Ran: épico sobre um senhor da guerra enlouquecido

Cena do filme Ran
Ran: direção de Akira Kurosawa

O CINEMA ENCONTRA SUA ELOQUÊNCIA NO VISUAL

Convulsões políticas me põem angustiado. Elas me obrigam a refletir sobre essa falsa dicotomia entre o individual e o coletivo. Desde que fui apresentado à alteridade, ainda nas fraldas, aprendi a enxergar os indivíduos que me cercam. A coletividade, essa abstração enevoada, começou a tomar forma na adolescência, mas só ganhou nitidez em momentos específicos: a vibração da plateia num show de rock, as vestimentas da moda imperando nas vitrines, a explosão no momento do gol... Virou habitat natural para os interesses midiáticos. A necessidade de fazer escolhas políticas, porém, sempre tentou se impor, atropelando feito manada de búfalos destrambelhados, com o propósito de abafar as manifestações individuais. Sempre tentou, mas jamais conseguiu. Somos indivíduos, lidando com a realidade nas dimensões física, psicológica e espiritual. A coletividade só existe como somatória de indivíduos e sempre que o sistema tenta anular a individualidade, perdemos algo de... humanidade.
        Os líderes políticos são especialistas em lidar com essa dicotomia. Mas não só eles, os cineastas também. Os grandes nomes do cinema jamais perderam a perspectiva do indivíduo, ainda que filmem para as massas. Akira Kurosawa é um deles. No seu filme Ran, realizado em 1985, ele remói essas mesmas angústias, mostrando que a guerra é a gosma coletivista que aglutina os indivíduos, num processo de descaracterização que desumaniza, homogeneíza para distribuir nacos de poder. Esse épico é talvez o melhor filme do cineasta japonês – certamente o que contou com o maior orçamento entre os que realizou – e lida com uma história violenta, enquanto aborda temas como honra, orgulho e valores familiares. Há muito do próprio Kurosawa em jogo, já que o mestre viveu uma fase atormentada em décadas anteriores, quando esteve às voltas com sérias crises depressivas. Aqui, ele investiga um protagonista complexo, lidando com a brutalidade de um mundo enlouquecido e caótico. Vale lembrar que a palavra “ran”, no idioma japonês, significa “caos”.
        Ran foi em parte inspirado na peça Rei Lear, escrita no início do século XVII por William Shakespeare. Trata-se de uma das obras-primas do bardo, que conta como o rei da Bretanha resolve dividir seu reino entre as três filhas, mas termina traído por elas e mergulha numa espiral de loucura. No roteiro de Kurosawa, a ação se passa no Japão medieval e o protagonista é o senhor feudal Hidetora Ichimonji (Tatsuya Nakadai). Ele decide repartir seu reino entre os três filhos. Taro (Akira Terao), o mais velho, recebe o primeiro castelo e se torna o novo líder do clã. O segundo castelo vai para Jiro (Jinpachi Nezu) e o terceiro fica com Saburo (Daisuke Ryû). Hidetora, aos 70 anos, permanece com seus privilégios de patriarca, mas delega as responsabilidades de governar para os filhos. Nos seus delírios de poder, os três permanecerão unidos, mantendo as conquistas da família. Porém, o filho mais novo não aceita a decisão do pai e acaba banido por ele. O que segue é uma onda de violência desmensurada, que acaba dividindo o clã Ichimonji, resultando na sua destruição. O outrora poderoso Hidetora, às voltas com intrigas, traições e manipulações, enlouquece e passa a vagar pelas ruínas do seu reino, tentando se reerguer.
        Em Ran, o cinema de Kurosawa se torna grandiloquente, construído com apuro num estilo visual inconfundível. Seus planos sempre abertos são similares a pinturas, executadas com imensa sensibilidade artística. Os figurinos e adereços, feitos à mão, são pensados nos detalhes. A palheta de cores é sempre vibrante, esbanjando matizes variados, embora o roxo e o vermelho se destaquem aqui e ali, destoando dos fundos desbotados e quase incolores. Os atores se entregam numa teatralidade quase exagerada, resultando em encenações que beiram o surreal. E a trilha sonora, assinada pelo compositor japonês Toru Takemitsu, com inspiração na música ocidental dos períodos romântico e moderno, é arrebatadora. Torna as cenas de batalha ainda mais dramáticas.
        Aliás, Ran é um filme sobre a guerra e é ela que exibe sua face horrenda e cruel, na cena mais eloquente – curiosamente, uma cena longa, onde não ouvimos nenhuma linha de diálogo. Em dado momento, até mesmo o som ambiente desaparece por completo, e tudo o que nos resta é acompanhar a trilha sonora ocidentalizada. Não ouvimos os gritos de agonia nem os urros de dor dos soldados flechados. Não há vozes de comando, nem súplicas, nem pragas sendo rogadas... A música de Toru Takemitsu abafa tudo, para que Kurosawa nos mostre os homens morrendo anônimos no campo de batalha, em nome de uma causa desfocada. Despropositada. Nem parecem gente. Não passam de soldados anônimos, que preferem a violência.
        As habilidades do mestre Kurosawa em narrar sua história sem se valer dos diálogos são aqui exercitadas com virtuosismo. Não precisamos de palavras para compreender o drama interno do patriarca Hidetora, vivido com precisão minimalista pelo ator Tatsuya Nakadai. Seu arco de transformação é descrito com imagens e... música. É assim que Ran chega até nós como um espetáculo audiovisual épico, criado para mostrar o drama de um senhor da guerra, que se desconecta da realidade e leva consigo uma massa disforme de indivíduos desumanizados, esfarelados por uma imensa pedra de moinho coletivista. Lembro desse filme sempre que me ponho angustiado, diante das convulsões políticas que insistem em nos testar de tempos em tempos.

Resenha crítica do filme Ran

Título em Portugal: Os Senhores da Guerra
Ano de produção: 1985
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa
Elenco: Tatsuya Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu, Daisuke Ryû, Mieko Harada, Yoshiko Miyazaki, Hisashi Igawa, Masayuki Yui, Shinosuke Ikehata, Kazuto Kato, Hitoshi Ueki, Norio Matsui e Mansai Nomura

Leia também as crônicas sobre outros filmes dirigidos por Akira Kurosawa:

Comentários

  1. Nossa!!! Fabio você conseguiu nessa crônica descrever perfeitamente o momento políticotriste que vivemos, através desse filme.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, estou mesmo triste! Ainda bem que o cinema oferece refúgio!!!!

      Excluir

Postar um comentário

Confira também:

Menina de Ouro: a história de Maggie Fitzgerald é real?

Encontro Marcado: explicando para a morte qual é o sentido da vida

Siga a Crônica de Cinema