Crítica | Casanova de Fellini: o grande amante é apequenado pelo diretor, num filme carregado nas tintas

Cena do filme Casanova de Fellini
Casanova de Fellini: um artista sem limites

O ESTEREÓTIPO DO AMANTE LATINO NA VERSÃO CARICATA DO DIRETOR

Quando assisti ao filme Casanova de Fellini, realizado por Federico Fellini em 1976, compreendi que o cinema não é um jovem de pouco mais de 120 anos. É um senhor experiente, que bebeu desde sempre nas fontes do teatro, da ópera, do circo... O diretor carregou nas tintas para nos entregar uma obra exagerada, caricata e extravagante. Não há preocupação com a verossimilhança. Há sim uma deliberada busca pelo irrealismo, com cenários inspirados na linguagem teatral e uma música expressiva – composta pelo grande Nino Rota – que soa desconectada das imagens construídas por Fellini. O personagem Casanova ao qual fui apresentado no filme não é aquele que conhecia. Era outro, grotesco, triste e perdedor.

Um personagem popular

        Se disse que “conhecia” o protagonista, foi apenas força de expressão. Jamais li A História da Minha Vida, o livro de memórias escrito por Giacomo Casanova e que serviu de base para o roteiro do filme Casanova de Fellini. Entretanto, sabia muito sobre o personagem, em razão do seu grande prestígio durante a década de 1970. Foram produzidos alguns filmes sobre ele, o que intensificou sua presença no imaginário popular. É claro que suas façanhas sexuais eram as mais festejadas, mas o aventureiro se notabilizou na Europa do século XVIII por ter introduzido a loteria na corte francesa, convivido com intelectuais como Voltaire e Rousseau e realizado uma espetacular fuga de uma prisão em Veneza.

Cena do filme Casanova de Fellini
Casanova de Fellini: o diretor detestava o protagonista

Um retrato desprovido de glamour

        O Casanova que Fellini fez questão de retratar não é aquele inebriado pela atmosfera iluminista. Não é o grande amante, nem o homem de sucesso ditado pela tradição, mas um sujeito desnorteado, passivo e patético, que vaga à mercê do destino e dos seus instintos sexuais. O diretor tinha uma clara aversão ao personagem e tratou de despachá-lo para um mundo subterrâneo e desprovido de glamour. Trabalhou no roteiro com seu colaborador de longa data, Bernardino Zapponi, com a intenção de fazer de Casanova de Fellini um filme na contramão do que todos esperavam.

Adaptando das memórias de Casanova

        Para conseguir financiamento, lançou mão de um subterfúgio: pediu a Gore Vidal – o grande romancista que alguns anos depois escreveria o roteiro de Calígula, dirigido por Tinto Brass – que escrevesse um roteiro para Casanova, o qual jamais usou. O roteiro final acabou sendo o escrito por Zapponi e Fellini. Eles selecionaram vários episódios narrados no livro de memórias de Giacomo Casanova; desprezaram a linha de tempo e as conexões possíveis entre eles. Também inventaram algumas sequências, em coerência com o que é narrado no livro. Mas fizeram questão de manter o tom burlesco!

Cena do filme Casanova de Fellini
Casanova de Fellini: um amante patético e desprovido de glamour

Um ótimo trabalho de ator

        Curiosamente, para contar as aventuras do escritor italiano, que construiu a reputação do amante latino por excelência, Fellini escalou um... anglo-saxão! No filme Casanova de Fellini, Donald Sutherland está irreconhecível. O ator foi guiado com mãos de ferro pelo diretor, que colocou nele um queixo artificial, um nariz protético e raspou o couro cabeludo em cinco centímetros para aumentar a testa. Donald Sutherland entregou-se com profissionalismo à tarefa de servir de marionete para que o diretor extravasasse sua ojeriza pelo personagem. Saiu-se bem. Entregou uma atuação comedida, diante dos excessos que o cercaram ao longo de todo o filme. Da mesma forma, as personagens femininas receberam um tratamento... especial. Foram maquiadas e vestidas para parecerem mais feias e desprovidas de charme ou sex appeal – o exato oposto do que o público então associava ao universo erótico de Giacomo Casanova.

Um filme para a posteridade

        Confinado nos estúdios da Cinecittá, em Roma, Casanova de Fellini é cinema em estado puro. Não deixa de ser inovador, ousado, autoral, onírico e... claustrofóbico. Não é de se admirar que tenha alcançado baixo desempenho nas bilheterias e desagradado a muitos críticos. Ainda assim, tornou-se uma obra de referência para quem quer entender os caminhos da sétima arte. Considero irônico que os outros filmes que levaram Casanova no título – mais sintonizados com as expectativas eróticas do público – mergulharam no ostracismo. Casanova de Fellini, no entanto, continua por aí, para ser admirado como uma obra cinematográfica consistente.

Cena do filme Casanova de Fellini
Donald Sutherland: um ator anglo saxão para representar um amante latino

Perdeu para Rocky

        Ah, e uma curiosidade: o filme esteve presente no Óscar de 1977. Concorreu à estatueta de melhor roteiro adaptado e ainda ganhou a de melhor figurino. Quem se saiu melhor naquele ano foi Rocky, o Lutador, dirigido por John G. Avildsen, que levou as estatuetas de melhor filme e melhor diretor.

Veredito da crônica de cinema

★★★★★(5 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção criativa de Fellini, o roteiro bem costurado, o excelente trabalho de Donald Sutherland e a concepção visual primorosa.

O que surpreende: o diretor não se preocupa com os resultados nas bilheterias, mas ousa fazer cinema para a posteridade.

Imperdível. É cinema em estado puro.

Ficha técnica do filme Casanova de Fellini

Ano de produção: 1976
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini e Bernardino Zapponi

  • Elenco:
  • Donald Sutherland
  • Tina Aumont
  • Cicely Browne
  • Carmen Scarpitta
  • Clara Algranti
  • Daniela Gatti
  • Margareth Clémenti
  • Mario Cencelli
  • Olimpia Carlisi
  • Silvana Fusacchia
  • Leda Lojodice
  • Sandra Elaine Allen
  • Clarissa Mary Roll
  • Alessandra Belloni
  • Dudley Sutton

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