Questão de Honra: um empolgante filme de tribunal

Cena do filme Questão de Honra
Questão de Honra: direção de Rob Reiner

OS PERIGOS DE DAR PODER AOS IRREFREÁVEIS

Instituições militares só funcionam por causa da disciplina. Reguladas por normas rígidas, as relações de subordinação entre os níveis hierárquicos asseguram obediência cega às ordens vindas de cima. Porém, há um risco inerente: o juízo pessoal dos líderes, vulneráveis a personalismos e à fome de poder, eventualmente gera distorções ao longo da cadeia de comando, sempre em favor de interesses escusos. No seu filme Questão de Honra, realizado em 1992, o diretor Rob Reiner mostra um desses episódios, ainda que fictício, onde a injustiça vem de atos burocráticos envolvendo oficiais da Marinha americana. Trata-se de um típico filme de tribunal – um dos melhores, diga-se de passagem – onde promotores e defensores lutam para fazer justiça, enquanto se dão conta de que não conhecem todos os fatos e tentam lidar com as manobras jurídicas. Mas antes de entrar nos detalhes, é mais prudente conhecer a sinopse.
        O filme nos conta como o soldado William Santiago (Michael DeLorenzo), um fuzileiro naval servindo na base de Guantánamo, em Cuba, termina morto por dois colegas, os soldados Harold Dawson (Wolfgang Bodison) e Louden Downey (James Marshall), que são imediatamente presos e enfrentam a corte marcial. O motivo do crime logo fica claro: trata-se de vingança, porque a vítima era um péssimo fuzileiro, não se relacionava bem com os colegas e desonrou a tropa, quebrando a cadeia de comando e solicitando transferência para outra unidade. Mas a coisa não é tão simples assim! O tenente-coronel Matthew Markinson (J.T. Walsh) bem que tentou transferir Santiago, mas o todo poderoso coronel Nathan Jessup (Jack Nicholson) foi taxativo: nada de transferência. Ordena ao tenente Jonathan James Kendrick (Kiefer Sutherland) que realize um “treinamento” com o fuzileiro insubordinado, o que resultou na sua morte. Quando o caso vai parar na mesa da tenente-comandante Joanne Galloway (Demi Moore), investigadora e advogada da marinha, ela logo fareja os desmandos que estão por trás do crime e se articula para defender os acusados, mas acaba tendo que trabalhar sob a tutela de outro advogado, o jovem tenente Daniel Kaffee (Tom Cruise), famoso por suas habilidades jurídicas e sua inclinação por negociar as melhores sentenças. Enquanto investiga o caso, a defesa se depara com revelações inesperadas e tem que lidar com a astúcia de um promotor habilidoso, o capitão Jack Ross (Kevin Bacon).
        Questão de Honra nasceu primeiro como peça de teatro, escrita por Aaron Sorkin quando tinha vinte e oito anos. Estreou na Broadway em 1989, tornou-se um grande sucesso e chamou a atenção de Hollywood. O próprio autor escreveu a adaptação para as telas e iniciou uma bem-sucedida carreira no cinema – mais tarde escreveu o roteiro de A Rede Social, pelo qual ganhou o Óscar de melhor roteiro adaptado e dirigiu o filme Os Sete de Chicago. Também foi criador e roteirista da série para a TV intitulada West Wing: Nos Bastidores do Poder.
        Sorkin tornou-se conhecido por sua habilidade em escrever diálogos ágeis e precisos. Sabe dar conta com desenvoltura das cenas expositivas, colocando seus personagens para conversar diante das câmeras e assim passar todas as informações necessárias para que espectador acompanhe a trama. Ele conta que a ideia para escrever Questão de Honra brotou numa conversa com sua irmã, que trabalhava como advogada na marinha e precisou defender alguns fuzileiros acusados de agressão na base de Guantánamo. Levou dois anos escrevendo o roteiro da peça e na hora de adaptá-la para o cinema, contou com ajuda do experiente William Goldman, que fez algumas intervenções não creditadas.
        O diretor Rob Reiner também foi decisivo para o sucesso comercial de Questão de Honra. Hábil em lidar com os trâmites de Hollywood – dirigiu sucessos como Conta Comigo, Louca Obsessão e Antes de Partir – viabilizou a produção e soube imprimir um ritmo ágil à narrativa. Apesar da profusão de diálogos, o filme transcorre ágil, sem cansar o espectador. É claro que a presença em cena de um elenco estrelado colaborou, e muito. Tom Cruise e Demi Moore estão à vontade para esbanjar carisma e desenvoltura, mas é Jack Nicholson quem hipnotiza, entregando mais uma atuação memorável.
        Questão de Honra é um filme empolgante, que escancara os perigos de se entregar o poder absoluto a homens que não se furtam a burlar o sistema e se recusam a ser controlados. É um deleite para quem aprecia os dramas de tribunal e uma produção que merece ser revisitada, pois traz detalhes que escapam à primeira vista. Fiz isso outro dia e adorei!

Resenha crítica do filme Questão de Honra

Ano de produção: 1992
Direção: Rob Reiner
Roteiro: Aaron Sorkin
Elenco: Tom Cruise, Jack Nicholson, Demi Moore, Kevin Bacon, Kiefer Sutherland, Kevin Pollak, Wolfgang Bodison, James Marshall, J. T. Walsh, J. A. Preston, Michael DeLorenzo, Noah Wyle, Cuba Gooding Jr., Xander Berkeley, Matt Craven, John M. Jackson, Christopher Guest, David Bowe, Joshua Malina, Harry Caesar e Arthur Senzy

Comentários

Confira também:

Menina de Ouro: a história de Maggie Fitzgerald é real?

Encontro Marcado: explicando para a morte qual é o sentido da vida

Siga a Crônica de Cinema