Meu Pai

UM QUADRILÁTERO QUE SE ESTABELECE ENTRE PERSONAGEM, ATOR, DIRETOR E ROTEIRISTA



Meu Pai: filme dirigido por Florian Zeller

        Quando estava na faculdade, certa vez recebemos o ator Paulo Autran para uma palestra. Era um monstro sagrado do nosso teatro, que tinha a generosidade de falar aos estudantes de comunicação por onde passava. Nessas ocasiões, ele sempre dizia que “o teatro é a arte do ator, o cinema a do diretor e a TV a do patrocinador”. Jamais esqueci essa tirada e fiquei com ela em mente enquanto assistia ao filme Meu Pai, de 2020, dirigido pelo francês Florian Zeller. Pensei que estava vivendo uma experiência fronteiriça entre o cinema e o teatro, onde ator e diretor dividem o poder.
        Meu Pai é sobre a demência que se apodera de um octogenário e não é preciso dizer mais do que isso para se ter uma sinopse aceitável. Mas é também sobre transpor teatro para o cinema e entregar ao espectador uma experiência sensorial convincente dessa demência. O diretor conseguiu isso quando decidiu adaptar sua peça Le Pére, com a ajuda do roteirista Christopher Hampton, decidido a não realizar apenas uma mera filmagem da encenação. Também não caiu na tentação de reescrever cenas para adicionar o realismo das locações externas. Seu filme continuou confinado e claustrofóbico, enclausurando o espectador com a demência do personagem.
        Trabalhando no estúdio, Zeller conseguiu lidar com as mudanças de cenário em um nível de grande sutileza. Móveis, quadros, salas, cozinhas, quartos... Tudo está em constante mutação para desorientar o espectador – um recurso cinematográfico que não está disponível com a mesma agilidade na peça teatral. O texto também precisou ser reescrito, tornando-o mais sucinto para incorporar na narrativa os recursos da linguagem audiovisual.
        A mobilidade dos atores, os movimentos de câmera, os planos abertos e os detalhes nas expressões dos atores são usados em Meu Pai com um ótimo senso de ritmo e uma estética coerente, mostrando que Florian Zeller tem pleno domínio da linguagem cinematográfica. Mas percebemos claramente que o diretor tem sangue teatral correndo nas veias e entregou o bastão para os atores, deixando que eles completassem o percurso.
        É então que Anthony Hopkins e Olivia Colman brilham fulgurantes. Ele, merecido ganhador do Óscar de melhor ator por esse papel, é a grande força dramática do filme. Ela, indicada para a estatueta de melhor atriz coadjuvante, entregou uma interpretação à altura e não menos emocionada.
        Sobre Anthony Hopkins é preciso que se diga: ele não se limita a uma construção teatral do seu personagem, mas joga com a câmera um jogo de proximidade e distanciamento que põe o espectador desconcertado e... hipnotizado. Sabe explorar suas falas e seus momentos de silêncio com a mesma eloquência – é verdade que em relação a isso precisamos reconhecer o mérito do roteirista Christopher Hampton, que já ganhou o Óscar de melhor roteiro adaptado por Ligações Perigosas e agora levou nova estatueta pela sua escrita em Meu Pai.
        Há ainda um importante truque usado por Florian Zeller que merece ser mencionado. Em sua peça, o personagem se chama André, mas no filme ele o rebatizou de... Anthony! Sim, o mesmo nome do ator. Em certos momentos – os mais emocionantes – percebi que isso criou um incrível círculo de significados, em um nível poético. Enxerguei um personagem confrontando a perda de identidade e a iminência da finitude, mas me deparei também com um ator, cuja vida é incorporar diferentes identidades, parecendo confuso e desorientado diante sua própria finitude. Poucos dariam conta de uma tarefa tão... emocionante!
        Em Meu Pai, o tempo todo buscamos descobrir quem é o personagem, sua história e sua identidade. Queremos saber o que é realidade e o que é delírio. No final ficamos com a impressão de que encontramos as respostas. Mas... seguindo a lógica que o filme nos propõe, é válido lembrar que se houvesse mais minutos de projeção, acabaríamos esquecendo tudo. Completamente.



Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.



Filme: Meu Pai


Ano de produção: 2020
Direção: Florian Zeller
Roteiro: Christopher Hampton e Florian Zeller
Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Imogen Poots, Rufus Sewell e Olivia Williams

Comentários

  1. "Meu Pai"

    Para mim, este foi o mais profundo e melhor desempenho da brilhante carreira do grande ator, e Sir, Anthony Hopkins. Sua premiação foi merecidíssima, sua atuação, com essa personagem de mesmo nome (Anthony) é um marco perene na história do cinema, e, por isso, eu não poderia deixar de registrar, como meu tributo maior a este estupendo ator - para mim, um dos maiores de todos os tempos!

    Assisti mais de uma vez e ainda estou chocado com a lucidez e a capacidade imensa de Anthony Hopkins, aos 83 anos, para compor, com perfeição, uma personagem, mais ou menos da mesma idade dele e que sofre de senilidade e demência, coisas que Hopkins, clara e evidentemente, não sofre, mas entende e sabe representar, como ninguém!

    Eu, também, jamais poderia deixar de destacar a não menos soberba e inesquecível atuação de Olivia Colman, como Anne, a filha de Anthony. A Academia ficou lhe devendo seu, também mais que merecido, Oscar por este papel. Prestei muita atenção na atuação soberba da Olivia Colman, que merece toda a atenção dos amantes da Arte da interpretação. Que desempenho perfeito, profundo, maravilhoso!

    E na história, dilacerante, sob meu ponto de vista, em alguns aspectos, me vejo na figura dele, hoje e amanhã.

    Entre a flutuante realidade atual e a demência do futuro, assim como Anthony...

    "Eu sinto que estou perdendo todas as minhas folhas"...
    .

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    1. Os méritos de Anthony Hopkins e Olivia Colman são gigantes nesse filme, Walmir Lima. Temos que destacar também o excelente texto e a competente adaptação para o cinema feita por Florian Zeller e Christopher Hampton.

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  2. "Meu Pai"

    Para mim, este foi o mais profundo e melhor desempenho da brilhante carreira do grande ator, e Sir, Anthony Hopkins. Sua premiação foi merecidíssima, sua atuação, com essa personagem de mesmo nome (Anthony) é um marco perene na história do cinema, e, por isso, eu não poderia deixar de registrar, como meu tributo maior a este estupendo ator - para mim, um dos maiores de todos os tempos!

    Assisti mais de uma vez e ainda estou chocado com a lucidez e a capacidade imensa de Anthony Hopkins, aos 83 anos, para compor, com perfeição, uma personagem, mais ou menos da mesma idade dele e que sofre de senilidade e demência, coisas que Hopkins, clara e evidentemente, não sofre, mas entende e sabe representar, como ninguém!

    Eu, também, jamais poderia deixar de destacar a não menos soberba e inesquecível atuação de Olivia Colman, como Anne, a filha de Anthony. A Academia ficou lhe devendo seu, também mais que merecido, Oscar por este papel. Prestei muita atenção na atuação soberba da Olivia Colman, que merece toda a atenção dos amantes da Arte da interpretação. Que desempenho perfeito, profundo, maravilhoso!

    E na história, dilacerante, sob meu ponto de vista, em alguns aspectos, me vejo na figura dele, hoje e amanhã.

    Entre a flutuante realidade atual e a demência do futuro, assim como Anthony...

    "Eu sinto que estou perdendo todas as minhas folhas"...
    .

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