O Milagre: ficção construída sobre fatos perturbadores

Cena do filme O Milagre
O Milagre: direção de Sebastián Lelio

CINEMA VISTOSO, DENSO E ENVOLVENTE

Quem assistiu ao filme O Quarto de Jack, dirigido em 2015 por Lenny Abrahamson, certamente traz na memória as cenas tocantes sobre o relacionamento entre uma mãe e seu filho de cinco anos aprisionados num cativeiro, enquanto ela tenta se desdobrar em superação, para encontrar a saída que os leve a uma existência digna. Pois a escritora irlandesa Emma Donoghue, autora do romance e da sua adaptação para as telas, continua interessada no tema. Em sua nova empreitada, intitulada O Milagre, romance que virou filme em 2022 sob a direção do chileno Sebastián Lelio, ela volta a investigar os corredores apertados da maternidade, contando uma outra história fictícia. Esta se passa na sua Irlanda natal, nos idos de 1862 e envolve personagens inventados, mas inspirados em fatos impressionantes.
        Antes de falar sobre O Milagre, será preciso contextualizar o seu enredo. Naquela época, a Irlanda acabava de sair da Grande Fome, um período de escassez de alimentos, doenças e estímulo à imigração, que reduziu a população da ilha em 25%. A tragédia deixou marcas profundas nos irlandeses, que se aferraram ainda mais à fé cristã – tanto os católicos como os protestantes. O que surgiu, então, foram os casos intrigantes de manifestação religiosa e ocorrências inexplicáveis, onde algumas pessoas afirmavam poder viver milagrosamente, sem comida.
        Na sua maioria, os jejuadores eram meninas adolescentes, inspiradas em santas e heroínas da tradição medieval, que podiam passar longuíssimos períodos sem se alimentar, como forma de penitência e expiação dos seus pecados. Emma Donoghue ampliou sua pesquisa para o romance e enxergou um paralelo com as garotas modernas, às voltas com a anorexia e a necessidade de atrair a atenção por razões emocionais. E decidiu também que abordaria o embate entre o fundamentalismo religioso e a pura razão científica, que se intensificou naquela metade do século XIX. Foi assim que criou seus personagens e estabeleceu um enredo consistente, que culmina com uma revelação surpreendente no final.
        Agora, sim, podemos estabelecer a sinopse de O Milgare: o filme conta a história de Lib Wright (Florence Pugh) uma enfermeira com sólida formação na escola de Florence Nightingale – a fundadora da enfermagem profissional moderna. Ela chega a um vilarejo da Irlanda com a missão de vigiar a menina Anna O'Donnell (Kíla Lord Cassidy), de apenas 11 anos, que segundo sua família está sem comer há quatro meses. O objetivo é reunir dados para um comitê local, formado por médicos e religiosos, para que possam decidir se o caso configura um milagre da fé ou um fenômeno com comprovação científica. Lib passa a conviver diariamente com Anna e sua família, a mãe Rosaleen (Elaine Cassidy), o pai Malachy (Caolán Byrne) e irmã mais velha Kitty (Niamh Algar). A abordagem racional da enfermeira a impele na busca por respostas, mas não a impede de se envolver afetivamente com a menina em jejum. Suas investigações a colocarão diante de segredos inconfessos e ela terá que contornar a interferência do comitê e também do jornalista William Byrne (Tom Burke), que está interessado em repercutir o caso. No final das contas, o esforço maior de Lib será para tentar salvar a vida de Anna, que está cada vez mais à beira da inanição.
        O roteiro de O Milagre é assinado pela própria Emma Donoghue, em colaboração com o diretor Sebastián Lelio e com a corroteirista Alice Birch. Os três se empenharam em conceber uma peça cinematográfica vistosa, com notável apuro audiovisual e um toque moderno. Embora o ritmo das cenas seja lento, as linhas de diálogo são ágeis e não se prendem à linguagem de época. Fica claro a preocupação de fazer cinema, empregando alguns recursos narrativos oferecidos pela sétima arte – o aparato do estúdio exposto logo na cena de abertura, a narradora quebrando a quarta parede...
        Sebastián Lelio, cujo filme intitulado Uma Mulher Fantástica venceu o Óscar de melhor filme estrangeiro em 2018, veio decidido a exercitar a excelência. Montou uma equipe competente, na frente e atrás das câmeras. Criou cenários expressivos, onde a iluminação entra sempre pelas janelas para criar uma atmosfera de mistério e introspecção. As paisagens externas são captadas como pinturas elaboradas e detalhadas. Os figurinos e o design de produção atraem o olhar e conversam com o espectador em todas as cenas. Tudo é captado com preciosismo técnico e sensibilidade artística pelo diretor de fotografia, Ari Wegner, enquanto a música assinada por Matthew Herbert completa um conceito estético integrado e coeso.
        A direção de Sebastián Lelio acerta ao capturar a complexidade dos personagens e explorar de forma sensível o envolvimento emocional que nasce entre a enfermeira racional e a pobre garota fragilizada pelo fanatismo religioso que a cerca. O ritmo que o diretor impõe ao filme faz de O Milagre uma obra robusta e uniforme, ainda que a lentidão possa incomodar os mais ansiosos. Por outro lado, em se tratando de um drama psicológico de época, com uma história que exige atenção por parte do espectador, há um atrativo que pode servir de alento aos cinéfilos mais jovens: a forte presença de Florence Pugh, uma atriz carismática, talentosa e identificada com uma dramaturgia mais... moderna. Ela trouxe solidez para a personagem e certamente estabeleceu uma necessária identificação com os espectadores do serviço de streaming.

Resenha crítica do filme O Milagre

Título original: The Wonder
Ano de produção: 2022
Direção: Sebastián Lelio
Roteiro: Emma Donoghue, Sebastián Lelio e Alice Birch
Elenco: Florence Pugh, Kíla Lord Cassidy, Tom Burke, Niamh Algar, Elaine Cassidy, Caolán Byrne, Toby Jones, Ciarán Hinds, Dermot Crowley, Brían F. O'Byrne, David Wilmot, Ruth Bradley e Josie Walker

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