Crítica | Nosferatu (2024): vale a pena assistir ao remake de Robert Eggers?

Nosferatu: direção de Robert Eggers
MITOS, LENDAS E INSANIDADE
Numa escala medida em arrepios na espinha, o nome Nosferatu provoca mais medo do que o nome Drácula, embora ambos se refiram ao mesmo personagem. O primeiro, mais horripilante, nasceu em um filme, porque os realizadores não detinham os direitos autorais do romance que o inspirou. O segundo nasceu nas páginas da literatura gótica, mas se cristalizou no imaginário do público por meio da estampa aristocrática de Béla Lugosi – menos assustadora e mais sedutora. Quem veio para escancarar essa diferença foi Robert Eggers, o diretor americano que escreveu e dirigiu Nosferatu. Esse remake de 2024 não deixa dúvidas sobre quem mete mais medo!Os antecedentes literários
Tudo começou com o escritor irlandês Bram Stoker, que escreveu em 1897 o livro intitulado Drácula. Trata-se de um romance epistolar, onde a narrativa é construída por meio das cartas trocadas entre os personagens. Está tudo lá: o conde que habita o castelo na Transilvânia, o jovem Harker que escapa de suas garras, a ida do vampiro para a cidade de Whitby na Inglaterra e o embate onde Drácula é derrotado pelo decidido caçador de vampiros Abraham Van Helsing.
Nosferatu: Robert Eggers retrata a mentalidade do início do Século XIX
O personagem no cinema
Genuíno representante do expressionismo alemão, Nosferatu, o Vampiro, dirigido em 1922 por Friedrich Wilhelm Murnau, adquiriu um notável valor histórico; criou um padrão estético que influenciou o gênero terror. A adaptação foi escrita por Henrick Gallen e trouxe algumas modificações: incluiu a ideia de que a peste bubônica chegou à Inglaterra junto com Drácula e os ratos que o acompanham e eliminou o personagem do caçador de vampiros Van Helsing. Um ótimo remake foi realizado em 1979 pelo diretor alemão Werner Herzog, intitulado Nosferatu - O Vampiro da Noite. Apesar do título, o personagem volta a se chamar Drácula, já que a obra de Stoker caíra em domínio público.Um espetáculo audiovisual
Robert Eggers é um cineasta com ótimos antecedentes; seus filmes anteriores, A Bruxa, O Farol e O Homem do Norte, abordam temas como o medo, o horror e a insanidade, valendo-se de narrativas fluentes e cinematográficas por excelência. Este seu Nosferatu é uma releitura gótica grandiloquente, que o coloca entre os grandes diretores do gênero. O vampiro que ele nos apresenta, agora chamado de Conde Orlok, é uma criatura assustadora; um morto vivo de aparência repugnante que se esgueira nas sombras e mantém um vínculo psicológico com uma mulher atormentada, por quem nutre uma paixão carnal. A concepção visual apurada, o design de som, os figurinos, os cenários, a trilha sonora, a iluminação... Tudo tem função narrativa e conspira para contar a história, provocando arrepios em série na espinha do espectador.
Nosferatu: o centro dramático está na esposa de Tomas Hutter
O mal tenta vencer pelo medo
Na Alemanha de 1838, Tomas Hutter (Nicholas Hoult) é um agente imobiliário enviado por seu empregador para a Transilvânia, onde terá que fechar a venda de uma propriedade para um tal de Conde Orlok (Bill Skarsgård). Ele ignora os alertas de sua esposa, Ellen (Lily-Rose Depp), que pressente os horrores que virão, já que estabeleceu fortes conexões emocionais com o mundo espiritual. Ela também alimenta um desejo sexual reprimido, que termina por criar uma ligação macabra com o hediondo vampiro.
Nosferatu: um impressionante trabalho de atores
Tomas chega ao castelo de Orlok, mas é feito prisioneiro e arde em pesadelos. Orlok vai para a Alemanha, ao encontro do seu objeto de desejo. Tomas escapa do cativeiro e tenta salvar sua mulher, com a ajuda do Professor Albin Eberhart von Franz (Willem Dafoe), um filósofo especialista em ocultismo, mas irão se deparar com as atrocidades que o malévolo vampiro terá coragem de perpetrar.
Misticismo e realidade misturados
A história do Conde Drácula imiscuiu-se na cultura pop e gerou uma iconografia facilmente reconhecida em incontáveis clichês cinematográficos. Robert Eggers desviou-se deles e buscou homenagear seus ídolos expressionistas. Seu Nosferatu é uma figura nojenta, que veste trajes da aristocracia romena do século XIX e transita por cenários góticos e casas típicas alemãs. Partindo de uma minuciosa pesquisa, o diretor abandonou o fantasioso e se inclinou para o realismo e os corredores da insanidade, trazendo os tenebrosos acontecimentos para o terreno das possibilidades. É assustador!
Nosferatu: Rober Eggers abandonou a iconografia tradicional e criou um vampiro asqueroso
A natureza do medo
Este é o trabalho mais comercial de Robert Eggers, para o qual reuniu sua equipe de costume: o diretor de fotografia Jarin Blaschke, o diretor de arte Craig Lathrop, a montadora Louise Ford e a figurinista Linda Muir. Todos mergulharam fundo no folclore romeno e suas histórias de vampiros que vagam pela região da Transilvânia. Eggers também recrutou um elenco competente, com atores tarimbados, que souberam caracterizar seus personagens com suas mentalidades do início século XIX e extraíram toda a dramaticidade das linhas de diálogo certeiras. E o diretor foi além, encontrou a fonte dos nossos medos: ele não está nas lendas e crendices que sobrevivem e se renovam ao longo das gerações; está na face da insanidade, que de repente nos encara e desnorteia; nos faz acreditar que o místico e o real são feitos da mesma matéria. É assustador!Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura de Robert Egger, o roteiro bem escrito, o excelente trabalho de atores, a trilha sonora envolvente e a concepção visual impecável.
O que surpreende: o diretor mergulha na mentalidade do século XIX e investiga o horror que se confunde entre o místico e a insanidade.
Imperdível. É cinema de alta qualidade.
Ficha técnica do filme Nosferatu
Ano de produção: 2024Direção: Robert Eggers
Roteiro: Robert Eggers
Elenco:
Nicholas Hoult
Bill Skarsgård
Aaron Taylor-Johnson
Emma Corrin
Willem Dafoe
Lily-Rose Depp
Arthur Holmwood
Ralph Ineson
Simon McBurney
Adéla Hesová
Ella Bernstein
Milena Konstantinova
Meredith Diggins
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