Crítica | Capitão Phillips: refém de piratas criminosos

Cena do filme Capitão Phillips
Capitão Phillips: filme dirigido por Paul Greeengrass

O EMBATE ENTRE DOIS CAPITÃES

Em março de 2009, o navio cargueiro com bandeira americana Maersk Alabama transportava contêineres com toneladas de alimentos, mas se envolveu em um episódio tenso, que colocou em risco a vida da tripulação. Os fatos foram narrados em detalhes no livro Dever de Capitão, escrito pelo próprio capitão Richard Phillips em parceria com o jornalista e escritor Stephan Talty. Repleto de passagens emocionantes, o livro descreve o embate pelo controle do navio, que culminou no sequestro do capitão e exigiu a intervenção da marinha americana. Uma história tão dramática e urgente tinha que virar filme! Nas telas, ganhou o título de Capitão Phillips, na produção de 2013 dirigida por Paul Greengrass. O diretor apontou sua câmera nervosa e enquadrou muita ação e suspense, num ritmo ágil e envolvente. É de tirar o fôlego!

Piratas de verdade

        Piratas eram criminosos abjetos, que cruzavam os mares movidos por uma ideia fixa: roubar e matar! Tapa-olhos, pernas-de-pau, chapéus de três pontas, papagaios no ombro... Piratas do cinema assumiram estereótipos romantizados; os do Caribe, então, representados pelo Jack Sparrow, de Johnny Deep, ganharam uma arrebatadora aura de simpatia. Já os nossos piratas do dia a dia se dizem inofensivos; no máximo desrespeitam os direitos autorais, desviam sinais da TV a cabo, copiam óculos, bolsas e tênis... Mas há p
iratas autênticos, como os que infestam a costa da Somália desde o começo dos anos 1990, quando o país faliu institucionalmente e foi tomado pelo tribalismo imposto por chefes militares. Nada têm de inofensivos. São criminosos abjetos, armados com fuzis AK-47 e atraídos pelo lucro fácil. Arranjam toda sorte de desculpas para justificar seus atos, mas não passam de bandidos torpes.

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Cena do filme Capitão Phillips
Capitão Phillips: Paul Greengrass impõe seu estilo documental

Dispostos a tudo

        O filme mostra quando o experiente capitão Phillips (Tom Hanks) assume o comando do cargueiro, com a missão de atravessar pelo Chifre da África, uma das regiões mais perigosas do mundo. Ele e sua tripulação se aferram aos procedimentos e protocolos técnicos, mas se vêm impotentes quando quatro bandidos somalis franzinos, mas fortemente armados, dominam o navio. São liderados pelo assustadoramente cínico Muse (Barkhad Abdi). A tripulação se esconde, enquanto o capitão Phillips se desdobra para evitar mortes, mas esbarra na tenacidade e determinação de Muse, disposto a tudo para conseguir dinheiro. A situação foge do controle e resulta no embate psicológico e físico entre piratas e tripulantes, onde a vida de todos entram em jogo.

O embate entre dois homens desiguais

        A adaptação para as telas ficou a cargo do roteirista Billy Ray – que também escreveu os roteiros de Jogos Vorazes e O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio. Conhecedor do assunto – seu pai fora da marinha mercante – de imediato percebeu qual seria o âmago da história: o conflito entre dois homens agarrados a valores opostos e munidos com aparatos culturais desiguais, cujos atos os levam até às últimas consequências. Um é capitão de um grande navio, um cidadão como tantos outros, que sofre a pressão da máquina econômica, mas está disposto a sacrificar a vida para salvar sua tripulação. O outro é um reles criminoso, que despreza todas as leis e está disposto a sacrificar a vida dos seus comandados para salvar a sua.

Cena do filme Capitão Phillips
Capitão Phillips: piratas somalis invadem o navio da marinha americana

A visão imposta pelo diretor

        O primeiro tratamento do roteiro mantinha a mesma estrutura do livro, onde a narrativa do capitão Phillips vem entrelaçada com os depoimentos de sua esposa, que acompanha os eventos por e-mail. Quando Paul Greengrass assumiu a direção do filme, Capitão Phillips ficou restrito à imensidão do mar e ao calor dos acontecimentos. A parte onde o capitão é feito refém num claustrofóbico bote salva-vidas também ganhou destaque e levou a história para um novo embate dramático, que ressaltou ainda mais as diferenças entre Phillips e Muse.

Um estilo inconfundível

        O diretor Paul Greengrass impôs seu estilo em filmes eletrizantes, como Domingo Sangrento, Vôo United 93, 22 de Julho e Relatos do Mundo, onde sua câmera trêmula faz de conta que está a serviço de um documentário jornalístico. Em Capitão Phillips, mais uma vez ele abusa da luz natural, da edição de som precisa e realista e da sucessão frenética de imagens editadas com precisão. É assim que consegue nos transportar para o centro da ação, ao mesmo tempo em que traz à tona diferentes camadas dos personagens colhidos em um evento complexo.

Cena do filme Capitão Phillips
Capitão Phillips: ótima atuação do estreante Barkhad Abdi

Dois atores em grande forma

        O elenco de Capitão Phillips também merece ser destacado. Tom Hanks, com sua costumeira competência, interpreta um homem comum, submetido a um verdadeiro teste de força, que se vê à beira de um colapso psicológico – a cena em que finalmente se acha na enfermaria, depois de ter descido ao inferno e conseguido sobreviver, é de arrepiar! Na outra ponta, o ator estreante Barkhad Abdi consegue ser assustador. Quem poderá derrotar um sujeito com olhar gélido, que não tem absolutamente nada a perder? A cena em que invade a ponte e avisa que, agora, ele é o capitão, também é de arrepiar!

Controvérsias ideológicas

        Para contracenar com o grande astro de Hollywood, Paul Greengrass acertou em escalar um time de atores não profissionais, todos somalis, alguns recrutados nos Estados Unidos e no Reino Unido. Isso trouxe autenticidade para o filme, mas não evitou as polêmicas sobre a precisão da história contada na tela. O filme Capitão Phillips não entra nos méritos políticos e passa longe das picuinhas ideológicas, ainda assim a forma como retrata as reações da tripulação – e do próprio Phillips – gerou controvérsias; militantes sem vergonha na cara jogaram pedras e torceram descaradamente pelos “coitados” piratas somalis em luta contra os “imperialistas ianques”.

Cena do filme Capitão Phillips
Capitão Phillips: Tom Hanks em mais uma grande atuação

Ficou sem o Oscar

        Por se tratar de um thriller recheado de ação e suspense, era previsível encontrar excessos de dramatização aqui e ali, o que não comprometeu a qualidade do filme. Capitão Phillips recebeu cinco indicações para o Óscar, inclusive as de melhor roteiro adaptado e melhor ator coadjuvante para Barkhad Abdi. Não ganhou nenhuma estatueta, mas elas não fizeram falta! Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção criativa de Paul Greengrass, o roteiro bem costurado, as atuações magnéticas de Tom Hanks e Barhad Abdi, a fotografia impecável e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: o estilo documental do diretor serviu de contraponto para as dramatizações do episódio real, gerando credibilidade e verossimilhança.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Capitão Phillips

Data de produção: 2013
Direção: Paul Greengrass
Roteiro: Billy Ray

Elenco:
  • Tom Hanks
  • Barkhad Abdi
  • Catherine Keener
  • Barkhad Abdirahman
  • Faysal Ahmed
  • Mahat M. Ali
  • Michael Chernus
  • David Warshofsky
  • Corey Johnson
  • Chris Mulkey
  • Yul Vazquez
  • Max Martini
  • Omar Berdouni
  • Mohamed Ali
  • Issak Farah Samatar

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