Interestelar: um banho de ciência!

Cena do filme Interestelar
Interestelar: direção de Christopher Nolan

QUANDO CINEASTAS E CIENTISTAS TRABALHAM EM PARCERIA

Há inúmeras maneiras pelas quais a vida pode se extinguir na Terra: erupções solares, mudanças no escudo magnético que nos protege da radiação cósmica, impactos de meteoros e cometas... Nosso planeta, da maneira como nos valemos dele hoje, está destinado a desaparecer. É questão de tempo. Portanto, se temos pretensão de continuar existindo, teremos que nos aventurar no espaço e encontrar outros mundos colonizáveis. Essa noção é o motor da epopeia humana em busca de conhecimento científico e, em última instância, da própria corrida espacial, que já nos legou importantes conquistas. É também o motor de vários filmes de ficção científica, que há décadas têm nos colocado íntimos do espaço sideral, seus perigos e desafios.
        O gênero encontrou no cinema um suporte perfeito para se desenvolver. Enquanto a literatura, para misturar especulação científica, drama, ação, mistério e suspense, contava apenas com seu poder imagético, a sétima arte reuniu um poderoso arsenal de ferramentas tecnológicas e lançou mão de um realismo atordoante. São várias as produções que nos deixam de queixo caído, por tratar a ciência com rigor e seriedade – dois bons exemplos que me ocorrem são 2001 – Uma Odisseia no Espaço e Perdido em Marte. Seguindo na mesma direção, o filme Interestelar, dirigido em 2014 por Christopher Nolan, dá um verdadeiro banho de ciência no cinema, mas vai além: transforma o cinema numa valiosa ferramenta a serviço dos cientistas.
        Interestelar nasceu quando o renomado físico teórico Kip Thorne, especialista em buracos negros, buracos de minhoca, deformações no espaço-tempo e ondas gravitacionais, aceitou o convite de uma ex-namorada, a produtora de cinema Lynda Obst, para participar de um brainstorming para o desenvolvimento de um filme em Hollywood. Thorne gostou tanto da experiência que acabou se envolvendo como produtor, trabalhando diretamente com a equipe de Paul Franklin, o especialista em computação gráfica que terminou recebendo o Óscar de melhores efeitos visuais por este filme. A questão é que, parar criar as incríveis imagens do buraco negro que aparece na trama, Thorne precisou desenvolver um novo método de simulação em computador. E esse método está agora sendo empregado por astrofísicos para visualizar outras simulações, como colisões de estrelas de nêutrons e buracos de minhoca. É o cinema retroalimentando a ciência!
        O filme Interestelar nos leva para um futuro não muito distante, quando o ecossistema da Terra foi praticamente destruído e a civilização luta para se manter por meio de atividades agrícolas. Joseph Cooper (Matthew McConaughey), um ex-piloto da NASA, trabalha duro na sua fazenda, enquanto sua filha de dez anos, Murphy (Jessica Chastain), jura que há um fantasma rondando seu quarto. Acontece que a tal assombração se revela inteligente e por meio de mensagens codificadas os levam até uma instalação secreta, onde a NASA está conduzindo um programa especial clandestino. Lá eles descobrem pelo professor John Brand (Michael Caine) que há um buraco de minhoca nas imediações de Saturno, por meio do qual outras missões já alcançaram três planetas possivelmente habitáveis, mas jamais retornaram. Cooper então se junta à tripulação da espaçonave Endurance, formada pela Dra. Amelia Brand (Anne Hathaway), pelo Dr. Romilly (David Gyasi) e pelo Dr. Doyle (Wes Bentley), com a missão de explorar os planetas e descobrir se há saída para a humanidade.
        A partir do brainstorming criado em 2007 por Lynda Obst e Kip Thorne, o enredo de Interestelar foi desenvolvido pelo roteirista Jonathan Nolan, num projeto encabeçado pelo diretor Steven Spielberg. A ideia era realizar um filme sobre exploração espacial baseado na física, usando conceitos científicos precisos. Três anos depois, o projeto não vingou. Jonathan então convocou seu irmão, o diretor Christopher Nolan, para assumir a regência. O novo diretor preservou os conceitos básicos do enredo, mas desenvolveu seus elementos dramáticos. Chegou com uma abordagem mais humana, onde o drama de um pai se impõe, diante da urgência em se encontrar uma solução para a humanidade inteira.
        A história imaginada pelos criadores mudou completamente, mas Interestelar continuou pisando firme no terreno científico, ressaltando conceitos mais do que plausíveis: inteiramente realistas. O próprio astrofísico Kip Thorne escreveu um livro, a partir das noções estabelecidas no filme, intitulado The Science of Interestelar. Seu objetivo é levar ao grande público, com um pouco mais de precisão, toda a inspiração que é possível obter quando cinema e ciência se unem em torno de uma ideia.
        Os irmãos Jonathan e Christopher Nolan já assinaram juntos diversas colaborações no cinema – desde Batman: O Cavaleiro das Trevas até filmes eletrizantes como O Grande Truque. A ficção científica e a fantasia, portanto, são substâncias que a dupla conhece profundamente e manipula com competência. Quem aprecia o gênero e leva a ciência a sério, tem motivos de sobra para conferir. Quem gosta de acompanhar uma história muito bem contada, também!

Resenha crítica do filme Interestelar

Ano de produção: 2014
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan
Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Mackenzie Foy, Ellen Burstyn, John Lithgow, Michael Caine, Casey Affleck, Timothée Chalamet, Wes Bentley, Bill Irwin, Josh Stewart, Topher Grace, David Gyasi, Matt Damon, Leah Cairns, David Oyelowo, Collette Wolfe, William Devane, Elyes Gabel e Jeff Hephner

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