As Duas Faces de um Crime: o final é surpreendente

Cena do filme As Duas Faces de um Crime
As Duas Faces de um Crime: direção de Gregory Hoblit

A PRESENÇA MEMORÁVEL DE UM COAJUVANTE TALENTOSO

Nos anos 1990, a indústria cultural fabricava um produto com grande saída junto ao público americano: o telefilme. O formato era um pouco diferente daquele adotado nas produções para o cinema. A estrutura dos atos era construída de modo a acomodar os vários intervalos comerciais, deixando espaço para que os patrocinadores pudessem vender seus peixes. As cenas e sequências eram captadas em planos mais próximos, privilegiando closes dos atores, para que ficassem mais visíveis nas telinhas da TV. E os temas eram apresentados com dramaticidade atenuada, já que, em casa, os sofás das salas estavam ocupados por famílias inteiras. Telefilmes eram produtos de segundo escalão, mas nem por isso menos populares. Um diretor que se adaptou muito bem ao formato, tornando-se um dos principais nomes da TV dos Estados Unidos, foi Gregory Hoblit. Quando migrou para a tela grande, estreou com um estrondoso sucesso de bilheteria: As Duas Faces de um Crime, realizado em 1996.
        Os cinéfilos certamente se lembram desse filme como um dos grandes thrillers de tribunal daquela década, que marcou a estreia de Edward Norton e o projetou como ator de muito talento e vastos recursos. Ainda assim, Gregory Hoblit não conseguiu disfarçar o jeitão de telefilme, que acabou colado na produção. A trama ficou confinada aos enquadramentos televisivos, sem descer às profundezas dos personagens, enquanto o diretor pareceu mais preocupado em conduzir o espectador direto para o surpreendente ponto de virada no final. E quando ele eclode, a falta de densidade dos personagens principais cobra um preço caro: a única presença memorável acaba sendo a do coadjuvante novato, mas com estampa de veterano.
        Vamos lembrar a sinopse do filme, para refrescar a memória dos cinéfilos: As Duas Faces de um Crime conta a história do vaidoso advogado Martin Vail (Richard Gere), um dos mais famosos de Chicago, conhecido por defender clientes endinheirados e conseguir estrondosas vitórias nos tribunais, graças ao seu talento para explorar as firulas técnicas e as fragilidades dos labirintos jurídicos. Quando o arcebispo Rushman (Stanley Anderson) é brutalmente assassinado por um de seus coroinhas, o assustado Aaron Stampler (Edward Norton), Vail percebe a oportunidade de estar no centro de um dos maiores acontecimentos da cidade. Torna-se defensor do pobre rapaz, que exala doçura e inocência, mas terá que travar uma batalha nos tribunais com a promotora Janet Venable (Laura Linney), sua ex-amante. As reviravoltas em série começam quando vem à tona o passado altamente suspeito do arcebispo, envolvido em escândalos sexuais, fato que favorece as teses de defesa de Vail. Por outro lado, o jovem coroinha deixa de ser a encarnação da inocência para revelar uma face sombria. Os desdobramos do caso levarão a um final chocante, quando o advogado finalmente descobre os segredos do seu cliente.
        As Duas Faces de um Crime foi adaptado do romance Primal Fear, escrito em 1993 por William Diehl, um ex-jornalista e fotógrafo que iniciou a carreira de romancista aos 50 anos. Suas histórias de tribunal, sempre envolvendo tramas de assassinato, caíram no gosto popular, ainda que os críticos torcessem o nariz para sua escrita desleixada e seus personagens carentes de desenvolvimento. O segredo talvez esteja no ritmo ágil da sua narrativa e nos surpreendentes pontos de virada que trazia escondidos na manga. O diretor Gregory Hoblit, também um apaixonado por dramas de tribunal – filmaria outras histórias do gênero, como A Guerra de Hart e Um Crime de Mestre – viu a oportunidade de realizar um típico exemplar do gênero, onde um advogado habilidoso e astuto se esforça para defender um réu sobre cuja inocência o espectador não coloca a mão no fogo de imediato.
        A adaptação para as telas, escrita por Steve Shagan e Ann Biderman, peca pelo excesso de subtramas, algumas dispensáveis. O roteiro tenta abrir espaço os temas espinhosos, como as brechas no sistema de justiça, o corporativismo, a exploração midiática e o exibicionismo dos advogados em busca de projeção, mas tudo isso fica como pano de fundo. O protagonista, um advogado arrogante, mais interessado em poder e dinheiro, perde verossimilhança quando deixa de lado o cinismo para lutar por... justiça. E o tal ponto de virada, quando chega, pode não ser tão surpreendente para o espectador acostumado com os thrillers de tribunal.
        O grande sucesso de As Duas Faces de um Crime se deve, com certeza, ao jovem ator Edward Norton. O que há de mais convincente no filme é o seu esforço em apresentar um subtexto complexo, capaz de deixar o espectador hipnotizado de tantas dúvidas. Já Richard Gere, apesar de transbordar charme e elegância – atuando com sua costumeira competência – não encontra camadas mais profundas de seu personagem com as quais trabalhar. Ao revisitar esse thriller de tribunal com jeitão de telefilme, o cinéfilo vai reparar que, por já conhecer a surpresa do ponto de virada, grande parte do impacto se perdeu. O ponto forte continua sendo... Edward Norton.

Resenha crítica do filme As Duas Faces de um Crime

Título original: Primal Fear
Título em Portugal: A Raiz do Medo
Ano de produção: 1996
Direção: Gregory Hoblit
Roteiro: Steve Shagan e Ann Biderman
Elenco: Richard Gere, Edward Norton, Laura Linney, John Mahoney, Alfre Woodard, Frances McDormand, Terry O'Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Joe Spano, Tony Plana, Azelea Davila, Stanley Anderson, Maura Tierney e Jon Seda

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