Os Sete de Chicago

UM FILME DE TRIBUNAL ONDE  RESPIRAMOS O GÁS LACRIMOGÊNEO DOS ANOS 60



Os Sete de Chicago: filme dirigido por Aaron Sorkin

        Ao lidar com temas políticos, um diretor sabe que será julgado pela plateia sob dois parâmetros: pela sua ideologia e pelo seu cinema. Em os Sete de Chicago, filme de 2020, Aaron Sorkin soube manter sua ideologia a uma distância discreta, mas não poupou espaço para o seu ótimo cinema! Realizou essencialmente um filme de tribunal, com todos os cacoetes do gênero e repleto de momentos eletrizantes.
        Como roteirista, Aaron Sorkin já revelou seu talento em filmes como Questão de honra, Jogos de Poder e A Rede Social. Como diretor, já havia realizado A Grande Jogada. Agora, escreveu e dirigiu Os Sete de Chicago, depois que o diretor destacado originalmente – ninguém menos que Steven Spielberg – teve que abandonar o projeto. Saiu-se bem! O filme narra um episódio histórico na vida jurídica e política dos americanos, que contribuiu para estabelecer os rumos do partido democrata e da esquerda naquele país. Vamos a uma sinopse! Ou melhor, vamos aos fatos reais que o filme recria:
        Em 1968, depois que os republicanos realizaram sua convenção em Miami e lançaram Richard Nixon como candidato, foi a vez dos Democratas, em Chicago. Mas foi um desastre. A cidade acabou invadida por milhares de manifestantes de diferentes vertentes do partido, que disputavam os holofotes da mídia. Queriam influenciar na escolha do nome que sairia para concorrer com Nixon. Mas o que a mídia registrou foram cenas de violência e quebra-quebra que chocaram os americanos – e o mundo inteiro, que não esperava esse tipo de selvageria vindo da mais poderosa democracia do planeta.
        A polícia despreparada, contaminada de racismo, sexismo e todo tipo de preconceito, agiu com truculência desproporcional. Os manifestantes – ativistas negros, feministas, estudantes e representantes de minorias – unificaram seu discurso em torno dos protestos contra a Guerra do Vietnam, abominada pela grande maioria da opinião pública. Incitados, os que vieram para protestar partiram para o confronto. Oito líderes ativistas foram acusados de conspiração e incitação à violência, dando início a um longo e histórico julgamento, para estabelecer quem foi que começou a batalha campal.
        Apesar do episódio não ter deixado vítimas fatais, o desgaste para os democratas foi enorme. Viram o nome de Hubert Humphrey sair da desastrada convenção, para depois perder de lavada para Nixon. Porém, nos meses seguintes, no palco do julgamento, os réus viraram o jogo diante da opinião pública, já que o tribunal do juiz Hoffman foi permeado de injustiças e casuísmos. Foram mais de seis meses, trinta sessões e centenas de testemunhas, num longo espetáculo que rendeu picos de audiência em toda a mídia.
        O oitavo réu, o membro do Partido dos Panteras Negras Bob Seale, sobre quem pesava a acusação de assassinato durante outro episódio, teve seu julgamento desmembrado, depois de ser submetido a humilhações medievais apenas por tentar exercer seu direito de defesa. Os sete que restaram, confirmando o título do filme, foram Abbie Hoffman, Jerry Rubin, David Dellinger, Tom Hayden, Rennie Davis, John Froines e Lee Weiner. Listados assim, esses nomes talvez não tenham relevância para nós, brasileiros, mas para quem acompanha a política americana, certamente.
        Talvez o único nome mais conhecido por aqui seja o do humorista e expoente da contracultura Abbie Hoffman, muito bem interpretado pelo ator cômico Sacha Baron Cohen (o Borat). Abbi Hoffman já foi caracterizado no filme Forrest Gump, vestindo sua camisa estampada com a bandeira americana, quando falava à multidão em frente ao Monumento a Washington.
        Os Sete de Chicago é assim mesmo, um filme repleto de informações e subtextos, que joga com o que a plateia já sabe, mas segue ágil tentando resgatar a atmosfera rebelde e engajada que respirávamos em 1968. O roteiro de Aaron Sorkin usa os flashbacks com habilidade, ora para corroborar os depoimentos das testemunhas, ora para mostrar os fatos como aconteceram, refrescando a memória do público e satisfazendo o nosso voyeurismo.
        O trabalho do elenco, competente e talentoso, é decisivo para capturar a atenção do espectador até a cena final. Com um excelente roteiro nas mãos, que conseguiu simplificar uma história repleta de nomes e detalhes, Aaran Sorkins mostrou segurança e competência na direção. Mas para concluir, não resisto à tentação de lançar uma provocação a quem já assistiu ao filme: não acham que há nessa criança um tanto de DNA do Spielberg? Acho que ele deve ter feito muito bem ao projeto antes de abandoná-lo.



Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.



Filme: Os Sete de Chicago


Ano de produção: 2020
Diretor: Aaron Sorkin
Roteiro: Aaron Sorkin
Elenco: Sacha Baron Cohen, Eddie Redmayne, Yahya Abdul-Mateen II, Jeremy Strong, Mark Rylance e Joseph Gordon-Levitt

Comentários

  1. Ótimo filme, fantásticos roteiro e a crônica, caro Fábio

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    1. Também gostei muito do filme. Valeu!!!! Essa safra para o Óscar está interessante!!!!!

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