar a família de Dith Pran (Haing S. Ngor), mas o assistente insiste em ficar; quer continuar ajudando. Consegue livrar o americano de enrascadas, mas terminam encurralados na embaixada americana, cercados de furiosos guerrilheiros. Quando o cerco se fecha, todos os cidadãos cambojanos precisam ser entregues ao Khmer Vermelho. Bem que tentam falsificar um passaporte para Dith Pran, mas a manobra não funciona, por falta de um fixador fotográfico. A partir daí, entramos na segunda parte do filme, quando acompanhamos o sofrimento do cambojano e do seu povo subjugado.
Um ator sem experiências dramáticas
Uma das forças dramáticas de Os Gritos do Silêncio está na atuação de Haing S. Ngor, que recebeu o Óscar de melhor ator coadjuvante. Acontece que o cambojano não era ator; era um médico sem experiências diante das câmeras; havia passado pelos mesmos horrores vividos pelo personagem que interpretou. Perdeu 11 membros da família, mas conseguiu escapar do matadouro em que se transformou seu país. O diretor Roland Joffé justificou sua atuação convincente com um aforismo: o sujeito precisou ser um bom ator para sobreviver ao Khmer Vermelho! Em 1996, Ngor seria morto a tiros na frente de casa, em Los Angeles. Aparentemente, não foi assalto. Há quem aposte em retaliação dos comunistas.

Os Gritos do Silêncio: os horrores vividos pelo personagem e pelo próprio ator
Um roteiro agarrado aos fatos
Grande parte da eloquência de Os Gritos do Silêncio se deve ao roteiro consistente escrito por Bruce Robinson. Ele se baseou no livro que o jornalista Sydney Schanberg publicou em 1980, intitulado A Morte e Vida de Dith Pran. O roteirista entrevistou os personagens, colheu depoimentos e se concentrou nas passagens verdadeiras. Curiosamente, a única invencionice que ousou foi o episódio envolvendo a tentativa de falsificar o passaporte de Dith Pran, o que não aconteceu de fato. Robinson criou a ação dramática em torno da imagem fotográfica que desaparece, para ampliar a escalada de tensão que só iria amentar. Funcionou!Vitória no Oscar
Em Os Gritos do Silêncio, o diretor Roland Joffé soube manter o estilo documental, mas sem desviar o foco dos personagens e seus dramas. O cineasta já tinha muita experiência no teatro e na TV e este foi seu primeiro longa – mais tarde ele também realizaria A Missão, outro comovente filme dos anos 1980, estrelado por Robert DeNiro. Aqui ele realizou um trabalho de muita qualidade técnica. Na contabilidade final do Óscar, a produção arrebatou ainda as estatuetas de melhor fotografia e melhor edição. Ah, o elenco ainda temos John Malkovich, Julian Sands e Craig T. Nelson. Vale a pena conferir! Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!
Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura de Roland Joffé, o roteiro bem costurado, o ótimo trabalho do elenco e a trilha sonora envolvente.
O que surpreende: o estilo documental na primeira parte do filme mostra a tomada de poder pelos comunistas como um fato jornalístico. Na segunda parte, ficamos só com o delírio e com a insanidade.
Imperdível. É cinema de qualidade.
Ficha técnica do filme Os Gritos do Silêncio
Título Original: The Killing Fields
Título em Portugal: Terra Sangrenta
Data de produção: 1984
Direção: Roland Joffé
Roteiro: Bruce Robinson
Roteiro: Bruce Robinson
Elenco:
- Sam Waterston
- Haing S. Ngor
- John Malkovich
- Julian Sands
- Craig T. Nelson
- Spalding Gray
- Bill Paterson
- Athol Fugard
- Graham Kennedy
- Patrick Malahide
- Nell Campbell
- Joanna Merlin

Realmente o cinema nos ensina escancarando a essência de muitos seres que se dizem "humanos ". Gostei desse filme porque realmente mostra com altissima qualidade uma realidade tão difícil de ver.
ResponderExcluirSim, é difícil se deparar com tantas atrocidades. Ainda bem que os realizadores souberam extrair emoções verdadeiras ao contar essa história.
ExcluirGrande filme, emocionante pela sua autencidade como denúncia do avanço fantoche dos chineses contrapondo o expansionismo capitalista americano na região. Os povos é que sofrem na briga ideológica que no fundo é nada mais que busca pelo poder econômico como estamos hoje notando cada vez mais. Guerra civil é isso...
ResponderExcluirGrande filme, emocionante pela sua autencidade como denúncia do avanço fantoche dos chineses contrapondo o expansionismo capitalista americano na região. Os povos é que sofrem na briga ideológica que no fundo é nada mais que busca pelo poder econômico como estamos hoje notando cada vez mais. Guerra civil é isso...
ResponderExcluirSim, e o papel da imprensa revelando os fatos é sempre de suma importância.
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