O Exorcista

NÃO SÃO OS EFEITOS ESPECIAIS, MAS O MODO DE CONTAR ESSA HISTÓRIA!



O Exorcista: filme dirigido por Willian Friedkin

        Quando foi lançado em 1973, O Exorcista virou fenômeno por toda a mídia. Nas rodas de conversas, era assunto obrigatório. Nunca um filme de terror havia conquistado tanto espaço no imaginário do público, nem na crítica especializada. Para um garoto de 14 anos, interessado em cinema, assistir ao filme seria uma conquista – prova de coragem e oportunidade de se aproximar do mundo adulto. O problema é que ele não era permitido para menores de 18 anos. Naquela época, a censura era dura e implacável!
        Mas encontrei a solução: um amigo três anos mais velho me emprestou um exemplar do livro O Exorcista, escrito por William Peter Blatty, também autor do roteiro que foi às telas de cinema. A capa, que não seguia o padrão gráfico dos cartazes do filme – lembro que trazia uma ilustração medieval – era mais artística do que assustadora. Mergulhei na leitura.
        Percorri as primeiras páginas com receio de ser tomado pelo medo, já que o assunto era aterrador: havia sido inspirado em uma história real, que de fato ocorrera nos Estados Unidos com um garoto de... 14 anos! Para minha surpresa, a narrativa fluente e detalhada só atiçou a curiosidade. Interessado, li várias páginas por dia e na hora de dormir, quando as luzes se apagavam, não sentia um pingo de medo. Só a vontade de chegar rápido ao final da história. Quando já estava na metade, meu pai chegou de viagem e me flagrou na leitura.
        – Esse livro não é pra sua idade – ralhou, arrancado o livro sem cerimônia.
        Meu pai percorreu as primeiras páginas e ficou empolgado com a narrativa fluente e detalhada. Leu o livro todo em três dias. Quando terminou, me devolveu junto com a permissão para continuar lendo – pelo jeito não encontrou obscenidades. Finda a leitura, me senti apto a participar das rodas de conversa sobre o fenômeno O Exorcista.
        Quando completei 18 anos, fiz questão de assistir ao filme, cuja história já conhecia muito bem e que, no final das contas, nem era tão assustadora. Foi um choque! Todo o medo que não senti durante a leitura veio me visitar no escuro daquela sessão. Ver os personagens e as situações materializadas diante dos meus olhos foi uma experiência aterradora. Lembro que cheguei em casa e não consegui dormir direito naquela noite. As cenas do filme simplesmente não iam embora.
        Na manhã seguinte acordei assombrado com o poder do... cinema! Entendi como a linguagem audiovisual potencializou o fluxo das emoções e aumentou o impacto dramático da história. As imagens incômodas, a música de arrepiar, as palavras pronunciadas na entonação certa... O Exorcista ao qual assisti era muito diferente daquele que havia lido, embora o escritor e o roteirista fossem o mesmo. Então, percebi o que fez a diferença: a intervenção do diretor!
        Um cineasta que entende seu papel de contador de histórias é aquele que sabe converter palavras em discurso audiovisual. Willian Friedkin é um deles. Tinha acabado de sair de Operação França, um estrondoso sucesso comercial, e surgiu com essa obra que marcou época e criou um novo padrão para os filmes de terror, replicado até hoje. O Exorcista tem duas horas de duração, mas as histórias de bastidores e lendas envolvendo a produção já se delongam por quase 50 anos. O estilo impetuoso de Friedkin nos bastidores, as múltiplas interpretações das simbologias que ele utilizou, os problemas com os atores, a polêmica em torno das imagens subliminares... A internet oferece muitas versões para o prazer dos fãs.
        O filme é dividido em três atos. No primeiro, acompanhamos uma escavação arqueológica no Iraque que incute a noção de veracidade e dá respaldo científico. Depois conhecemos os personagens: o padre e psiquiatra Damien Karras, duvidando da própria fé, a mãe Chris MacNeil que se depara com assustadoras mudanças no comportamento de Regan, sua filha de 12 anos, e tenta resolvê-las primeiro pela medicina, depois pela psiquiatria. No segundo ato, as ocorrências paranormais inexplicáveis se sucedem, num crescendo de tensão e mistério aterrorizante. No terceiro ato, a lógica se rende ao sobrenatural e com a intervenção dos padres Karras e Merril dá-se o exorcismo, livrando a pobre garota da possessão demoníaca.
        Com um elenco marcante, destacando as atuações de Linda Blair como a garota possuída, Ellen Burstyn como a mãe desesperada, Jason Miller como o padre incrédulo e Max Von Sydow como o velho sacerdote detentor dos conhecimentos e artes do exorcismo, que a igreja católica compilou ao longo dos séculos. Ritmo, atmosfera, química entre os atores, suspense e... medo. Tudo o que se espera de um bom filme de terror, realizado com veracidade, sem truques digitais. Segure-se na poltrona!
        O Exorcista foi a primeira produção do gênero a participar da festa do Óscar. Saiu de lá com as estatuetas de melhor roteiro adaptado e melhor som. Até hoje continua sendo uma história de arrepiar. Rendeu continuações e séries para a TV, que não conseguiram reproduzir a comoção que o filme causou meio século atrás.


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.


Filme: O Exorcista


Ano de produção: 1973
Direção: William Friedkin
Roteiro: William Peter Blatty
Elenco: Ellen Burstyn, Linda Blair, Max von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran e Jason Miller

Comentários

  1. Excelente crônica! Impulso pra ver o filme O exorcista, que ouvi muito falar. Mais adulta, madura sinto agora vontade de assistir o filme que me foi incutido como profanador! Obrigada por desmitificar meu imaginário!

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    1. Olá, Raquel. O filme é intenso, denso e produzido com a intenção de causar impacto. Espero que comente depois de ter assistido, para saber se a sua opinião vai bater com a minha. Abraços.

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