Crítica | Cidade das Mulheres: Federico Fellini tocou num vespeiro e provocou as feministas e fez um de seus filmes mais belos e envolventes. É cinema em estado puro!

Cena do filme Cidade das Mulheres
Cidade das Mulheres: direção de Federico Fellini

AH, O FASCÍNIO PELO SER FEMININO!

Quando Cidade das Mulheres, filme de 1980 dirigido por Federico Fellini entrou em exibição, este cinéfilo, ávido por conhecer mais sobre as mulheres, correu para o cinema. Minha expectativa era estudar um pouco mais de "mulherismo", tema sobre o qual aquele diretor sexagenário devia ter um PHD. Que nada! Em vez de realizar uma imersão no assunto mais importante naquela altura da minha juventude, terminei entretido por um cinema mágico, onírico, belo e empanturrado de simbologias. Saí com a certeza de que aquela era a cidade de Fellini, habitada apenas pelas personalidades femininas que vagavam pela experiência de vida do diretor; uma ousadia autobiográfica planificada em um dos seus filmes mais belos e envolventes. Vamos recordar a sinopse:

Um jornada onírica, como tantas outras de Fellini

        Cidade das Mulheres conta como Marcello Snàporaz (Marcello Mastroianni), durante uma viagem de trem, encanta-se com uma passageira misteriosa que desembarca em uma estação qualquer. Ele a segue e chega num hotel, onde acontece um agitado congresso feminista. Cercado por ativistas enraivecidas, Snàporaz foge e consegue carona com um grupo de mulheres esquisitas, com as quais se desentende. Escapa novamente e vai parar no castelo do Doutor Katzone (Ettore Manni), um macho conquistador que venera sua extensa coleção de troféus.

Cena do filme Cidade das Mulheres
Cidade das Mulheres: Marcello Mastroianni é o alter ego de Fellini

        No quarto onde se hospeda, Snàporaz descobre uma passagem secreta que o leva a reencontrar as mulheres que passaram por sua vida, desde a infância. Acaba capturado pelas feministas e é submetido a um julgamento. Quase linchado, consegue escapar e finalmente encontra a mulher ideal. Sem receio de dar spoilers, lembro que ele termina no próprio trem, obviamente despertando de um sonho, em frente à esposa, Elena (Anna Prucnal).

Cutucando os movimentos feministas

        Nem preciso lembrar que à época do seu lançamento, Cidade das Mulheres enriçou os cabelinhos das feministas e provocou controvérsias entre os críticos especializados. Muitos reclamaram da mesmice personalista que impera em todos os filmes de Fellini; outros não enxergaram novidades narrativas – talvez indignados com as alfinetadas nos movimentos feministas, que priorizam a destruição da feminilidade em favor de um identitarismo coletivista. O fato é que o filme se materializa como uma colagem de sonhos e fantasias sexuais do diretor. Ao longo de duas horas e meia, somos submetidos a uma deslumbrante sequência de imagens, encadeadas com uma inegável habilidade cinematográfica.

Cena do filme Cidade das Mulheres
Cidade das Mulheres: colagem dos sonhos e fantasias do diretor

Veneração pelas mulheres

        Humor, fantasia, musicalidade, nostalgia... Fellini nos impõe sua visão estética de mundo, enquanto revisita temas que já vislumbramos em outros de seus títulos – Julieta dos Espíritos e Casanova, por exemplo. Dessa vez, no entanto, a mulheres se tornam um assunto mais agradável e prazeroso, tratado com certa jovialidade. Os discursos feministas, envernizados com camadas cosméticas de antropologia e sociologia, não passam de bobagem. O que nos salta é o fascínio e a veneração pelo ser feminino.

Cena do filme Cidade das Mulheres
Cidade das Mulheres: experiência audiovisual incomparável

Um tema que não se esgota

        Depois de assistir a Cidade das Mulheres, continuei sem entender o universo feminino; de nada me serviram as aulas teóricas ministradas por Fellini. Se aprendi alguma coisa, foi na prática! Cinco anos depois, em 1985, já estava casado; Ludy foi uma professora dedicada e compenetrada em exercitar a feminilidade. Quando nossa filha, Julia, nasceu em 1990, completei a pós-graduação. Hoje, sou um sexagenário com alguma bagagem em "mulherismo". Gosto de revisitar o filme de Fellini e descobrir as referências, simbologias e insinuações que o mestre espertamente espalhou pelos seus delírios oníricos, mas sempre me distraio com a mágica da sua arte cinematográfica.

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção criativa de Fellini, a concepção visual impecável, a trilha sonora envolvente e a atmosfera onírica que esperamos de um filme do mestre.

O que surpreende: Fellini não dá a mínima para a opinião das feministas nem para a grita dos politicamente corretos. Expõe-se com sinceridade.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Cidade das Mulheres

Título original: La Città Delle Donne
Ano de produção: 1980
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini e Bernardino Zapponi

  • Elenco:
  • Marcello Mastroianni
  • Anna Prucnal
  • Bernice Stegers
  • Donatella Damiani
  • Iole Silvani
  • Ettore Manni
  • Fiammetta Baralla
  • Hélène G. Calzarelli
  • Catherine Carrel
  • Marcello Di Falco
  • Silvana Fusacchia
  • Gabriella Giorgelli
  • Dominique Labourier
  • Stéphane Emilfork
  • Sylvie Meyer
  • Alessandra Panelli
  • Marina Confalone
  • Marina Hedman

Leia também as crônicas sobre outros filmes dirigidos por Federico Fellini:

Comentários

  1. Quando Feline expõe universo feminino "dele", ele ensina muitos detalhes mas também fica devendo outros. Por isso que você, Fábio, experienciou/situações e pessoas diferentes.❤❤❤

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