Crítica | Imperdoável: Sandra Bullock se esforça, mas carrega o peso de um roteiro precário

Cena do filme Imperdoável
Imperdoável: filme dirigido por Nora Fingscheidt

QUEM NÃO MERECE PERDÃO SÃO OS ROTEIRISTAS!

Já aviso: esta crônica será diferente daquelas que você costuma ler aqui na Crônica de Cinema. O motivo é que detestei esse filme! Ele é irritantemente fraco e mal construído. Para explicar meu ponto de vista, precisarei apelar para spoilers – o que evito ao máximo, mas aqui serão necessários. Assim, fica o alerta: caso não tenha assistido ao filme Imperdoável, dirigido em 2021 por Nora Fingscheidt, talvez prefira fazê-lo antes de ler esse texto. Depois de ver com os próprios olhos, poderá voltar e conferir se as nossas opiniões convergem ou divergem.

Adaptação de uma minissérie britânica

        Em Imperdoável, Sandra Bullock interpreta Ruth Slater, que sai da prisão depois de cumprir pena durante 20 anos, por ter cometido um assassinato violento. Ela tenta retomar a vida, mas enfrenta o preconceito da comunidade e o ódio dos familiares do policial que matou. O filme é uma adaptação para o cinema da minissérie em três episódios intitulada Unforgiven, escrita por Sally Wainwright e exibida na TV britânica em 2009. Vejo aqui o primeiro ponto fraco: na minissérie há espaço narrativo para desenvolver tramas paralelas e esmiuçar personagens secundários; no filme, é preciso objetividade e foco na trama principal. A novata diretora alemã Nora Fingscheidt e os já experientes roteiristas Peter Craig, Hillary Seitz e Courtenay Miles não ligaram para isso; condensaram no longa a mesma estrutura, com os mesmos personagens.

Cena do filme Imperdoável
Imperdoável: Sandra Bullock no papel de uma mulher injustiçada

Entendendo a temática do filme

        Vamos direto ao ponto nevrálgico: sobre o que é, afinal, o filme Imperdoável? Estão enganados os que dizem que é sobre a intolerância da sociedade desigual e injusta, que jamais estende a mão para os que cometeram erros, mesmo que já tenham cumprido a devida pena. Também erram os que dizem que é sobre o determinismo que condiciona os personagens cercados por mazelas sociais. Imperdoável é sobre... o amor materno! Simples assim. Tudo o que a protagonista deseja é assegurar o bem-estar de Katie (Neli Kastrinos), a irmã mais nova que ela criava como sua própria filha e que foi adotada por uma nova família. Em contraposição a esse amor, temos como elemento de conflito a dor da perda, que remói o antagonista, Steve Whelan (Will Pullen), filho do policial assassinado.

Revelações só no final

        Para continuar o raciocínio, vamos direto ao final do filme, durante o embate entre Ruth e o vilão Steve. É quando finalmente descobrimos que a protagonista não foi a autora do assassinato pelo qual cumpriu pena; ela assumiu a culpa para proteger a irmãzinha, a pequena Katie, que apertou o gatilho por acidente. E lembre-se, ela criava a garotinha como se fosse sua filha! Descobrimos que Ruth não é, afinal, uma criminosa abjeta; ao contrário, é uma alma altruísta, capaz de dar a vida – 20 anos passados atrás das grades – para proteger sua cria. É nessas últimas cenas que fica claro a verdadeira dimensão do seu sofrimento.

Cena do filme Imperdoável
Imperdoável: uma profusão de personagens desnecessários

Decisão narrativa errada

        As perguntas que faço são: por que diabos os realizadores não mostraram isso já nas primeiras cenas? Por que nos negaram a chance de criar empatia com a protagonista e torcer por ela desde o início? Talvez na TV o truque de omitir a verdade para gerar suspense tenha funcionado – o que duvido, já que a minissérie não alcançou sucesso expressivo. Mas no filme, foi um tiro no pé! Ficamos apenas com uma Ruth melancólica e atormentada, que sofre injustiças em série e se contenta em conquistar a compaixão do espectador; em vez disso, poderia ter ficado com nossa admiração. Por causa dessa decisão narrativa, o longa resultou fraco, desinteressante e superficial.

Minha versão modificada 

        Vamos agora imaginar uma versão de Imperdoável onde a história de Ruth é revelada de imediato. Ela sairia da prisão com o único propósito de ter notícias de Katie (agora interpretada na vida adulta por Aisling Franciosi); quer se certificar de que ela leva uma vida digna. Todo o preconceito, as injustiças e as ameaças que a protagonista enfrentará nessa jornada ganham intensidade, já que agora sabemos que ela é inocente! Então, trazemos o antagonista para a trama! Falo de Steve, o filho do policial morto, cuja sede de vingança vem amplificada pela dor de ter sido separado do pai. Vejam a dimensão que ele assume na trama! Compreendemos suas motivações e sabemos que ele não é um completo mau-caráter, mas torcemos para que não faça escolhas impensadas, já que Ruth não merece pagar por um crime que não cometeu.

Cena do filme Imperdoável
Imperdoável: o tema principal é o amor materno

Cortando papéis desnecessários

        Agora vamos cortar o excesso de elenco! Nessa nova versão de Imperdoável, eliminaria o irmão de Steve, o nervosinho Keith (Tom Guiry), um personagem que nada acrescenta à trama principal. Outro que elimino sem dó é Blake (Jon Bernthal) o sujeito com quem Ruth tenta desenvolver um frustrado relacionamento – as cenas em que aparece são patéticas, constrangedoras e mal escritas. Não fará a menor falta. Vou mais longe: corto toda a família de John Ingram (Vincent D'Onofrio), o advogado que fica ao lado de Ruth. Infelizmente isso implicaria em perder o brilho de Viola Davis, uma atriz magnética. Paciência, perdas assim fazem parte do jogo.

Uma trama mais enxuta

        Minha ousadia máxima nessa imaginária versão de Imperdoável seria eliminar Emily (Emma Nelson), a filha legítima dos padrastos de Katie. Não precisamos dela para intermediar as verdadeiras emoções que interessam: o conflito entre a mãe adotiva e a atormentada Ruth – vemos um pálido lampejo disso quando Ruth se reúne com os pais adotivos da irmã, cena que serviu apenas para revelar a precariedade do roteiro. Na minha hipotética versão, o papel de John, o advogado, se agigantaria, assim como Vince (Rob Morgan), o oficial da condicional; ambos exerceriam uma influência positiva sobre Ruth. Pronto! Agora é só seguir com a trama. Aproveitaria o espaço dramático que sobrou para desenvolver melhor o personagem de Katie, a irmã de Ruth, que tem potencial para fazer bem mais do que apenas caras e bocas de boa moça.

Cena do filme Imperdoável
Imperdoável: mudanças no roteiro salvariam o filme

Vamos salvar Viola Davis! 

        Ah! E lanço aqui uma ideia espetacular para recuperar o vazio deixado por Viola Davis! Imagine trazê-la de volta para ser a viúva do tal xerife assassinado! Movida por uma descomunal sanha vingadora, seria uma vilã e tanto. Pronto, está decidido: vamos eliminar o corno do Steve, que afinal é um vilão fraco e inexpressivo! Esse seria um filme Imperdoável ao qual adoraria assistir. Seria uma adaptação mais apropriada para o formato de longa-metragem, bem menos entediante.

Sandra Bullock merecia um roteiro melhor

        Mas chega de brincar de roteirista. O fato é que Imperdoável é uma aposta certeira de Sandra Bullock, uma atriz competente que em nova parceria com a Netflix tenta repetir o sucesso comercial obtido por Bird Box. Creio que terá êxito, pois seu público certamente será condescendente com as falhas aqui mencionadas – talvez nem sequer as considerem. Mas imagine se a atriz e produtora tivesse nas mãos um roteiro melhor, que aproveitasse todo o seu talento dramático? Certamente evitaria aborrecer os telespectadores com uma bobagem tão... imperdoável!

Veredito da crônica de cinema

★★☆☆☆(2 / 5 estrelas)

O que brilha: a atuação de Sandra Bullock.

O que decepciona: o excesso de personagens, a tentativa de criar suspense deixando para revelar a verdade sobre a protagonista apenas no final e a direção protocolar de Nora Fingscheidt.

Medíocre. Uma história que ficou mal contada.

Ficha técnica do filme Imperdoável

Título original: The Unforgivable
Ano de produção: 2021
Direção: Nora Fingscheidt
Roteiro: Peter Craig, Hillary Seitz e Courtenay Miles

Elenco:
  • Sandra Bullock
  • Vincent D'Onofrio
  • Jon Bernthal
  • Richard Thomas
  • Linda Emond
  • Aisling Franciosi
  • Rob Morgan
  • Viola Davis
  • Emma Nelson
  • Will Pullen
  • Tom Guiry
  • W. Earl Brown
  • Jessica McLeod

Comentários

  1. Achei sua crítica tão pertinente, que deu vontade de refazer o filme desta maneira. Abc Silveira

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    1. Ah, Silveira, muito obrigado! O cinema é uma arte inspiradora e está sempre nos estimulando a pensar por diferentes ângulos. É uma honra ter você como leitor. Abraços!

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