Apocalypse Now: o pano de fundo é a insanidade!

Cena do filme Apocalypse Now
Apocalypse Now: filme de Francis Ford Coppola

COLOCANDO O DEDO NA FERIDA

Os hippies surgiram na cidade de São Francisco, nos anos 60. Eram os herdeiros dos beatniks, mas preferiam não perder tempo com intelectualidades. Eram pacifistas, gostavam de se alienar, pregavam o amor livre e se valiam do consumo de drogas para... abrir a mente. Foram pródigos em lançar slogans vazios, mas grudentos: faça amor, não faça a guerra; é proibido proibir; dê uma chance à paz... Quando o roteirista John Milius encontrou um hippie com um pin, onde leu a inscrição “Nirvana Now”, encontrou o título perfeito para o seu filme: Apocalypse Now – o exato oposto do anseio budista de alcançar a paz interior e a felicidade, pela libertação do sofrimento que chega pelos sentidos e pela realidade material. Enquanto os alienados da contracultura se passavam por bonzinhos, pregando paz e amor, os malvados que cultivavam a guerra eram os cavaleiros do caos. O bom e velho “nós contra eles”!
        O filme, que antes era para se chamar The Psychedelic Soldier, imediatamente encontrou sua expressão cult. Francis Ford Coppola, o diretor consagrado e financeiramente bem-sucedido depois da obra-prima O Poderoso Chefão, teria a chance de mais uma vez entrar para o panteão do cinema. Realizaria um dos mais importantes filmes de guerra, influenciando todos os grandes cineastas que a partir daí se aventuraram no tema da Guerra do Vietnã. A opinião pública americana ainda estava zonza com os sopapos que levaram na Indochina em 1975 e o momento era o de exorcizar os demônios. Em 1979, Apocalypse Now veio para colocar o dedo na ferida e mostrar que os americanos estavam maduros para falar dos erros que cometeram.
        Antes de seguir essa linha de raciocínio, creio que devemos lembrar a sinopse do filme. Ele nos conta a história do capitão Benjamin Willard (Martin Sheen), um veterano das forças especiais assombrado por fantasmas do passado e pelos efeitos do álcool. Está em Saigon à espera de ação. Ela vem ao seu encontro, quando oficiais da inteligência o incumbem de uma missão complicada: entrar na selva seguindo o rio Nùng para localizar e encontrar um certo Coronel Walter E. Kurtz no interior do Camboja. E terá que matá-lo, já que o oficial enlouqueceu e está se comportando como uma espécie de ditador, comandando uma tropa imensa. Então, Willard segue de barco com uma pequena patrulha, vivenciando a guerra infernal em sua realidade mais absurda. Cruza com o Tenente-Coronel Bill Kilgore (Robert Duvall), comandante de um esquadrão de helicópteros que adora o cheiro de napalm no café da manhã. Assiste a um show das coelhinhas da Playboy produzido especialmente para os heroicos soldados no Vietnã. É atacado, mete-se em incontáveis perigos iminentes e encontra um fotógrafo amalucado, vivido por Dennis Hopper, que se rendeu à suposta genialidade do Coronel Kurtz (Marlon Brando). O dilema moral embutido na missão de Willard acaba se diluindo no caldo de loucura que se tornou a Guerra do Vietnã, onde os poucos soldados que estão em busca de redenção, ocupam-se por primeiro em reencontrar a sanidade.
        A ideia de Apocalypse Now nasceu na cabeça do roteirista John Milius. Para falar da insanidade da guerra, ele usou como alegoria o romance escrito em 1899 pelo anglo-polonês Joseph Conrad, intitulado Heart of Darkness. Trata-se de uma obra enigmática e repleta de simbolismos, narrada por um certo Charles Marlow. Ele conta como desceu o rio Congo, no coração da África, numa jornada atribulada, para encontrar um comerciante de marfim chamado Kurtz. O livro toca em temas sensíveis na época, envolvendo racismo, o declínio do imperialismo britânico e a submissão do continente africano. Ao transferir a história do Congo para o Vietnã, Milius trouxe para o filme uma incômoda profundidade psicológica. Mas sua adaptação acabou se desviando bastante do romance de Conrad. Os incontáveis tratamentos renderam mais de mil páginas, a maioria reescrita nos sets de filmagem pelo próprio diretor.
        Mas é claro que o nome mais fortemente ligado a Apocalyse Now é mesmo o de Francis Ford Coppola. Sua tenacidade – alguns preferem falar em teimosia – foi essencial para que o filme pudesse ser realizado. O diretor colocou milhões do próprio bolso na produção e partiu com uma equipe imensa para filmar nas selvas das Filipinas. Calor infernal, mosquitos, tédio, doenças, insanidades, atrasos constantes... Isso tudo parece ter sido o de menos. O fato de Martin Sheen ter sofrido um infarto durante as filmagens e de Marlon Brando ter sofrido ataques de estrelismo exagerado, foi muito mais explorado pela imprensa, que acompanhou a realização do filme com muita atenção.
        Numa época sem as facilidades da computação gráfica, todas as cenas que acompanhamos em Apocalyse Now precisaram ser solucionadas e realizadas com grande esforço técnico, numa produção épica que, em dado momento, pareceu ter saído do controle de seus realizadores. Mas não vemos nada disso enquanto assistimos a esse filme incrível. Há várias versões realizadas por Copolla e passados mais de 40 anos, quando colocamos as mãos num DVD que contenha uma delas, ainda sentimos um certo arrepio na hora de dar o play. É um tipo de cinema que não encontramos facilmente por ai!

Resenha crítica do filme Apocalypse Now

Ano de Produção: 1979
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: John Milius e Francis Ford Coppola
Elenco: Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall, Frederic Forrest, Albert Hall, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Dennis Hopper, G. D. Spradlin, Jerry Ziesmer, Harrison Ford, Scott Glenn, Bill Graham, Cynthia Wood, Linda Carpenter, Colleen Camp e Francis Ford Coppola

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