Dersu Uzala: uma obra de Akira Kurosawa


Dersu Uzala: dirigido por Akira Kurosawa

QUANDO O CINEMA GANHA EXPRESSÃO POÉTICA

Em Curitiba, nos anos 1970, havia um grande portal para o espaço-tempo. Costumava usá-lo com rotineira frequência – praticamente todos os finais de semana. Era enorme, daqueles com um imenso saguão de entrada, plateia e primeiro balcão. Usava-o para acessar mundos distantes e épocas remotas, passadas e futuras. Como é da natureza dos portais, havia pouco o que reparar nele. Todas as atenções se voltavam para a janela que se abria e o crucial momento da travessia. Enquanto isso, as expectativas eram vencidas com a ajuda de um saquinho de pipocas ou uma caixinha de balas Mentex. Apesar de perceber pessoas ao meu redor, as jornadas nas quais embarcava eram sempre solitárias e de esforço pessoal. Ainda hoje me sinto conectado com aquele lugar. E nesse momento em que escrevo, tal conexão é real! Palpável. Consigo me ver sentado numa das poltronas vermelhas, com o olhar vidrado. Encantado! Com a mente desconectada do corpo físico... A mesma mente que agora digita no teclado as lembranças que trago desde aquela tarde de domingo, quando fui visitar Dersu Uzala, filme realizado em 1975 por Akira Kurosawa.
        Sabia praticamente nada sobre a produção, apenas que ganhara o Óscar de melhor filme estrangeiro e que o diretor era japonês. Naquele dia fui muito além das gélidas estepes siberianas e do longínquo início do século XX. Cheguei em um novo tipo de cinema que ainda não conhecia. Introspectivo, denso, poético! Para um rapaz de 16 ou 17 anos, foi um lampejo de maturidade. Foi como uma ideia chegando num impulso repentino:
        – Ah! Então é para isso que serve o cinema!
        Com Dersu Uzala ganhei compreensão sobre a maneira como as imagens, os sons e as palavras se misturam em narrativas paralelas e independentes, para revelar o que se passa no íntimo dos personagens. Descobri que é lá, no íntimo dos personagens, que moram as histórias. E que é para lá que os cineastas correm quando querem fazer cinema de verdade.
        Dersu Usala é baseado no livro de memórias escrito pelo russo Vladimir Arsenyev, o primeiro europeu que se embrenhou em viagens exploratórias nas regiões mais remotas da Sibéria, entre 1902 e 1907. A adaptação de Kurosawa, cujo roteiro é assinado por ele e Yuri Nagibin, inicia com a expedição para levantamento cartográfico à região de Ussuri em 1902, financiada pelo exército tzarista e liderada pelo próprio capitão Arsenyev (Yury Solomin). No caminho, a tropa encontra o caçador nômade Dersu Uzala (Maxim Munzuk), que aceita servi-los como guia. Experiente, colaborador e profundo conhecedor da região, o caçador logo conquista o respeito dos exploradores. Na medida em que enfrentam juntos os desafios da jornada, vai surgindo uma sólida amizade entre Dersu Uzala e o capitão Arsenyev, cuja vida é salva pelo caçador mongol. O que vemos então é o encontro de dois mundos opostos. De um lado, a visão de um homem culto, que traz na bagagem o conhecimento de séculos de civilização ocidental. De outro, a experiência de um homem integrado à natureza e vocacionado para a sobrevivência. Ambos compartilham valores sólidos e ensinamentos transformadores.
        No oriente, Akira Kurosawa já era um cineasta consagrado quando filmou Dersu Usala. No ocidente, os cinéfilos associavam seu nome a Os Sete Samurais - inspiração para vários westerns – mas a maioria desconhecia os acontecimentos trágicos que marcaram sua vida. Às voltas com uma espiral de depressão, o diretor tentou suicídio em 1971, cortando a garganta e os pulsos. Atravessou um longo período de recuperação e quando ressurgiu para o cinema, recebeu uma oferta de produtores russos para dirigir uma produção de grande orçamento.
        Grandes admiradores de Kurosawa, os produtores tinham a intenção de adaptar uma obra importante de Dostoiévski ou Tolstoi, mas se surpreenderam quando o cineasta veio com a ideia de filmar Dersu Uzala. Já havia duas versões do livro adaptadas para o cinema na União Soviética, mas as insistências de Kurosawa, que se mostrou profundo conhecedor da literatura russa, acabaram atendidas.
        O filme de Kurosawa está dividido em duas partes: a primeira narra a expedição realizada por Arseniev em 1902 e a segunda a de 1907, quando o capitão retorna à região, na esperança de reencontrar o amigo Dersu Uzala. Arsenyev enfim leva o caçador nômade para viver com ele e sua família na cidade de Khabarovsk, mas a experiência será difícil. É tocante ver como Kurosawa consegue capturar a amizade, o respeito e o amor fraterno que os une, apesar de todas as dificuldades.
        A cena mais memorável de Dersu Uzala, quando o capitão e o caçador estão de frente com a morte certa, que vem chegando na forma de uma nevasca iminente, é a que ficou impressa no meu inconsciente. Lembro dos incontáveis chumaços de relva que eles colheram para improvisar um abrigo salvador. Lembro das réstias de sol que vez ou outra brilharam no entardecer, ao mesmo tempo em que notas musicais tilintaram com esperança. Da respiração ofegante e da exaustão tomando conta dos personagens.
        Na história do cinema, poucas cenas tão lacônicas foram tão eloquentes. Quando deixei o Cine Vitória, naquela tarde de domingo no final dos anos 1970, trouxe comigo um repertório que sabia, jamais conseguiria pôr em palavras. Volta e meia revisito aquela tarde e quando faço isso – como agora, enquanto digito diante do monitor – tento encontrar alguma palavra que sirva, mas é inútil. Ainda bem que sempre posso rever Dersu Uzala e mergulhar na sua poesia. É para isso que servem os portais para o espaço-tempo!

Filme: Dersu Uzala

Ano de produção: 1975
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Yuri Nagibin e Akira Kurosawa
Elenco: Yury Solomin, Maxim Munzuk, Vladimir Kremena, Alexander Pyatkov, Svetlana Danilchenko e Suimenkul Chokmorov

Comentários

  1. Espetacular. Tive a mesma sensação de maturidade poética, embora tenha assistido ao filme na época de faculdade, apenas uns 8 anos atrás. Reassisti e realmente, sem palavras para tal obre.

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