Crash: No Limite

HISTÓRIAS CRUZADAS, DE PERSONAGENS QUE IRRADIAM EMOÇÕES AUTÊNTICAS



Crash: No limite: filme dirigido por Paul Haggis

Preconceito racial, xenofobia, tensão social, sexismo, machismo... Os temas mais espinhosos borbulham num caldeirão chamado Los Angeles, onde os aglomerados de gentes diversas se afastam e se isolam. Em Crash: No Limite, filme de 2004 escrito e dirigido por Paul Haggis, os personagens estão preocupados com seus dramas pessoais e não percebem que suas vidas se cruzam, num emaranhado de coincidências. Um grande filme, que até hoje suscita discussões.
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Sim, na vida real as histórias se cruzam, embaralhando causas e efeitos numa teia incompreensível para quem segue eternamente concentrado nos próprios problemas. Paul Haggis colheu um punhado de histórias distintas e as costurou num roteiro primoroso, onde desenhou um retrato nítido de algumas das muitas tensões que pairam sobre os habitantes de Los Angeles.

– Ah, mas é forçar demais a barra – vociferaram alguns, enxergando apenas as coincidências engendradas pelo roteirista na hora de ir colando as arestas do seu filme. Mas essas artimanhas narrativas são o que menos importa. Apenas demonstram o virtuosismo de Haggis, que já nos havia presenteado com o brilhante roteiro de Menina de Ouro. O que consolida a força de Crash: No Limite é o fluxo de emoções que brota espontâneo dos seus personagens, enquanto tomam suas decisões pressionados por circunstâncias que não controlam – como acontece na vida real, não é mesmo?

Ao contar cada uma das histórias com concisão e objetividade, o diretor impõe um ritmo uniforme ao filme. A atmosfera parece fantasiosa, sempre no limite entre o real e o improvável, mas isso acaba envolvendo o espectador. Conhecemos um promotor e sua mulher, um cineasta, um policial, um imigrante, uma mãe, um pai... Externamente são todos definidos pela cor, pelo gênero, pelo cargo, pelas crenças, pela conta bancária... Na medida em que os vemos em ação, agindo e reagindo, penetramos em seus mundos internos e encontramos novos atributos para defini-los – como acontece na vida real, não é mesmo?

Desfiar as qualidades técnicas de Crash: No Limite é chover no molhado. O filme conquistou três óscares: melhor filme, melhor roteiro original e melhor edição. Com um elenco excelente, que sabe aproveitar todas as oportunidades dramáticas, o filme nos faz pensar e fornece material emocional suficiente para gerar aprendizado. Cada espectador elege suas histórias preferidas e eventualmente deixa de lado aquelas que o incomodam.

No Brasil, o título do filme ganhou o apêndice “No Limite”, o que considero uma ótima escolha. Para os anglófonos, o termo crash tem um largo espectro de significados ligados aos conceitos de choque e conflito. O título em português sugere que os personagens são flagrados no momento limite entre o antes e o depois das suas tomadas de decisão. Temos, portanto, a oportunidade de assistir às suas transformações!


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.


 
Filme: Crash: No Limite

Ano de produção: 2005
Direção: Paul Haggis
Roteiro: Paul Haggis
Elenco: Sandra Bullock, Don Cheadle, Matt Dillon, Ryan Phillippe, Chris "Ludacris" Bridges, Brendan Fraser, Michael Peña, Jennifer Esposito, Tony Danza, Thandie Newton, Daniel Dae Kim e Terrence Howard

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