O Grande Truque: o segredo é surpreender no final

Cena do filme O Grande Truque
O Grande Truque: direção de Christopher Nolan

O MUNDO DA MÁGICA TRATADO COM FANTASIA E IMAGINAÇÃO

Já não há mais palcos para os espetáculos de magia em nossos tempos digitais. Mas no final do século XIX, os mágicos de fraque e cartola eram celebridades, que assombravam as plateias com truques desconcertantes. Faziam questão de atiçar a curiosidade do público e jamais revelavam seus segredos. Alguns fizeram fama e fortuna, até o momento em que as façanhas da tecnologia começaram a criar outras atrações mais... midiáticas.
        O escritor britânico Christopher Priest se interessou por esses tempos áureos da mágica e encontrou assunto para escrever seu romance Prestige, publicado em 1996. Partiu da história real do mágico chinês conhecido como Ching Ling Foo, cuja especialidade era fazer surgir objetos por debaixo de seu lenço de seda. Alguns eram grandes e pesados, como um aquário cheio d’água contendo vários peixes dourados. Ninguém sabia como ele conseguia tal façanha, já que era um sujeito mirrado, que se locomovia com muita dificuldade e certamente não conseguiria esconder tamanho objeto debaixo das vestes.
        Nos palcos londrinos, Ching Ling tinha um aqui-rival, o mágico William Ellsworth Robinson, que usava Chung Ling Soo como nome artístico. Essa história serviu de inspiração para Priest, que se concentrou na obsessão de ambos em preservar seus segredos, para criar dois personagens fictícios, envolvidos numa disputa mortal: Robert Angier e Alfred Borden.
        Assim que leu o romance de Priest, o cineasta Christopher Nolan decidiu adaptá-lo para as telas. Por sete anos trabalhou em parceria com seu irmão, Jonathan Nolan, escrevendo o roteiro de O Grande Truque, filme que acabou realizando em 2006. Não era para ser uma grande produção, como seriam A Origem e Dunkirk, seus filmes mais famosos, mas resultou numa obra elaborada, com uma trama intrincada e uma narrativa construída em minúcias, bem ao gosto do diretor. Aqui, ele mistura drama, fantasia, ficção científica e boas doses de suspense, para tratar o mundo do ilusionismo com grande respeito, afinal, devemos lembrar que o cinema herdou dos mágicos as técnicas de prestidigitação que usa para enfeitiçar as plateias. O passe de mágica de Nolan foi criar uma narrativa visual verossímil para desfiar uma trama complicada. Mas antes de falar sobre isso, precisaremos lembrar da sinopse do filme.
        O Grande Truque nos leva à Londres dos anos 1890, onde Robert Angier (Hugh Jackman) morre tragicamente durante um número de mágica, bem diante do seu rival Alfred Borden (Christian Bale). Borden é acusado de assassinato e preso. O que se segue então é uma narrativa em flashback, mostrando as origens do embate entre os dois, quando trabalhavam para o mágico John Cutter (Michael Caine). Um acidente terrível, supostamente causado por Borden, resulta na morte de Julia (Piper Perabo), a mulher de Angier, que atuava como assistente de palco. Pronto! Inconsolável, Angier só pensa em vingança, mas trata de seguir a carreira no ilusionismo, trabalhando com sua nova assiste, a bela Olivia (Scarlett Johansson). Borden também inicia sua própria carreira como mágico de sucesso e verá seus caminhos se cruzando com os do rival. Entre revanches e sabotagens, haverá sangue e dor nos palcos e fora deles, enquanto os mágicos tentam se desmascarar mutuamente, lançando mão dos truques mais sujos. Envolvem até mesmo o grande inventor Nikola Tesla (David Bowie), na tentativa de incorporar ciência de verdade aos seus números no palco. Mas as peças que faltam para completar o intricado quebra-cabeça só serão reveladas no final, com um surpreendente ponto de virada.
        Para uma produção que se propunha modesta, O Grande Truque assumiu proporções de cinemão. Dessa vez Christopher Nolan não se dedicou a construir grandes cenários, preferindo usar apenas locações e muita luz natural. Filmou de forma espontânea e despojada, com a câmera na mão, para extrair uma eletrizante energia criativa do ótimo elenco que conseguiu reunir. Além de Hugh Jackman, que se sente em casa graças aos musicais que tem no currículo, temos um Christian Bale furioso, um Michael Caine esbanjando astúcia e experiência, uma Scarlett Johansson bela e sedutora e até um elegante David Bowie no papel do excêntrico Nikola Tesla. É luxo só!
        Mas o roteiro dos irmãos Nolan merece especial destaque. A adaptação para as telas foi engenhosa, já que traz algumas mudanças em relação ao romance, onde o autor estende a batalha entre os mágicos até os dias de hoje, por meio dos seus descentes. Já no cinema, a narrativa repleta de suspense fica concentrada nos dois protagonistas, seguindo a estrutura do livro, mas reorganizando as cenas de modo a introduzir a noção das três partes que constituem qualquer truque de mágica: a apresentação de algo comum aos olhos da plateia, que depois será transformado em algo extraordinário, para finalmente ser trazido de volta, reencontrando a plateia que, ela sim, acabou transformada.
        Em O Grande Truque, Nolan desenvolve o enredo de Priest na forma de ideias cinematográficas mais apropriadas, valendo-se de truques para iludir o espectador e provocar desorientações. Nos leva a olhar em outra direção, enquanto faz sua mágica narrativa. Vale lembrar que o cinema, tradicionalmente, também se vale de uma estrutura composta de três atos, mas aqui o diretor tratou de embaralhá-los, contando sua história de forma não linear. Porém, o mais interessante é que o filme não está preocupado em desvendar os segredos de como são feitos os truques de mágica. As revelações são ocasionais e atreladas à compreensão do enredo. O que temos diante dos olhos são dois personagens intensos, obsessivos, engenhosos e curiosos, mas dispostos a jamais revelar as artimanhas que usam para criar seus truques.
        Só que o diretor também é um bom mágico e está decidido a nos levar atentos até o abracadabra final, surpreendendo com uma revelação que poucos ousariam imaginar.


Resenha crítica do filme O Grande Truque

Título original: The Prestige
Título em Portugal: O Terceiro Passo
Ano de produção: 2006
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan
Elenco: Hugh Jackman, Christian Bale, Michael Caine, Rebecca Hall, Scarlett Johansson, David Bowie, Piper Perabo, Roger Rees, Andy Serkis, Ricky Jay e Samantha Mahurin

Comentários

  1. Ótima crônica.

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  2. Muito obrigado!!! Valeu pelo feedback.

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  3. “Só que o diretor também é um bom mágico e está decidido a nos levar atentos até o abracadabra final…” Excelente!

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