Oppenheimer: a verdadeira história do pai da bomba atômica

Cena do filme Oppenheimer
Oppenheimer: direção de Christopher Nolan

ANTES DE TUDO, UM FEITO NARRATIVO

Há filmes que nos chegam rotulados como cinemão, embalados em papel de presente, esbanjando imponência e prometendo grandiosidade. São vendidos pela indústria como eventos especiais, marcantes e indispensáveis. É o caso de Oppenheimer, filme de 2023 dirigido por Christopher Nolan, um cineasta superlativo, que nos fez correr aos cinemas para ver na tela grande títulos como Dunkirk e A Origem. Ele agora repete a dose, contando uma história épica!
        Sim, Oppenheimer é o cinemão que os marqueteiros anunciaram. Uma produção endinheirada e cuidadosa, realizada como um espetáculo audiovisual para ser apreciado nas minúcias, com um roteiro sólido, um elenco engajado e uma narrativa envolvente. Christopher Nolan nos entregou um filme primoroso e abordou o tema com inteligência. Concentrou-se em investigar um personagem complexo – ninguém menos do que o “pai da bomba atômica” – e nos transportou para dentro da sua mente afiada. No subtexto, também conseguiu percorrer um outro arco dramático notável: aquele descrito pela própria raça humana, que depois de maravilhar-se com seus lampejos nucleares, acordou transformada. Acordou se sentindo moderna, avançada, poderosa...
        O cinéfilo atento vai notar que Oppenheimer é, antes de tudo, um feito narrativo. O aparato tecnológico que o gestou fica em segundo plano. Ainda que a computação gráfica tenha garantido um acabamento impecável, o que vemos na tela poderia ter sido rodado há trinta ou quarenta anos, com o mesmo apuro visual. Entretanto, esse filme só pôde acontecer, porque os realizadores finalmente encontraram uma biografia consistente na qual se basear.
        O calhamaço de quase 800 páginas intitulado American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer, escrito por Martin J. Sherwin e Kai Bird, ganhou o Prêmio Pulitzer de biografia, mas antes, precisou de 25 anos para ser concluído! Demandou um fabuloso esforço de pesquisa e um trabalho sistematizado de muita paciência e objetividade. Sherwin assinou o contrato para escrever o livro em 1980. Ao longo dos anos, acumulou mais de 50 mil páginas de entrevistas, transcrições, documentos e dossiês do FBI, guardados em caixas espalhados pela casa e pelo escritório. Porém, não conseguiu escrever um único parágrafo.
        O trabalho só deslanchou quando seu amigo, Kai Bird, entrou no projeto em 2000. Os dois desenvolveram um método eficiente e produtivo: Bird se debruçava sobre a pesquisa e gerava um texto base. Sherwin o editava e reescrevia, numa rotina de vai-e-vem que consumiu quatro anos. Mas a linha narrativa, no entanto, estava definida por Sherwin desde o início, costurada em torno da audiência na Comissão de Energia Atômica, que retirou a autorização de Oppenheimer para continuar à frente do projeto nuclear americano.
        Quando o livro foi concluído, em 2005, o grande desafio foi dar um título à obra. Os autores se apressaram em sugerir “Oppie”, mas os editores preferiram remontar a Prometeu, o personagem da mitologia grega que roubou o fogo das mãos dos deuses e o entregou à humanidade. A analogia com a façanha atômica de Oppenheimer vai além do mero trocadilho pirotécnico. O que fez o titã Prometeu – cujo nome significa aquele que antevê – foi atender a um pedido de seu irmão, responsável por criar os animais e dotá-los de atributos. Seu irmão, que se chamava Epimeteu – aquele que só vê tardiamente – era obtuso e gastou todos os atributos. Quando chegou a vez de criar o homem, não havia nada de especial para caracterizá-lo. Prometeu então se compadeceu e roubou o fogo, entregando à humanidade um conhecimento valioso, que a dotou de poderes para modificar a natureza. Furioso, Zeus condenou Prometeu à danação eterna, o acorrentando no topo de uma montanha para que tivesse o fígado devorado cotidianamente por uma águia.
        Um atributo inquestionável de J. Robert Oppenheimer era a sua capacidade de antever o futuro. À frente do projeto Manhattan, encastelado em um laboratório ultrassecreto plantado no deserto do Novo México junto com outras 130 mil pessoas, ele demonstrou isso em termos gerenciais, científicos e históricos. Num intervalo de tempo irrisório ele conseguiu compreender a possibilidade de criar um artefato nuclear e materializá-lo em uma poderosa arma em favor do seu país, antes que o inimigo pudesse fazê-lo. Continuou enxergando à frente e se posicionou contra a corrida armamentista que daria a tônica da Guerra Fria, o que lhe valeu a fúria dos poderosos de plantão.
        Tudo ao redor de J. Robert Oppenheimer era sacudido por dilemas morais e desdobramentos éticos. Usar o poder do conhecimento para produzir uma... bomba! Explodir essa bomba! Escolher o alvo! Guardar o conhecimento a sete chaves... Carismático, com perfil de liderança e talento para o dramático, Oppie
 foi o primeiro ser humano às voltas com as questões que colocaram a humanidade em um novo patamar tecnológico. Que inaugurou uma nova era de modernidade.
        Dito tudo isso, podemos voltar agora ao filme Oppenheimer, que Chirstopher Nolan realizou como uma imersão na mente do protagonista. Sua narrativa não linear misturou cenas coloridas, onde J. Robert Oppenheimer (Cillian Murphy) é retratado em primeira pessoa, com outras cenas em preto-e-branco, apresentadas pelo olhar de Lewis Strauss (Robert Downey Jr.) que é o antagonista. Vemos Oppie na juventude, ingressando no universo acadêmico da nova física e depois em seu relacionamento conturbado com a esposa, Katherine (Emily Blunt). O vemos sendo recrutado pelo General Leslie Groves (Matt Damon) para comandar o projeto Manhattan, carregando nas costas o peso de ser o destruidor de mundos e se metendo num debate político que lhe custou a reputação.
        A fluência de Nolan na linguagem cinematográfica é notável. Ele não deixa que o espectador se perca nas idas e vindas pelo tempo dramático – usa aqui o mesmo truque que empregou no seu filme Amnésia, onde as cenas coloridas e em preto-e-branco vão se completando como um quebra-cabeça. Seu roteiro final, no entanto, foi sendo escrito durante as filmagens, graças à intervenção dos próprios atores, estimulados pelo diretor a trazer acréscimos de casa, a partir da leitura da biografia de Oppenheimer e de outras pesquisas adicionais.
        O elenco afiado que Nolan escalou, colaborou de forma notável, mas sua arma secreta foi Cillian Murphy, que entregou uma atuação magnética e impecável. Os autores da biografia, Martin J. Sherwin e Kai Bird, tiveram a oportunidade de vê-lo em ação nos sets de filmagem e ficaram empolgados. Conta-se que Sherwin – que acabou morrendo de câncer antes que o filme fosse lançado – ao ser apresentado a um Cillian Murphy devidamente caracterizado, teria exclamado de imediato: – Dr. Oppenheimer! Esperei por décadas para conhece-lo!
        Nós, os cinéfilos, também tivemos que aguardar, mas agora, temos um filme com status de cinemão ao nosso inteiro dispor. Vamos aproveitar e reaproveitar!

Resenha crítica do filme Oppenheimer

Ano de produção: 2023
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Cillian Murphy, Emily Blunt, Matt Damon, Robert Downey Jr., Florence Pugh, Josh Hartnett, Casey Affleck, Rami Malek, Kenneth Branagh, Benny Safdie, Jason Clarke, Dylan Arnold, Gustaf Skarsgård, David Krumholtz, Matthew Modine, Tom Conti, David Dastmalchian, Michael Angarano, Jack Quaid, Josh Peck, Olivia Thirlby, Dane DeHaan, Danny Deferrari, Alden Ehrenreich, Jefferson Hall, James D'Arcy, Tony Goldwyn, Devon Bostick, Alex Wolff, Scott Grimes, Josh Zuckerman, Matthias Schweighöfer, Christopher Denham, David Rysdahl, Guy Burnet, Louise Lombard, Harrison Gilbertson, Emma Dumont, Trond Fausa Aurvåg, Olli Haaskivi, Gary Oldman, Macon Blair e Máté Haumann

Comentários

  1. Infelizmente eu ainda não vi este filme. Andei lendo pedaços da biografia de Oppenheimer aqui e ali. Inclusive ouvi uma breve entrevista dele. De início, quando perguntado pelo entrevistador, se olhando para trás ele achava que a bomba fosse realmente necessária, depois de falar algumas coisas, ele com uma expressão meio triste e com ar desamparado, diz que não tem uma resposta para tal pergunta. E fumando um cachimbo e cuspindo, como quem já tem a saúde fragilizada pelo consumo incontrolado do tabaco. Simpatizei muito com ele e senti.pena. Oppenheimer parecia torturado moralmente pelos eu "grande" feito. Ótima crônica.Sei que vou ver o filme quando todos já terão assistido na telona das salas de exibição. Obrigada por crônica tão enriquecefora.


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    Respostas
    1. Agradeço o seu feedback positivo em relação à minha crônica. Também vi em Oppenheimer um personagem intrigante e fiquei animado para pesquisar mais sobre ele. Já li e acompanhei documentários sobre o Projeto Manhattan, mas ainda não tinha atinado para essa perspectiva mais humana em torno das questões envolvendo a criação da bomba atômica.

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