Crítica | O Óleo de Lorenzo: George Miller, o mesmo diretor de Mad Max, filmou um emocionante drama real. Acertou no tom, no ritmo e na temática

Cena do filme O Óleo de Lorenzo
O Óleo de Lorenzo: direção de George Miller

QUE SE DANEM OS ESPECIALISTAS!

Ah, os tecnocratas! Estão sempre tentando nos convencer de que sabem o que é melhor para a maioria – nossos interesses individuais, nossas inclinações e nossos objetivos que esperem! Por isso, quando vejo personagens seguindo na contramão dessa ditadura, vibro! Foi com esse sorriso no canto dos lábios que assisti a O Óleo de Lorenzo, filme de 1992 dirigido por George Miller. O cinéfilo atento certamente se lembra desse longa como um drama emocionante, comovente e arrebatador, que fala de perseverança e nos surpreende com uma mensagem de esperança. Talvez não o associe de imediato com a abordagem libertária que empreguei nesse início de crônica, mas se lembrar da sinopse, talvez concorde com o meu ponto:

Pais se intrometendo no mundo dos especialistas

        O Óleo de Lorenzo conta a história do casal Odone, Augusto (Nick Nolte) e Michaela (Susan Sarandon), pais de Lorenzo (Zack O'Malley Greenburg). A família deixa as Ilhas Comores, na África Austral, e se muda para os Estados Unidos. O garoto começa a apresentar problemas neurológicos e é diagnosticado com uma doença hereditária chamada adrenoleucodistrofia (ALD). Os médicos são taxativos: a expectativa de vida de Lorenzo é de apenas mais dois anos!

Cena do filme O Óleo de Lorenzo
O Óleo de Lorenzo: George Miller vai além dos filmes de ação

        Acontece que Augusto e Michaela não se darão por vencidos. Ele é um economista do Banco Mundial e ela uma mãe decidia a não se deixar remoer pela culpa dos genes que carrega; moverão montanha – e cordilheiras! – para encontrar uma cura. Sem formação médica, o casal inicia uma pesquisa amadora e acumula conhecimento suficiente para desenvolver um tratamento à base de óleos de cozinha comuns, que interromperá o progresso da doença e salvará a vida do filho.

Destilando o óleo curativo

        O casal Odone se infiltra no mundo dos especialistas e ao longo dos anos conquista legitimidade para discutir com eles no mesmo nível intelectual. Sacrificam a vida pessoal, sucumbem ao estresse e comprometem o próprio casamento, mas jamais desistem. Tropeçam com a burocracia estatal, com a arrogância corporativista, com orgulho dos especialistas... Promovem seminários, patrocinam congressos e desafiam autoridades acadêmicas, mas conseguem que a medicina enfim consiga destilar o tal óleo, que por ser verdadeiramente curativo, receberá o nome do seu filho amado.

Cena do filme O Óleo de Lorenzo
O Óleo de Lorenzo: questionando os especialistas e superando os limites

O mesmo diretor de Mad Max

        A história que acompanhamos em O Óleo de Lorenzo é real. O diretor George Miller leu sobre a incrível epopeia do casal Odone em uma matéria do London Times e conseguiu convencê-los a transformá-la em filme; por certo estabeleceram entre si uma forte identificação, já que o próprio diretor havia estudado medicina – abandonou os estudos poucas semanas antes da formatura, para abraçar o cinema de vez. Mas observe, caro cinéfilo, que estamos falando aqui do diretor George Miller, aquele mesmo que fez sucesso com franquia Mad Max e se tornou um especialista nos filmes de ação!

A narrativa ágil dos filmes de ação

        Na posse desta importante informação, podemos compreender de onde vem a força narrativa de O Óleo de Lorenzo. O filme assume uma natureza cinética e segue num ritmo visual intenso e furioso, até chegar em um final triunfante. Os protagonistas são heroicos, ainda que retratados sem idealizações – são humanos e algumas vezes desagradáveis; põem-se em ação de forma obsessiva, na medida em que a doença do filho se agrava e impõe um sentido de urgência. Por certo é um filme do diretor de Mad Max, mas em vez de tiros e pancadarias, o que vemos é uma enxurrada de conhecimentos da medicina que precisamos aprender junto com os Odone; como eles, também nos atrevemos a nos tornar especialistas.

Cena do filme O Óleo de Lorenzo
O Óleo de Lorenzo: cenas emocionantes sustentadas por uma trilha sonora marcante

Fotografia primorosa e trilha sonora marcante

        A câmera de Miller é sempre ágil e nervosa e a fotografia assinada por John Seale – que ganhou o óscar com O Paciente Inglês – é expressiva e comovente. Para manter o filme em um constante ápice emocional, o diretor não hesita em lançar mão de uma trilha sonora com forte apelo dramático, que reúne diversas peças clássicas, entre elas Adagio for Strings, de Samuel Barber, que é de cortar o coração!

Confrontando os especialistas

        Nick Nolte e Susan Sarandon encontraram o tom certo para interpretar o casal Odone, transmitindo credibilidade e verossimilhança. Por outro lado, um tema tão complexo e com grande alcance emocional não poderia ser apresentado sem gerar polêmicas: as autoridades médicas continuaram as pesquisas com o tal Óleo de Lorenzo e, apesar dos bons resultados alcançados, não comprovaram claramente sua eficácia. O fato é que o verdadeiro Lorenzo Odone viveu até os trinta anos – duas décadas a mais do que previram os especialistas. Que bom que seus pais não aceitaram cegamente o que eles davam como certo e se dispuseram a seguir na direção contrária: aprenderam o suficiente para confrontá-los!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção criativa de George Miller, a fotografia impecável a trilha sonora e a atuação de um elenco competente.

O que surpreende: o diretor encontrou a alma da história e conseguiu filmar esse drama, que poderia derrapar para o sensacionlismo, com a agilidade de um thriller.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme O Óleo de Lorenzo

Título original: Lorenzo's Oil
Título em Portugal: Acto de Amor
Ano de produção: 1992
Direção: George Miller
Roteiro: George Miller e Nick Enright

Elenco:
  • Nick Nolte
  • Susan Sarandon
  • Zack O'Malley Greenburg
  • Peter Ustinov
  • Kathleen Wilhoite
  • Gerry Bamman
  • Margo Martindale
  • James Rebhorn
  • Ann Hearn
  • Maduka Steady
  • Don Suddaby
  • Rocco Sisto
  • Carmen Piccini
  • Mary Wakio
  • Colin Ward
  • La Tanya Richardson
  • Jennifer Dundas
  • William Cameron
  • Peter Mackenzie
  • Laura Linney
  • Elizabeth Daily
  • Eliot Brinton

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