Crítica | Django Livre: Tarantino descobriu a verdadeira motivação do personagem

Cena do filme Django Livre
Django Livre: filme dirigido por Quentin Tarantino

TARANTINO VAI DIRETO NA ESSÊNCIA DO WESTERN: A LIBERDADE!

Vingança é a motivação básica em diversos gêneros de filmes e recorrente em todos os dirigidos por Quentin Tarantino, como nesse seu Django Livre, produzido em 2012. Mas quem vê apenas a vingança explodindo sangrenta em cenas desconcertantes e exageradas, fica com uma mera fração do conteúdo. Os personagens de Tarantino não são rasos; se querem ser reconhecidos como vingativos é porque têm muito a esconder. Podemos deduzir isso por meio das suas falas extensas e minuciosas, em cujas entrelinhas pipocam as verdades que precisam manter ocultas e as mentiras que não querem ver desmascaradas.

Motivações estéticas

        Ouso dizer que em todos os personagens de Tarantino é possível encontrar uma motivação... estética! Não se trata apenas de consumar a vingança, mas de vê-la expressa graficamente, literariamente, musicalmente... O regozijo com a criação artística e a contemplação racional da obra é o que enche a boca de um eloquente doutor Schultz, ou define a pose de um vaidoso Django em trajes emprestados da nobreza.

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Cena do filme Django Livre
Django Livre: personagens bem construídos

Resgatando a mulher de Django

        Opa! Antes de continuar com minhas divagações sobre Django Livre, é melhor situar o leitor quanto à sua sinopse. O filme conta a história de Django (Jamie Foxx), um escravo cativo que traz as marcas da violência e da injustiça, numa época que antecedeu a guerra civil americana. A vida do protagonista se transforma quando cruza o caminho do Dr. King Schultz (Christoph Waltz), um caçador de recompensas disfarçado de dentista almofadinha, que ganha a vida eliminando criminosos procurados

Cena do filme Django Livre
Django Livre: um elenco afinado

        Entre Django e o Dr. Schultz se estabelece uma sólida amizade: agora liberto, o rude Django ajudará o Dr. Schultz a matar criminosos – o que fará com imenso prazer. Em troca, recebe do dentista a promessa de que receberá ajuda para resgatar sua mulher, Brunilda (Kerry Washington), escravizada na fazenda de "Monsieur" Calvin J. Candie (Leonardo DiCaprio).

Referências à cultura pop

        Django Livre é um faroeste espaguete – ou um southern spaghetti, como definiu o próprio Tarantino – onde o diretor expressa a clara intenção de causar polêmica e a total despreocupação em parecer politicamente correto. Sua ideia de retratar um homem negro, que vira caçador de recompensas e passa a perseguir com requintes de perversidade os criminosos brancos que serviam ao cruel sistema escravocrata, é um prato fundo para acomodar uma infinidade de referências à cultura pop e saciar a fome do diretor por reescrever a história e promover catarse.

Cena do filme Django Livre
Django Livre: respeito aos cânones do western

Homenagem ao Django original

        O principal foco da homenagem de Tarantino vai mesmo para o Django original, filme de 1966 dirigido por Sergio Corbucci e estrelado por Franco Nero, um faroeste que ficou conhecido como um dos mais violentos já feitos até então. Obteve grande sucesso comercial e se tornou o grande padrão do gênero – ao lado de Por Um Punhado de Dólares, dirigido por outro Sergio, o Leone, e estrelado por Clint Eastwood. Vale lembrar que ambos os filmes são inspirados em Yojimbo, filme de 1961 realizado por Akira Kurosawa.

Humor, sarcasmo e carisma

        Em Django Livre, para mergulhar em toda essa tradição cinematográfica, Tarantino encontrou um ótimo pretexto: retratou um homem escravizado e submisso, amedrontado diante de um sistema cruel e injusto; ao conquistar a liberdade, porém, torna-se seguro, infalível e defensor implacável dessa liberdade. Como tempero especial, adicionou ao seu filme generosas pitadas de humor, ironia e referências inesperadas. Mas sejamos honestos: o diretor não fez isso sozinho; contou com um elenco afiado e transbordante de carisma, que entregou atuações inspiradas. Eis aqui um filme ao qual vale a pena assistir.Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Quentin Tarantino, o roteiro bem escrito, as atuações de Jamie Foxx e Christoph Walts, a trilha sonora envolvente e a concepção visual apurada.

O que surpreende: aqui, Tarantino ganha legitimidade para lidar com os clichês do gênero e brincar com as referências à cultura pop, porque constrói personagens sólidos e expostos com alguma profundidade.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Django Livre

Ano de produção: 2012
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino

  • Elenco:
  • Jamie Foxx
  • Christoph Waltz
  • Leonardo DiCaprio
  • Kerry Washington
  • Samuel L. Jackson
  • Walton Goggins
  • Dennis Christopher
  • James Remar
  • Michael Parks
  • Don Johnson

Leia também as crônicas sobre outros filmes dirigidos por Quentin Tarantino:

Comentários

  1. Sou purista quanto ao western, sem ser contrário as inovadas criações num gênero tradicional como esse Django tarantinizado.

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    1. Sim, Alexander. O western um gênero universal. Veja, por exemplo, os filmes de Kurosawa servindo de fonte para irrigar o gênero!

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  2. Que tal vc escrever algo sobre outros personagens desse filme como o de Samuel L Jackson e o próprio Di Caprio? Seria muito interessante.

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    1. Legal, Gilsinho Marques! Há muito o que comentar sobre esse filme. Vou arranjar um tempo para fazer isso! Abraços.

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