Crítica | Estrada Sem Lei: Kevin Costner e Woody Harrelson estrelam esse ótimo drama policial, que conta a verdadeira história de Bonnie e Clyde

Cena do filme Estrada Sem Lei
Estrada Sem Lei: filme de  John Lee Hancock

BOAS HISTÓRIAS MERECEM NOVAS CHANCES

Dois delegados do primeiro time, com pinta de caubóis implacáveis, foram recrutados para dar conta do casal de assassinos Bonnie e Clyde: Paul Newman e Robert Redford. Sim, essas foram as primeiras escolhas para o elenco de Estrada Sem Lei, dirigido em 2019 por John Lee Hancock, mas como você já sabe, não vingaram. Começo a crônica com essa provocação para mostrar que esse filme tem antecedentes que merecem ser examinados. Tudo começou com o roteirista e produtor John Fusco, que alimentou por anos o desejo de contar a história real de como dois dos maiores policiais do século XX conseguiram pôr fim a um pesadelo que atormentou a América.

Projeto antigo, sob medida para grandes astros  

Depois de muita pesquisa – que começou na infância – John Fusco percebeu que o foco da história precisava ser retirado de Bonnie e Clyde e transferido para os delegados Frank Hammer e Maney Gault, esses sim, os verdadeiros protagonistas. E quem mais os retrataria no cinema com perfeição, além de Paul Newman e Robert Redford? Adupla de astros de Hollywood era perfeita para interpretar os protagonistas e Fusco tratou de envolvê-los no projeto; trabalhou por anos para concretizá-lo financeiramente, mas jamais obteve sucesso. O tempo passou e quando a Netflix aceitou o desafio, outros nomes de peso foram recrutados: Kevin Costner e Woody Harrelson!

Cena do filme Estrada Sem Lei
Estrada Sem Lei: Kevin Costner e Woody Harrelson sob direção de John Lee Hancock

A história real de uma caçada implacável

        Estrada Sem Lei é um filme fronteiriço: um policial com jeitão de western. Aliás, os Estados Unidos da década de 1930 viviam nessa fronteira, agarrados pelos tentáculos das instituições civilizatórias, enquanto se debatiam para reafirmar seus princípios de liberdades e garantias individuais. O longa conta como o casal de assassinos Bonnie e Clyde impôs o terror no Texas e foi responsável pelas mortes de vários policiais. A mídia é retratada enquanto dá destaque aos dois psicopatas e o público responde, desenvolvendo por eles uma admiração patológica.

Cena do filme Estrada Sem Lei
Estrada Sem Lei: a história real da matança promovida por Bonnie e Clyde

        Olhando para o horizonte eleitoral, a governadora decide contratar Frank Hammer (Kevin Costner), um ex-agente aposentado, para localizar, perseguir e eliminar os malfeitores. Hammer recruta seu ex-parceiro, Benjamin Maney Gault (Woody Harrelson) e ambos iniciam uma caçada implacável, armados com paciência e determinação.

Do lado certo da lei

        Não há glamour nem feitos heroicos na jornada dos dois policiais. Trata-se de uma missão triste e pesada. Ambos se reconhecem como carrascos, mas encontram forças na crença de que estão do lado certo do embate. Estrada Sem Lei é um filme preciso, com um roteiro bem costurado e atuações marcantes. Apresenta personagens fortes, que se expõe por meio de linhas de diálogo bem escritas.

Cena do filme Estrada Sem Lei
Estrada Sem Lei: enaltecendo os verdadeiros protagonistas

Um filme para as telonas dos cinemas

        O experiente diretor John Lee Hancock, que tem no currículo filmes como Um Sonho Possível e Fome de Poder, imprime um ritmo calculado e envolvente. Retirou o sentido de urgência da perseguição policial e impôs uma atmosfera intimista, que traz alguma profundidade para os personagens. Com seus planos abertos, o filme parece ter sido feito para as telas dos cinemas – e foi! Ao mesmo tempo, parece ter sido feito para o streaming – e foi! Tem fotografia com temperaturas digitais e flui numa linguagem ágil e moderna. Desenvoltura nos dois mundos!

Quem foram Bonnie e Clyde?

        Eram um casal de bandidos, tratados como celebridades. Admirados por multidões, a despeito de serem assassinos cruéis e sanguinários, tornaram-se pedras nos sapatos da polícia. Durante a depressão na década de 1930, o casal passou dois longos anos em pleno exercício da arte de matar, roubar e aumentar sua legião de fãs – hoje em dia, seriam imbatíveis nas redes sociais! A população, acossada pela crise econômica, os via como a encarnação de Robin Hood e seu bando: anti-heróis, que roubavam dos banqueiros e ricaços, como vingança por terem levado as terras, as casas, os pequenos comércios e as fontes de renda do mais pobres.

Cena do filme Estrada Sem Lei
Estrada Sem Lei: precisaram apelas para os Texas Rangers

Missão para os Texas Rangers

        O casal se fez de produto midiático, comprado pelos jornais que enfrentavam queda na circulação. Em vez de publicar apenas más notícias deprimentes, passaram a citar Bonnie e Clyde na mesma categoria dos heróis esportivos e das estrelas de cinema. Enquanto jogavam para a plateia de vários estados, Bonnie e Clyde debochavam do aparato policial. O FBI não conseguiu prendê-los, ainda que Edgar Hoover tenha destacado cerca de mil agentes para realizar bloqueios nas estradas – muitos foram mortos e a imagem da instituição derreteu. A única alternativa foi recorrer aos velhos métodos do passado, empregados por agentes da lei que povoaram o imaginário dos americanos: os Texas Rangers!

Onde foi parar todo aquele carisma?

        Os cinéfilos que trazem na memória o casal Warren Beatty e Faye Dunaway, estrelas de Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas, filme de 1967 dirigido por Arthur Penn, não reconhecerão os bandidos charmosos e carismáticos, que fizeram tanto sucesso na época. Em Estrada Sem Lei, os dois personagens são colocados em seu devido lugar: aparecem em poucas cenas e são tratados como os reles criminosos que de fato eram. O espectador demora para ver seus rostos, e quando consegue, percebe que não passam de gente sem importância. Dois quaisquer, nem magros nem gordos, nem feios nem bonitos.

Cena do filme Estrada Sem Lei
Estrada Sem Lei: uma caçada triste e pesada

Sem apologia ao crime 

        Em Estrada Sem Lei não há espaço para apologia ao crime. Tudo o que vemos é uma história bem contada, sobre como foi difícil estar na pele dos homens encarregados de confrontar a dupla de assassinos. Assisti e já revisitei, para conferir os detalhes. E você? Já assistiu? O que achou? Conte-me aqui nos comentários.

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura e criativa de John Lee Hancock, o roteiro preciso de John Fusco, as atuações de Kevin Costner e Woody Harrelson e a atmosfera de western.

O que surpreende: ao enaltecer os verdadeiros protagonistas, acabaram com o glamour dos criminosos e mostraram o fardo pesado sobre os que fazem cumprir a lei.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Resenha crítica do filme Estrada Sem Lei

Título original: The Highwaymen
Ano de produção: 2019
Direção: John Lee Hancock
Roteiro: John Fusco

Elenco:
Kevin Costner
Woody Harrelson
Kathy Bates
John Carroll Lynch
Kim Dickens
Thomas Mann
William Sadler

Comentários

  1. Assisti recentemente, é sem dúvida fiel ao ocorrido naquele período da recessão americana, e o elenco então é perfeito para os protagonistas do filme. E sua crítica é excelente.

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    1. Muito obrigado! Também gostei muito desse filme!

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  2. Assisti e gostei de "Estrada sem lei". Gosto de adaptações boas e honestas de fatos marcantes da historia mesmo quando existe um grau de liberdade no roteiro que sacrifique um pouco a verdade em nome da dramatização. Eu sempre achei magnifica a atuação de Kevin Costner como o legendário Eliot Ness em "Os Intocaveis " de Brian De Palma. Até soube que esse diretor pensou em fazer uma continuação desse filme usando os mesmos atores. Eu torci para para que isso acontecesse - mas o projeto acabou sendo abandonado. E hoje - sem a presença de Sean Connery - seria mesmo impossível ! Mas chamou-me a atenção o fato de Costner ter sido novamente chamado para encarnar um outro policial lendário da época e que também derrotou bandidos que eram tratados como ídolos por alguns (assim como Al Capone no outro filme). Acho que ele mandou muito bem. Na época da lei seca muitos bandidos tornaram-se notórios e deram grande trabalho as autoridades americanas. Havia uma iminente subversão de valores. O desespero gerado pela crise econômica de 1929 resultou numa terrível tragédia para os Estados Unidos - cujas consequências desastrosas se alastraram para o mundo inteiro incluindo o Brasil. Muitos jovens sem perspectiva começaram a encarar os bandidos como modelos do que eles queriam ser quando crescessem. Não foi só com Bonnye e Clyde. Outros bandidos ficaram tão famosos que como esses também serviram de inspiração- ainda em vida - a muitos filmes hollywoodianos. Figuras como John Dillinger, Baby Face Nelson e o já citado Al Capone entre tantos outros. Mas houve uma reação . Capone foi preso, Dillinger e o casal Bonnie e Cllyde foram mortos em emboscadas. Se não fosse assim os EUA iriam ser hoje uma nação totalmente fraca e arruinada. Ainda bem que não foi assim !

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    1. Concordo com você! A sociedade americana soube impor seus valores para enfrentar a onda de "bandidolatria" que ameaça se tornar preponderante. O cinema refletiu essa onda, mas também refletiu o combate a ela. Viva o cinema!

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