O Pacto: será uma história é real?

Cena do filme O Pacto
O Pacto: direção de Guy Ritchie

NÃO SENTI FALTA DA TRADICIONAL EXTRAVAGÂNCIA DO DIRETOR

No agitado mundo dos filmes de ação, o diretor britânico Guy Ritchie é uma usina de criatividade a serviço da diversão e do entretenimento. Desde que surgiu em 1998 com seu ótimo Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, dirigiu vários sucessos, entre eles Sherlock Holmes, Snatch: Porcos e Diamantes, O Agente da U.N.C.L.E. e mais recentemente, Esquema de Risco - Operação Fortune. A narrativa sempre ágil e envolvente, os letreiros invadindo a tela, os diálogos afiados e o humor inteligente se tornaram suas marcas registradas. Esperava ver todos esses elementos reunidos em O Pacto, filme que ele dirigiu em 2023, mas não! Ao invés disso, assisti a um thriller de guerra compenetrado, com boa profundidade dramática, um enredo sólido e altas doses de tensão.
        Devo dizer que a tradicional extravagância de Guy Ritchie não faz a menor falta em O Pacto. Ao invés dela, o diretor preferiu ressaltar suas habilidades como narrador visual, cravando as lentes nos personagens e filmando cenas de batalha muito realistas. Tão realistas que chegamos a acreditar que acompanhamos uma história verdadeira. Nada disso! É tudo ficção, orbitando ao redor de personagens inventados, mas mergulhados em verossimilhança.
        O fato é que O Pacto não enfatiza a guerra. Sim, a história se passa no Afeganistão, ocupado pelos Estados Unidos até há dois anos, quando retiraram suas tropas depois de duas décadas de luta contra os talibãs. Sim, há muita violência, tiros e explosões na tela. Sim, o enredo segue no rastro da pura ação militar. Mas prefiro dizer que o filme se concentra na dignidade e na lealdade aos princípios cultivados por dois homens, interessados em honrar uma dívida firmada entre eles.
        Guy Ritchie encontrou a premissa para o filme em uma verdade inconveniente que veio à tona com o fim da guerra no Afeganistão. Para conseguir consolidar sua presença territorial, os americanos arregimentaram centenas de afegãos para atuar como tradutores. O que levou esses homens a aceitar o trabalho, mesmo sabendo que estariam automaticamente condenados à morte pelo Talibã como traidores? Ora, a promessa de receberem vistos de entrada para os Estados Unidos. O problema é que a aprovação desses vistos ficou travada no labirinto burocrático e jamais pôde ser consumada. Com a retirada das tropas americanas, muitos terminaram executados.
        Com isso em mente, já podemos estabelecer a sinopse de O Pacto. O filme se passa em 2018, quando o sargento John Kinley (Jake Gyllenhaal), lidera um pelotão encarregado de localizar e destruir arsenais escondidos pelo Talibã. Quando ele precisa de um novo intérprete, acaba recrutando Ahmed Yousfi (Dar Salim), que se mostra hábil em se movimentar num ambiente de guerra. O americano tem mulher e filhos na Califórnia e o afegão tenta proteger a mulher grávida. Ambos viverão intensamente o calor das batalhas, especialmente depois de uma emboscada mortal armada pelos talibãs. Ahmed arrisca a vida para salvar o sargento e passa por situações angustiantes até colocá-lo em segurança. Agora que está em casa, recuperado dos ferimentos, Kinley só tem uma ideia fixa: retornar ao Afeganistão com os vistos para Ahmed e sua família e trazê-los sãos e salvos para os Estados Unidos. Será difícil!
        A decisão acertada de Guy Ritchie foi a de desprezar o intricado jogo geopolítico que se desenrola no pano de fundo, para desenhar com nitidez a saga de dois indivíduos unidos por um vínculo, ainda que circunstancial. Para seus personagens, a lealdade a esse vínculo é tudo o que importa. E cá entre nós, encontrar quem permaneça leal em uma situação tão perigosa é uma raridade. No lugar deles, muitos encontraram desculpas esfarrapadas e lavaram as mãos. Encontraram álibis.
        Mas os personagens criados por Guy Ritchie – e seus corroteiristas, Ivan Atkinson e Marn Davies – não se deixam corromper. O diretor conta que esculpiu o enredo de O Pacto depois de assistir a vários documentários sobre a guerra no Afeganistão e perceber a importância dos intérpretes durante as operações. Deduziu que o vínculo estabelecido entre eles e os seus sargentos de pelotão renderia um denso caldo dramático.
        Um tempero especial foi adicionado por Jake Gyllenhaal, um ator em grande forma, que conseguiu agregar credibilidade ao seu sargento Kinley ao basear sua interpretação nas experiências de um amigo pessoal, o fuzileiro Zachary Iscol. Esse sim, conviveu com um intérprete e sua família durante a guerra do Iraque. São as fotos deles que ilustram os créditos finais de O Pacto.

Resenha crítica do filme O Pacto

Título original: Guy Ritchie's The Covenant
Ano de produção: 2023
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie, Ivan Atkinson e Marn Davies
Elenco: Jake Gyllenhaal, Dar Salim, Sean Sagar, Jason Wong, Rhys Yates, Christian Ochoa Lavernia, Bobby Schofield, Emily Beecham, Jonny Lee Miller, Alexander Ludwig, Reza Diako, James Nelson-Joyce, Antony Starr e Fariba Sheikhan

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