Crítica | Crash: No Limite: Paul Haggis cruzou histórias, tocou em temas espinhosos e fez um filme emocionante.

Cena do filme Crash: No Limite
Crash: No Limite: filme dirigido por Paul Haggis

A VIDA VEM EM UM EMARANHADO DE COINCIDÊNCIAS

Crash: No Limite, filme escrito e dirigido em 2005 por Paul Haggis, é um filme inquietante. Reúne várias histórias emocionantes, vividas por personagens desconectados uns dos outros, que se trombam ao sabor do acaso. Preconceito racial, xenofobia, tensão social, sexismo... Os temas espinhosos borbulham num caldeirão chamado Los Angeles. Preocupadas com seus dramas pessoais, as pessoas se esquecem que, na vida real, as histórias se cruzam num emaranhado de coincidências; vêm embaralhadas numa trama incompreensível de causas e efeitos. Na medida em que as ações e reações explodem na tela, o que eram apenas estereótipos se tornam retratos mais nítidos de pessoas de carne e osso.

Vidas que se cruzam

        Ao misturar um punhado de histórias distintas, o diretor Paul Haggis costurou um roteiro primoroso; retratou algumas das muitas tensões que pairam sobre os habitantes de qualquer grande cidade. Alguns espectadores, no entanto, acharam que o diretor forçou a barra, reclamando que seu roteiro exagerou na quantidade de coincidências. Bobagem! Essa artimanha narrativa é o que menos importa; apenas demonstra o virtuosismo narrativo de Haggis, que um ano antes já nos havia presenteado com o brilhante roteiro de Menina de Ouro, dirigido e estrelado por Clint Eastwood. O que consolida a força de Crash: No Limite é o fluxo de emoções que brota espontâneo dos seus personagens, enquanto tomam decisões pressionados por circunstâncias que não controlam – como acontece na vida real, não é mesmo?

Cena do filme Crash: No Limite
Crash: No Limite: personagens tomando decisões cruciais

No começo, vemos apenas os estereótipos

        Ao contar cada história com concisão e objetividade, o diretor impõe um ritmo uniforme ao filme. A atmosfera parece fantasiosa, sempre no limite entre o real e o improvável, mas é isso que envolve o espectador. Conhecemos um promotor e sua mulher, um cineasta, um policial, um imigrante, uma mãe, um pai... Externamente, são todos definidos pela cor da pele, pelo gênero, pelo cargo, pelas crenças e pela conta bancária; porém, na medida em que agem e reagem, penetramos em seus mundos internos e encontramos novos atributos para defini-los – como acontece na vida real, não é mesmo?

Um caso da vida real

        Para ilustrar esse ponto, deixe-me narrar um fato que aconteceu comigo há alguns anos. Voltava para casa no final da tarde, disputando espaço numa via rápida, quando percebi que o ônibus à minha direita freou bruscamente; por puro instinto, tirei o pé do acelerador. Foi minha sorte! Uma velhinha escapou por um triz de ser atropelada pelo ônibus, mas continuou correndo e veio para a minha pista; pisei no freio e senti o carro deslizar até ela. Pude ver a expressão de espanto da velhinha, seus cabelos desgrenhados, a sacola plástica que ela carregava, sua blusa de lã marrom tricotada a mão (talvez por ela mesma)... Quando meu carro parou, esbarrou na infeliz; ela se desiquilibrou e se esparramou de peito sobre o capô; depois, escorregou para chão e sumiu do meu campo de visão. Saí do carro e a encontrei sentada no asfalto.

Cena do filme Crash: No Limite
Crash: No Limite: histórias que se cruzam na cidade de Los Angeles

A velinha, afinal, tinha um nome

        Primeiro, certifiquei-me de que ela estava bem. Sem escoriações, apenas reclamava de dores por causa da queda; então a coloquei no carro e a levei para o hospital de fraturas. Perdi muitas horas com o registro da ocorrência; fui até o IML, fiz o teste de dosagem alcoólica; passei na farmácia e comprei remédios para a Dona Inês (que descobri, já contava 86 anos) e depois fui levá-la até em casa. A entreguei para os dois filhos – ambos mais velhos do que eu –, mas não sem antes dar-lhes uma bronca: onde já se viu deixar à solta uma senhora tão idosa e atrevida? 

Um emaranhado de surpresas e desgostos

        Quando retomei o caminho de casa, já estava mais calmo. O trânsito já fluía fácil e pus para tocar o CD de blues engatilhado no player. Ah, os dramas urbanos aos quais somos expostos... Fragmentos do meu dia se misturaram com as imagens dos carros, das ruas, e das pessoas que circulavam despreocupadas. Dobrei a atenção: vai que o inesperado teime em ser repetitivo – já bastava o azar de ter a minha vida cruzada com as de Dona Inês e seus dois filhos displicentes, que depois de tudo ainda exigiram que ela lhes preparasse o jantar. Percebi que numa cidade agitada, as vidas de todos se cruzam, numa maçaroca de surpresas e desgostos. Então, como cinéfilo meticuloso que sou, comecei a relembrar as várias sequências de Crash: No limite. Que filme inquietante!

Cena do filme Crash: No Limite
Crash: No Limite: os estereótipos vão dando lugar a retratos mais definidos

Oportunidades de aprendizado

        As qualidades técnicas de Crash: No Limite são muitas; o filme conquistou três óscares: melhor filme, melhor roteiro original e melhor edição. Conta com um elenco excelente, repleto de astros consagrados, que souberam aproveitar todas as oportunidades dramáticas do roteiro escrito pelo próprio diretor. Oferece várias cenas memoráveis e conta diferentes histórias que nos fazem pensar; fornece material emocional suficiente para gerar aprendizado. Cada espectador elege suas histórias preferidas e eventualmente deixa de lado aquelas que o incomodam.

Tomando decisões sob pressão emocional 

        No Brasil, o título do filme ganhou o apêndice No Limite, o que considero uma ótima escolha. Para os anglófonos, o termo crash tem um largo espectro de significados ligados aos conceitos de choque e conflito. Já o título Crash: No Limite sugere que os personagens são flagrados no momento limite entre o antes e o depois das suas tomadas de decisão. Temos, portanto, a oportunidade de assistir às suas transformações!

Cena do filme Crash: No Limite
Crash: No Limite: os personagens flagrados entre o antes e o depois

Saímos transformados do cinema

        Meu encontro com Dona Inês foi transformador? Certamente que sim! Hoje sou um motorista bem mais atento. Quanto aos filhos dela, já não garanto. Há um detalhe revelador nessa história que deixei para o final: a sacola plástica que a velinha carregava continha uma dúzia de ovos. Incrivelmente, nenhum deles se quebrou! Ela chegou em casa a tempo de preparar o jantar. Alimentou os filhos como se nada tivesse acontecido.

Veredito da crônica de cinema

★★★★★(5 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Paul Haggis, o roteiro muito bem costurado, as atuações de todo o elenco, a trilha sonora envolvente e o fluir orgânico da narrativa.

O que surpreende: na medida em que cruza diferentes histórias, o diretor monta um mosaico emocional verossímil e envolvente.

Imperdível. É cinema de alta qualidade.

Ficha técnica do filme Crash: No Limite

Ano de produção: 2005
Direção: Paul Haggis
Roteiro: Paul Haggis

Elenco:
  • Sandra Bullock
  • Don Cheadle
  • Matt Dillon
  • Ryan Phillippe
  • Chris "Ludacris" Bridges
  • Brendan Fraser
  • Michael Peña
  • Jennifer Esposito
  • Tony Danza
  • Thandie Newton
  • Daniel Dae Kim
  • Terrence Howard

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