Um Lugar no Coração: descobri porquê quase ninguém fala desse filme


Um Lugar no Coração: escrito e dirigido por Robert Benton

UMA OBRA PARA SER REVISITADA

Às vezes me pergunto: por que Um Lugar no Coração, escrito e dirigido em 1984 por Robert Benton, quase não aparece na lista dos grandes filmes a serem reverenciados no panteão da sétima arte? Quase não leio comentários sobre essa produção impecável, que recebeu seis indicações ao Óscar e saiu com duas estatuetas: melhor atriz para Sally Field e melhor roteiro original para Robert Benton. Ela nos traz uma história emocionante, contada com propriedade e encenada por um elenco magnético, ainda assim, parece esquecida. Os privilegiados que dispõem de uma cópia no acervo certamente se dão o prazer de revisitá-la de tempos em tempos. O resto de nós, só quando tropeçamos com o título em algum serviço de streaming.
        Parti de algumas teorias para tentar resolver o mistério. Na primeira, a culpa seria de Mozart, ou melhor, de Amadeus, a obra-prima de Miloš Forman, que roubou todas as cenas naquele ano, vencendo oito óscares e entrando para a lista dos dez mais da maioria dos cinéfilos. Não, não poderia ser esse o motivo! Um Lugar no Coração tem qualidades suficientes para ser auto-sustentável enquanto obra cinematográfica e não merece ser julgado por elementos externos.
        Outra possibilidade é que tenha ficado datado, por incorporar elementos estéticos que saíram de moda ou por seguir um ritmo excessivamente arrastado na comparação com as produções atuais. Bobagem! O filme recria com perfeição o período da depressão dos anos 1930 e segue ágil do começo ao fim. Hoje, um cineasta que tentasse filmar o mesmo roteiro acabaria repetindo cada tomada.
        Será que a temática ficou ultrapassada e desimportante, batendo em teclas que já não soam afinadas com esse nosso mundo veloz e furioso? Nada disso! Basta examinar a sinopse para constatar que o filme continua pertinente: Um Lugar no Coração nos conta a história de Edna Spalding (Sally Field), a esposa do xerife Royce (Ray Baker) e mãe dos pequenos Frank (Yankton Hatten) e Possum (Gennie James). Naquele fatídico ano de 1935 ela se dedica a cuidar da família numa propriedade na pequena cidade de Waxahachie, no Texas. Disse que foi um ano fatídico porque logo no começo do filme o xerife é baleado e morto em circunstâncias trágicas. Viúva e agora sem fonte de renda, Edna continua sendo golpeada pela realidade: como vai pagar as dívidas com o banco e manter a propriedade? Como vai sustentar a família numa cidade assolada pela depressão econômica e pelo desemprego? Como vai criar os filhos, cujo pai foi morto por um garoto negro, numa sociedade marcada pelo preconceito racial? Ao invés de dar sua família como perdida, Edna Spalding lutará com todas as suas forças para reconstruí-la. E fará isso com a ajuda de duas pessoas: Moses (Danny Glover), o trabalhador que a incentiva a cultivar algodão na propriedade e Will (John Malkovich) o cego para quem ela aluga um quarto. As dificuldades em série, na medida em que vão surgindo, não conseguem desfazer os laços afetivos que vão unindo os personagens em torno de fortes valores éticos e familiares. Nem mesmo a força de um tornado devastador, ou a intolerância dos criminosos da KKK conseguirão nocauteá-la.
        Para Um Lugar no Coração, Robert Benton escreveu um roteiro primoroso, que apresenta um conto baseado em suas memórias de infância, ambientado na própria cidade onde nasceu e onde sua família viveu por gerações. Essa história comovente é justamente sobre... família. Aquela instituição que às vezes parece estar a ponto de ser destruída, mas que se reestrutura quando indivíduos que comungam os mesmos valores – ainda que não tenham laços sanguíneos – fazem sacrifícios para perpetuá-la, apenas porque olham em volta e se enxergam como uma família.
        Robert Benton já havia experimentado o sucesso em 1979, quando escreveu e dirigiu Kramer vs. Kramer, vencedor de cinco Óscares – e que no final das contas também gira em torno do tema família. Para esse filme, porém, o diretor planejou um final inusitado. Construiu uma cena final que se desenrola durante um culto religioso, onde todos os personagens, negros e brancos, vivos e mortos, celebram os ideais cristãos. Não há leis de segregação nem barreiras de realidade separando as famílias e seus membros. O xerife comunga ao lado do garoto que o matou. Os personagens que se separaram buscam a reconciliação. A esperança nutre a todos por igual e fica no ar aquela deliciosa sensação de que a humanidade tem salvação.
        Será que estaria nesse final com viés conservador e otimista o motivo para que Um Lugar no Coração fique acumulando poeira na estante dos críticos de cinema? Duvido! Os amantes da sétima arte sabem reconhecer uma obra bem arquitetada, com personagens consistentes e capazes de superar os estereótipos. Talvez a estética americanizada, com cores demasiado ufanistas causem incômodos. Mas não pode ser isso! Não há patriotadas descaradas e nem menções aos feitos do governo ou dos políticos. Ao contrário, as mazelas raciais dos Estados Unidos ficam escancaradas.
        Já sei! Talvez seja por causa das caipirices que presenciamos aqui e ali, na atitude simplória dos personagens, na estampa singela de Sally Field ou na toada brega dos músicos country. Não... Até nesses elementos conseguimos entrever um bom tanto de poesia. Desisto! Se alguém puder me explicar o porquê desse nariz torcido para o filme Um Lugar no Coração, por favor, deixe um comentário.

Minha opinião: ótimo filme, que merece ser conferido

Um Lugar no Coração

Título original: Places in the Heart
Ano de produção: 1984
Direção: Robert Benton
Roteiro: Robert Benton
Elenco: Sally Field, Lindsay Crouse, Danny Glover, John Malkovich, Ed Harris, Ray Baker, Amy Madigan, Yankton Hatten, Gennie James, Lane Smith, Terry O'Quinn, Bert Remsen, Jay Patterson, Toni Hudson, De'voreaux White e Jerry Haynes

Comentários

  1. Suspeito que o tal "esquecimento"na esteira do tempo tenha a ver com a atriz que o protagoniza.
    Sally Field ficou estigmatizada como atriz de segunda linha que consegue atuar apenas em dramalhões.

    Gostei das suas cronicas de cinema.
    Seguindo.
    Grazzi.

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    Respostas
    1. Concordo com você. Sally Field carrega um certo estigma, o que é uma grande bobagem. Obrigado por seguir a Crônica de Cinema!

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