O Grande Ditador: uma sátira brilhante criada por Charlie Chaplin

Cena do filme O Grande Ditador
O Grande Ditador: filme de Charlie Chaplin

UM BIGODINHO CURTO NA FRONTEIRA ENTRE O BEM E O MAL

Quando criança, os filmes de Charlie Chaplin exibidos vez ou outra na TV me faziam sentar diante da telinha. Ficava magnetizado pela estampa do vagabundo de bigodinho curto, chapéu coco e bengala, movimentando-se na velocidade mais acelerada dos filmes mudos. Quando, na aula de história, a professora mostrou uma foto de Hitler, lá estava de novo o tal bigodinho curto. Perguntei se era irmão do Carlitos e ela caiu na risada, mas desconversou. Havia muita semelhança física entre os dois personagens, mas também semelhanças biográficas – nasceram com poucos dias de diferença, em berço pobre e percorreram trajetórias de sucesso ancoradas na capacidade de realização – ainda que em direções opostas da linha entre o bem e o mal. No final dos anos 1930, fascinado por essas semelhanças e seus significados – e incentivado pelo produtor Alexander Korda – Chaplin decidiu realizar o filme O Grande Ditador. Lançado em 1940, seria um grande sucesso de bilheteria.
        Observe, caro leitor, que Chaplin começou a rodar seu filme em setembro 1939, bem no comecinho da Segunda Guerra Mundial. Quando foi lançado, os nazistas já ocupavam grande parte da França. A Inglaterra ainda não havia declarado guerra a Hitler e fazia um certo esforço diplomático para evitá-la. O Grande Ditador chegou a sofrer censura por lá, mediante a alegação de que a sátira escrachada aos nazistas prejudicaria eventuais acordos. A humanidade estava perdida em confusão e hoje podemos ver isso claramente!
        Aliás, esse é o segredo para se fazer uma visita proveitosa ao filme O Grande Ditador. É preciso apagar da mente tudo o que sabemos acerca de Hitler e sua gangue de nazistas. Faz de conta que não sabemos nada sobre as atrocidades, os crimes, as desumanidades e os sofrimentos causados. Faz de conta que a civilização não será capaz de exceder os limites do absurdo e o que estará no porvir, por mais insano que venha a ser, certamente será contido com um mínimo de sanidade.
        A ascensão de Adolf Hitler na década de 1930 dividiu opiniões, mas Charlie Chaplin sabia muito bem de que lado deveria ficar. Percebeu que aquele reles impostor, cujas promessas eram falaciosas, precisava ser ridicularizado. De um lado, sua semelhança física com Hitler já era usada na mídia como referência visual para os cartunistas, de outro, os próprios nazistas já o mantinham na mira, tratando-o como um palhaço judeu nojento – o detalhe é que Chaplin não era judeu! Determinado, ele criou um roteiro impecável, onde conseguiu se encaixar duplamente: vive um homem comum, à imagem e semelhança do seu consagrado vagabundo e também interpreta o ditador ridículo, mas perigosamente mortal. Vamos lembrar a sinopse de O Grande Ditador.
        O filme abre em plena Primeira Guerra Mundial, flagrando o protagonista (Clarlie Chaplin) como um atrapalhado soldado da Tomânia, que apronta confusões hilárias no campo de batalha. Ele consegue salvar o piloto Shultz (Reginald Gardiner), mas sofre um acidente e passa os próximos vinte anos num hospital. Quando se recupera, tenta retomar sua vida como barbeiro, mas encontra uma outra realidade com ares de distopia: a Tomânia agora está dominada por Adenoid Hynkel (Charlie Chaplin), um ditador cruel que põe sua gangue de seguidores para massacrar opositores e perseguir judeus. Enquanto o barbeiro se envolve com Hannah (Paulette Goddard), uma moradora do gueto, Adenoid Hynkel segue com seu plano para dominar o mundo, buscando o apoio do esfuziante Benzino Napaloni (Jack Oakie), ditador de Bactéria. Quando a violência está prestes a pôr seus tentáculos sobre o barbeiro judeu, ele consegue fugir para Osterlich com a ajuda de Shultz, que agora é um oficial de alta patente. Mas quando se acham seguros, eis que Adenoid Hynkel invade Osterlich e traz sua fúria ditatorial para dominar também aquele país. Por uma sucessão de eventos desconcertantes, o inevitável acontece: a semelhança física entre o barbeiro e o ditador faz com que ambos os personagens se confundam em um só, abrindo uma chance para que a sensatez, a justiça e a liberdade ganhem voz.
        O Grande Ditador foi o primeiro filme sonoro de Charlie Chaplin. Ele vinha resistindo à tentação de ingressar no mundo do som – seu filme anterior, Tempos Modernos, figurou como um orgulhoso anacronismo técnico. Mas para satirizar Adolf Hitler, ele veio decidido a lançar mão dos mesmos recursos que o ditador usava para hipnotizar as massas. Sua paródia dos discursos com fala arranhada e raivosa durante os gigantescos comícios é hilária. É incrível como ele consegue alternar entre a comédia agradavelmente ingênua e deliciosa com momentos de drama sombrio e assustador. Enquanto seu Adenoid Hynkel baila equilibrando o mundo feito uma bolha de sabão, ele faz cair a máscara de Hitler e também as de todos os ditadores que nele se inspiram.
       Muitos acusaram O Grande Ditador de banalizar as atrocidades nazistas, mas Charlie Chaplin, assim como o grande público, não fazia ideia da fúria homicida que viria pela frente. A guerra estava apenas começando e o que havia eram apenas os sinais de uma tempestade se aproximando. Mas o legado estético de Chaplin serviu de inspiração para todos os outros humoristas que, sabendo bem mais sobre os crimes que foram capazes de cometer, deitaram e rolaram na missão de esfarelar a imagem do abominável Hitler e seus nazistas.
        Mas a verdade é que quando revisito O Grande Ditador – e fiz isso há poucos dias – o único nome que que me vem à mente é o do diretor, roteirista, produtor, diretor de fotografia e autor da trilha sonora Charlie Chaplin. O outro sujeito de bigodinho curto ficou diminuído à estatura de um ridículo Adenoid Hynkel.

Resenha crítica do filme O Grande Ditador

Ano de produção: 1940
Direção: Charlie Chaplin
Roteiro: Charlie Chaplin
Elenco: Charlie Chaplin, Paulette Goddard, Jack Oakie, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Billy Gilbert, Grace Hayle, Carter DeHaven, Maurice Moscovitch, Emma Dunn, Bernard Gorcey e Paul Weigel

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