Birdman (Ou a Inesperada Virtude da Ignorância): motivos de sobra para assisir

Birdman: filme dirigido por Alejandro Iñárritu

UMA GRANDE OUSADIA DO CINEMA, FILMADA EM UM ÚNICO PLANO-SEQUÊNCIA

Uma postagem recente da Crônica de Cinema sobre o filme 1917, dirigido por Sam Mendes, rendeu comentários provocativos de seguidores da página no Facebook. Dois deles, Emmanuel Martins Manu e Sonia Cardoso, ficaram intrigados em relação às técnicas de filmagem que possibilitaram a montagem de apenas dois longos planos-sequência. A sugestão foi a de que escrevesse sobre tal proeza. Embora não tenha credenciais para entrar nos meandros técnicos, decidi aceitar a provocação, mas levando o assunto para um terreno que me é mais familiar: os recursos narrativos.
        Para elevar a técnica do plano-sequência ao estado da arte, Sam Mendes contou com um vultoso orçamento, além de profissionais especializados e equipamentos de ponta. Seu filme é um espetáculo visual, mas não foi realizado em “duas tacadas”, como somos levados a crer. Na verdade, há diversos planos-sequência colados entre si com tamanha precisão que tornam os cortes invisíveis – objetos que passam na frente da câmera, personagens entrando em túneis ou passando através de portas... Tudo isso ajuda. O segredo está na preparação.
        Para o filme 1917 foram construídas maquetes dos cenários, que ajudaram a planejar o percurso dos atores, o posicionamento das câmeras e a iluminação. O tempo de duração de cada cena foi o ponto de partida. Primeiro elas foram cronometradas e só então construíram os cenários em função do tempo que os atores levariam para percorrê-los. Depois disso, vieram os inúmeros ensaios envolvendo toda a equipe. O maior desafio foi dar 360 graus de mobilidade às câmeras, que precisavam ser leves e estáveis para acompanhar os atores. Resolveram isso tirando proveito das novas tecnologias de câmeras de alta definição, que podem ser acopladas rapidamente em guindastes, drones ou veículos. Como resultado temos imagens estáveis e uniformes em termos de cores e iluminação.
        Sam Mendes nos colocou em imersão junto com seus personagens, percorrendo trincheiras, vivendo os horrores da guerra e enfrentando a morte. Porém, esse preciosismo técnico cobrou um preço: seu filme não alcançou a densidade dramática que encontramos em outras produções convencionais do gênero. Por isso, decidi falar de outro filme realizado como um único plano-sequência, que alcançou notoriedade principalmente pelas qualidades dramáticas. Trata-se de Birdman (Ou a Inesperada Virtude da Ignorância), de 2014, dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu.
        O filme conta a história fictícia do ator Riggan Thomson, que se tornou famoso na pele de um super-herói ícone da cultura pop. Com a carreira em declínio, decide dar uma tacada que poderá devolvê-lo ao mundo competitivo do show bizz: escrever, dirigir e estrelar a adaptação para a Broadway de um texto consagrado. Aos problemas que ele enfrenta na pré-estreia, com os ensaios, o elenco, o agente, a ex-mulher e a filha, soma-se o tormento de escutar a voz insistente do personagem Birdman que retumba em sua mente.
        Drama, pitadas de humor sarcástico e muitas críticas ao mundo glamouroso e intelectualizado da Broadway e de Hollywood brotam de um roteiro impecável, que irradia originalidade e criatividade. Além do desempenho memorável de Michael Keaton – que curiosamente interpretou Batman no filme de Tim Burton – assistimos a ótimas atuações de Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts e outros. Porém, a atmosfera construída por Iñárritu é o ponto alto do filme. De um lado temos o baterista mexicano Antonio Sanchez, com sua musicalidade jazzística, conduzindo uma trilha sonora envolvente e tensa. De outro, temos a mágica do plano-sequência, que nos coloca muito próximos aos personagens e nos traz a sensação de presenciar uma ação contínua, sem cortes.
        Os truques de Iñárritu são os mesmos usados por Sam Mendes, guardando-se as proporções orçamentárias e tecnológicas – Birdman custou uma fração de 1917. Muito planejamento, ensaios exaustivos, preparação dos cenários, domínio sobre a movimentações de câmera e uma integração perfeita entre atores e equipe técnica são os principais ingredientes da receita. O mexicano, entretanto, alcançou um resultado dramático bem mais intenso.
        – Mas por que raios um diretor se atreveria a realizar um plano-sequência, já que isso impõe dificuldades técnicas e orçamentarias? – perguntaria um cinéfilo mais pragmático.
        – Por isso mesmo: atrevimento! – É a resposta que me vem à mente.
        O Plano-sequência é uma ousadia que traz destaque para o filme e é capaz de consagrar seu diretor, mostrando virtuosismo, domínio das técnicas narrativas e muita confiança. Alfred Hitchcock, Christopher Nolan, Orson Welles, Robert Altman e Alfonso Cuaron – para citar apenas uns poucos – já nos apresentaram filmes onde essa mágica faz a diferença. Mas é claro que há outros motivos mais justificáveis: revelar personagens e rastrear sua jornada, desenvolver subenredos, criar tensão, revelar conflitos, gerar suspense... Sem cortes, um plano-sequência atrai o espectador suavemente para o espaço dramático e permite uma visão mais precisa do cenário e das movimentações. 
        Na vida real tudo acontece em sequência, sem cortes. Mas nossos olhos perseguem sempre uma narrativa, enxergando plano após plano! Num filme, o diretor simula o movimento dos nossos olhos, apontando a câmera para onde estiver a ação, articulando a narrativa nos diferentes planos que normalmente comporiam uma sequência convencional. Tudo precisa estar muito bem coreografado, para que a ação aconteça em sincronismo. O que se ganha com isso? Tensão, realismo, envolvimento do espectador...
        Em Birdman (Ou a Inesperada Virtude da Ignorância), Alejandro Iñárritu esbanjou competência e ousadia e conseguiu tudo isso. E conseguiu também quatro Óscares! Venceu nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro original e melhor fotografia.


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.


 

Filme: Birdman (Ou a Inesperada Virtude da Ignorância)


Ano de produção: 2014
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Jr., Armando Bó
Elenco: Michael Keaton, Zach Galifianakis, Edward Norton, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Emma Stone e Naomi Watts

Comentários

Leia também: