Crítica | Tempo: M. Night Shyamalan encontrou mais um ótimo mistério. Pena que resolveu explicá-lo!

Cena do filme Tempo
Tempo: filme de M. Night Shyamalan

ENVELHECER SEM O BÔNUS DA EXPERIÊNCIA DE VIDA

O que é o tempo? Nas rodas de conversa, alguém sempre lançará mão da tirada espirituosa de Santo Agostinho em As Confissões, seu livro autobiográfico: “Se ninguém me pergunta, eu o sei, mas se me perguntam, e quero explicar, não sei mais nada.” Aferrados ao relógio, escravos dos compromissos, concluímos que o tempo é de uma constância implacável, mas não é bem assim: quando nos divertimos, ele voa; na cadeira do dentista, ele se arrasta! Na medida em que o tempo flui, ficamos mais velhos. E se ficamos mais velhos, é porque acumulamos mais tempo de vida. Essa lógica cristalina vai por terra no filme Tempo, dirigido em 2021 por M. Night Shyamalan.

O fascínio sobre aquilo que não compreendemos

        Desse cineasta indo-americano, podemos esperar surpresas, jamais o convencional. Desde que explodiu em sucesso com o filme O Sexto Sentido, construiu uma filmografia baseada em temas fantásticos e sobrenaturais, sempre abordados de modo a valorizar os pontos de virada. Em Tempo, Shyamalan parece estar à vontade ao lindar com o elemento que mais aprecia: o mistério. Seu filme é intrigante, espirituoso, perturbador... Alterna momentos de angustia com espasmos de humor tolo, mas justificável diante do problema bizarro enfrentado por seus personagens. Aliás, personagens muito bem construídos, que ajudaram o fluxo dramático da história. Vejamos uma sinopse:

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Cena do filme Tempo
Tempo: M. Night Shyamalan adaptou uma Graphic Novel

Um dia tranquilo, numa praia paradisíaca 

        Tempo conta a história de Guy (Gael García Bernal) e Prisca (Vicky Krieps), que mantêm seu processo de divórcio oculto dos filhos, Maddox (Alexa Swinton), de 11 anos e Trent (Nolan River), de seis. De férias, os quatro chegam a um luxuoso resort de praia e logo são convidados para conhecer uma praia secreta e paradisíaca, acessível a pouquíssimos hóspedes. Aceitam o convite e são levados de van até o local – o motorista é o próprio Shyamalan, que faz uma aparição especial em seu filme. Na praia, descobrem que passarão o dia na companhia de outros hóspedes: Mid-Sized Sedan (Aaron Pierre), uma celebridade do rap, Charles (Rufus Sewell), um cirurgião estressado, que vem acompanhado da esposa, Chrystal (Abbey Lee), da sogra, Agnes (Kathleen Chalfant) e da filhinha, Kara (Kyle Bailey), além do enfermeiro Jarin (Ken Leung) e sua mulher, Patricia (Nikki Amuka-Bird), que sofre de ataques epiléticos.

Cena do filme Tempo
Tempo: confrontados com um grande mistério

        Então começam os problemas: há um cadáver trazido pelo mar. Tentam buscar ajuda, mas descobrem que não conseguem sair do local, impedidos por alguma força misteriosa. Talvez a mesma força que começa a produzir fenômenos bizarros, como a rápida cicatrização de cortes, as roupas das crianças que ficam apertadas, os pés de galinha que brotam no rosto... Espere! É o tempo que está a passar depressa demais? Ou são eles, que envelhecem numa velocidade incrível? Os personagens precisam se apressar, se quiserem entender o que se passa e como resolver o problema!

Além da imaginação

        O roteiro escrito por M. Night Shyamalan é baseado na história em quadrinhos intitulada Sandcastle, escrita por Pierre Oscar Lévy e ilustrada pelo artista gráfico suíço Frederik Peeters. Suas 112 páginas contam a história de um jovem casal que chega em uma praia paradisíaca, sem saber que ela esconde um segredo: as pessoas que ali estão não conseguem sair e envelhecem rapidamente – é o oposto do sonho de encontrar uma fonte da juventude. Talvez morram de velhice até o final do dia! O enredo, digno de virar episódio da antiga série Além da Imaginação, pisa em temas existenciais e nos faz lidar com as inconveniências da condição humana. Os autores, no entanto, não se preocuparam em dar explicações que ajudem o leitor a entender o mistério.

Cena do filme Tempo
Tempo: ênfase no trabalho dos atores

Sugerindo explicações

        Na sua adaptação, Shyamalan faz o contrário; vem com respostas e desemboca num final explicativo, que divide os cinéfilos quanto à sua pertinência e propriedade. O diretor conta que foi presenteado pelas filhas com um exemplar da história em quadrinhos; leu e ficou entusiasmado com o tom de mistério e a humanidade do tema. Decidiu adaptá-la para as telas, mas fez algumas pequenas alterações: criou novos personagens e usou a imaginação para encontrar explicações convincentes. Hábil na condução da linguagem cinematográfica, estruturou um roteiro preciso, que narra o comovente drama dos protagonistas por meio de elementos de horror, thriller psicológico e doses de humor sutil.

Tanta rapidez não tem graça nenhuma

        O diretor conseguiu lidar bem com o envelhecimento dos personagens. Convocou um elenco excelente e soube manter a coesão nas atuações. Utilizar vários atores para interpretar personagens em diferentes idades, aumentou o tamanho do desafio, mas Shyamalan encontrou soluções narrativas engenhosas. Seu filme corre ágil e prende a atenção até o final; faz pensar, incomoda e nos instiga a olhar em volta, para nossos pais, nossos filhos e nossa própria imagem no espelho. Que o tempo passará implacável, é certo. Que a velhice chegará, é o que todos esperamos. Mas quando ela vem rápido demais e sem a experiência de vida que traz como bônus, não tem graça nenhuma!

Cena do filme Tempo
Tempo: caminhando para a resolução do mistério

Um final decepcionante

        De minha parte, já me dava por satisfeito quando o filme estava prestes a acabar. Deixaria no ar uma névoa de enigma e me obrigaria a usar a imaginação. Mas então, o diretor decidiu esclarecer tudo e nos puxar de volta à realidade. Explicou todos os porquês e deixou o drama do envelhecimento em segundo plano; trouxe a velha ganância humana para assumir o protagonismo. Pronto, mistério resolvido! Lá vamos nós, de olho no relógio, mais preocupados com os compromissos a cumprir. Ah, esse final foi desnecessário! Se você quer dicas de bons filmes, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★☆☆(3 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de M. Night Shyamalan, o roteiro bem escrito, o ótimo trabalho dos atores e a concepção visual caprichada.

O que decepciona: em vez de sustentar o clima de mistério, o diretor decidiu subestimar o espectador e veio com respostas prontas no fina. Uma pena!

Vale a pena. É entretenimento de qualidade.

Ficha técnica do filme Tempo

Título original: Old
Ano de produção: 2021
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan

Elenco:
  • Gael García Bernal
  • Eliza Scanlen
  • Thomasin McKenzie
  • Aaron Pierre
  • Alex Wolff
  • Vicky Krieps
  • Abbey Lee
  • Embeth Davidtz
  • Rufus Sewell
  • Ken Leung
  • Nikki Amuka-Bird
  • Emun Elliott
  • Nolan River

Comentários

  1. Texto primoroso. Resumo compacto e, como sempre, esclarece sem tirar o mistério da narrativa. O filme é muito bom. Tão bom quanto o seu texto.

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