Crítica | Bingo: O Rei Das Manhãs: Daniel Rezende conta a história real do palhaço Bozo e realiza um dos melhores filmes brasileiros
Bingo: O Rei das Manhãs: filme dirigido por Daniel Rezende

Bingo: O Rei das Manhãs: Daniel Rezende mostra o predador que entretinha nossas crianças

Bingo: O Rei das Manhãs: um protagonista tratado em profundidade

Bingo: O Rei das Manhãs: Vladimir Bricht em excelente atuação
Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Luiz Bolognesi
UMA DAS MELHORES REALIZAÇÕES DO CINEMA BRASILEIRO!
No Brasil, temos a felicidade de ver nascer alguns filmes de alta qualidade técnica. Tornam-se produtos comerciais competitivos, graças ao talento e à criatividade de realizadores imersos no caldo profissional da indústria do cinema. Bingo: O Rei das Manhãs, dirigido em 2017 por Daniel Rezende, é um deles. Trata-se da cinebiografia de Arlindo Barreto, o ator oculto sob a fantasia do palhaço Bozo, que marcou a cultura pop no Brasil dos anos 1980.
Passando dos limites morais
O filme resgata a surpreendente façanha desse lobo em pele de cordeiro, que entrava cotidianamente nas casas das nossas famílias pela TV e se apoderava dos corações e mentes das... crianças! Enquanto travava uma guerra imprudente pelos maiores índices de audiência, o palhaço insuspeito ultrapassava todos os limites morais que a sociedade tentava impor. Causou uma verdadeira revolução nos costumes.

Bingo: O Rei das Manhãs: Daniel Rezende mostra o predador que entretinha nossas crianças
Nomes trocados sem confundir o espectador
Para contar essa história, os realizadores de Bingo: O Rei das Manhãs sabiamente mantiveram os pés firmes na arte da dramatização. Cravaram as lentes no protagonista e o acompanharam de perto ao longo da sua jornada tresloucada. Para evitar encrencas com processos, espertamente trocaram todos os nomes dos personagens e das emissoras de TV envolvidas. Arlindo Barreto virou Augusto Mendes, a Rede Globo virou Rede Mundial, o SBT virou TVP, o palhaço Bozo virou Bingo... Nada disso causou confusão no roteiro, nem impediu que nos entregassem um filme criativo, envolvente e emocionante.O sucesso subindo à cabeça
Antes de seguir, vamos conferir a sinopse de Bingo: O Rei das Manhãs: Augusto Mendes (Vladimir Brichta) é um ator obstinado, em busca de sucesso. Desprezado pela TV Mundial, acaba na fila de testes para incorporar o tal palhaço americano, cuja franquia foi assumida no Brasil pela TVP. Descobre-se talhado para o papel e agarra a oportunidade com unhas e dentes. Envolve-se emocionalmente com Lúcia (Leandra Leal), a produtora do programa. E faz amizade com Vasconcelos (Augusto Madeira), o operador de câmera que o conduz pelo submundo dos bastidores da televisão. Aos poucos, passa a subverter os valores criados para o personagem original e impõe uma nova forma de fazer programas para crianças. O sucesso, é claro, sobe à cabeça do ator anônimo. Mas ele haverá de se dar conta de que, sem a fantasia do palhaço Bingo, é um reles zé-ninguém. Sua trajetória balística de encontro às drogas e ao alcoolismo rende momentos de tensão e fortes emoções.
Bingo: O Rei das Manhãs: um protagonista tratado em profundidade
Um roteirista experiente e talentoso
Além das ótimas atuações de Vladimir Brichta e Leandra Leal, o que se destaca no filme é o roteiro do experiente Luiz Bolognesi – ele já roteirizou filmes como Bicho de Sete Cabeças e Ellis. A direção é do estreante Daniel Rezende, mas referir-se a ele como estreante é uma grande injustiça! Bingo: O Rei das Manhãs é seu primeiro longa, mas como montador já trabalhou em títulos como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta, Tropa de Elite, Ensaio Sobre a Cegueira, A Árvore da Vida, Robocop... Esbanja segurança e criatividade!Façanhas técnicas e narrativas
O ponto alto da intervenção de Daniel Rezende como diretor está na realização de um vistoso plano-sequência, que marca a queda do protagonista até o fundo do poço e seu posterior encontro com a própria consciência. Mais do que um feito técnico, é um feito narrativo. Foi inserido com pertinência no fluxo da história e trouxe um efeito dramático intenso e verossímil – não quero me aprofundar aqui, para evitar spoilers.
Bingo: O Rei das Manhãs: Vladimir Bricht em excelente atuação
Entre os melhores filmes brasileiros
A tecnologia digital barateou os custos de produção e permitiu uma expansão da indústria do cinema. Países que jamais ousavam rivalizar com os grandes centros de produção, hoje encontram plateias ávidas por novidades nas plataformas de streaming. Zapear por elas é como navegar em águas internacionais, sempre sujeitas a tempestades e ao tráfego intenso. Fazer cinema, todavia, pode parecer uma aventura, mas não é para aventureiros; vez ou outra, corremos o risco de embarcar em alguma canoa furada. Para nossa sorte, Bingo: O Rei das Manhãs pode ser listado entre as melhores produções brasileiras já realizadas. Elevou o nível do cinema brasileiro e merece ser visto e revisto com atenção aos detalhes. Ah! E não é um filme para crianças!
Veredito da crônica de cinema
★★★★☆(4 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura de Daniel Rezende, o roteiro preciso de Luiz Bolognesei, a o cuidado com a produção e a narrativa ágil e envolvente.
O que surpreende: o filme não se desvia por clichês e apelos populares e se concentra no incrível arco do seu protaganista.
Acima da média. É cinema de qualidade.
Ficha ténica do filme Bingo: O Rei das Manhãs
Ano de produção: 2017Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Luiz Bolognesi
Elenco:
- Vladimir Brichta
- Leandra Leal
- Emanuelle Araújo
- Tainá Müller
- Domingos Montagner
- Ana Lúcia Torre
- Augusto Madeira
- Pedro Bial
- Felipe Riquelme

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