O Enigma de Kaspar Hauser: uma reflexão sobre a aquisição da linguagem

Cena do filme O Enigma de Kaspar Hauser
O Enigma de Kaspar Hauser: filme dirigido por Werner Herzog

A LINGUAGEM DO CINEMA AMPLIOU O ALCANCE DESSA OBRA QUE NASCEU NA LITERATURA

Quando O Enigma de Kaspar Hauser, filme de 1974 dirigido por Werner Herzog foi exibido nos cinemas Brasileiros, meu caso de amor com a sétima arte ainda era inteiro passional. Aos 16 anos, tinha ralos conhecimentos sobre as técnicas de contar histórias e tudo o que me prendia à tela era a qualidade do enredo. E como esse me prendeu! Lembro-me de tê-lo visto duas ou três vezes em questão de semanas.
        A história do sujeito que aparece na praça da aldeia segurando uma carta na mão e congelado de medo, suscitou em mim grande pena e muita tristeza. Levou-me a refletir sobre a importância da linguagem e de como a inteligência depende dela para se manifestar. Mostrou-me que a comunicação funciona como uma ponte entre o indivíduo e a realidade. Que é através dela que nos damos conta da alteridade.
        Mas antes de continuar “filosofando”, deixe-me apresentar uma breve sinopse do filme: Kaspar Hauser passou a vida confinado em uma cela escura, sem qualquer contato com o mundo exterior ou com outros seres humanos. Não fala nem compreende palavra alguma. De repente, numa noite em 1828, um sujeito misterioso o retira da cela e o larga no meio da tal praça, numa aldeia próxima a Nuremberg. Depois da comoção inicial – para ele e para os aldeões – todos se esforçam para integrá-lo à comunidade, o que se estende por anos. Acompanhamos o aprendizado de Kaspar Hauser e seu desenvolvimento como ser social, na esperança de que o enigma da sua existência seja enfim elucidado.
        Herzog escreveu o roteiro tomando como base um romance de Jakob Wassermann publicado em 1908 e deu ao seu filme o título de Jeder für sich und Gott gegen alle (Cada um por si e Deus contra todos). Por motivos que desconheço, esse título existencialista foi trocado no Brasil por O Enigma de Kaspar Hauser, o que não considero de todo equivocado, afinal, a palavra “enigma” consegue desencadear todo um emaranhado de suposições, deduções e especulações que envolve a origem e o destino do pobre rapaz tristemente submetido a um experimento social.
        Não há como negar: esse só poderia ser um filme... alemão! O processo de aquisição da linguagem, o papel essencial da sintaxe na construção do pensamento, a objetividade lógica e racional no trato com as palavras... Essa foi a primeira produção falada em alemão à qual assisti. Fiquei encantado com o ritmo, a narrativa e a estética tão diversa das produções hollywoodianas que dominavam nossas salas de cinema.
        Psicólogos e filósofos certamente encontrarão motivos de sobra para analisar e estudar esse filme a fundo. Já um cinéfilo curioso, categoria na qual me enquadro com prazer, verá O Enigma de Kaspar Hauser como uma grande oportunidade para se emocionar e mergulhar no denso mar de significados que ele enseja.

Resenha crítica do filme O Enigma de Kaspar Hauser

Ano de produção: 1974
Direção: Werner Herzog
Roteiro: Werner Herzog
Elenco: Bruno S., Walter Ladengast, Brigitte Mira e Willy Semmelrogge

Comentários

  1. Muito boa a crítica. Estimulante.
    Me deu vontade de ver o filme.

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    Respostas
    1. Obrigado. Além de ótimo, o filme é bastante proveitoso.

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