O Expresso da Meia-Noite: embarcando nos horrores da prisão


O Expresso da Meia-Noite: filme de Alan Parker

QUE ISSO SIRVA DE EXEMPLO

Completei 18 anos quando o filme O Expresso da Meia-Noite foi lançado em 1978. Estava apto, portanto, a comprar meu ingresso e me acomodar numa das poltronas daquela sala de cinema metade vazia. Sabia que estava prestes a encarar um filme denso, com temática adulta e que prometia causar polêmica. Mas não estava preparado para tamanho impacto. O filme me apresentou a um novo tipo de cinema, feito para incomodar, que faz questão de ser impertinente e de tocar em temas espinhosos. Um filme que, logo entendi, pertencia à linhagem dos que têm o prazo de validade estendido por décadas – como Taxi Driver, de 1976, ao qual só assisti anos mais tarde.
        Saí do cinema com dois nomes na cabeça, que havia extraído dos créditos: Alan Parker, o diretor e Oliver Stone, o roteirista. Os mesmos nomes nos quais tropecei ao percorrer as páginas dos cadernos de cultura dos jornais e das revistas especializadas. Na mídia, O Expresso da Meia-Noite logo mostrou sua vocação para filme cult. As revelações de bastidores e as polêmicas em torno da adaptação excessivamente romantizada, que não agradou ao autor dessa história real, alimentaram o imaginário do público e não deixaram que o filme caísse no esquecimento. Mas antes de falar sobre isso, é melhor lembrar da sinopse!
        O filme conta a história do jovem Billy Hayes (Brad Davis), que em 1970 está viajando de férias pela Turquia com sua namorada Susan (Irene Miracle). No aeroporto de Istambul, prestes a embarcar para os Estados Unidos, ele é detido com dois quilos de haxixe. É quando começa seu calvário. Às voltas com ameaças terroristas, a polícia turca se mostra especialmente intransigente. Billy é investigado e apesar de colaborar, termina preso. Tenta escapar, o que piora sua situação: é brutalmente espancado. Vai parar na prisão de Sağmalcılar, que não é nada diferente daquilo que imaginamos ser o inferno. Lá conhece Jimmy (Randy Quaid), um ladrão americano, Max (John Hurt), um viciado inglês e Erich (Norbert Weisser), um traficante sueco. Apesar da intervenção de seu pai (Mike Kelin), Billy é condenado a quatro anos e passa a viver os horrores de uma prisão onde só impera a desumanidade. Quando a justiça turca estende sua pena para insuportáveis 30 anos, só resta a ele embarcar no tal expresso da meia-noite, uma gíria usada pelos prisioneiros para se referir ao plano de fuga pelos túneis subterrâneos da prisão. Mas isso não será nada fácil!
        O filme O Expresso da Meia-Noite é baseado na história real de Billy Hayes, contada por ele em seu livro Midnigth Express. O problema é que, ao que parece, a história não foi adaptada para as telas com realismo, ao menos em alguns detalhes. Antes de escrever o roteiro, Oliver Stone realizou uma série de entrevistas com Billy Hayes. Depois, decidiu carregar nas tintas dramáticas. Pintou o protagonista com as cores do injustiçado digno de compaixão e retratou a polícia turca, a justiça do país e suas prisões como as mais desumanas, cruéis e horrendas da face da terra.
        Quando o filme já estava para ser lançado, veio à tona o fato de que Billy Hayes não era o único autor do seu livro. Ele havia contratado um ghostwritter, Willian Hoffer, a quem não foi inteiramente transparente. Omitiu a informação crucial de que, antes de ser preso na Turquia, havia contrabandeado haxixe de lá em três viagens anteriores. Para Oliver Stone, que não foi informado desse fato durante as entrevistas com Hayes, tais antecedentes teriam mudado completamente sua concepção do personagem. Seu roteiro, empenhado em denunciar as injustiças que usuários de drogas sofrem nas prisões mundo afora, teria recebido um tratamento menos exagerado. O roteirista também faz o mea-culpa, por ter causado danos irreparáveis ao sistema carcerário da Turquia, que a partir de O Expresso da Meia-Noite virou sinônimo de inferno!
        De seu lado, Billy Hayes também tem motivos para se queixar de Oliver Stone e do diretor Alan Parker. Afirma que ambos exageraram quanto ao tratamento violento e desumano que recebeu na prisão. Também alega que os embates nos tribunais turcos não aconteceram da forma despropositada mostrada no filme. E, principalmente, reclama que a cena completamente falsa e inventada, que o coloca matando um guarda para escapar da prisão, levou o governo turco a fazer à Interpol um pedido de prisão contra ele.
        Apesar das controvérsias, se ficarmos no âmbito do que foi filmado o que vemos é uma produção excelente. Alan Parker impõe uma atmosfera nauseante, de pura agonia, mostrando suas habilidades como contador de histórias e seu domínio dos universos visual e sonoro – O Expresso da Meia-Noite levou o Óscar de melhor trilha sonora, assinada por Giorgio Moroder. Quanto a Oliver Stone, com seu texto minucioso e preciso, ficou com a estatueta de melhor roteiro adaptado.
        Ao publicar seu livro, Billy Hayes alega que foi movido não por desejos de vingança ou para denegrir a imagem da Turquia, mas apenas para se fazer de exemplo para outros jovens: antes de se meterem a traficar drogas, que avaliem melhor os riscos. Exageros à parte, aquele jovem de 18 anos, sentado na poltrona do cinema semivazio, entendeu muito bem o recado. Jamais esqueci a angustiante experiência do protagonista, que pude vivenciar com a intensidade dramática e o realismo verossímil que só encontramos na sétima arte.

Filme: O Expresso da Meia-Noite


Título original: Midnight Express
Ano de produção: 1978
Direção: Alan Parker
Roteiro: Oliver Stone
Elenco: Brad Davis, Irene Miracle, Bo Hopkins, Paolo Bonacelli, Paul L. Smith, Randy Quaid, Norbert Weisser, John Hurt, Kevork Malikyan, Yashaw Adem, Mike Kellin, Franco Diogene, Michael Ensign, Gigi Ballista, Peter Jeffrey e Michael Giannatos

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