Face a Face: drama psicológico dirigido por Ingmar Bergman

Cena do filme Face a Face
Face a Face: filme de Ingmar Bergman

NEUROSES EM DOSES... TEATRAIS!

Outro dia, num dos grupos de cinema que costumo frequentar no Facebook, alguém alertou: logo mais, num canal da TV por assinatura, será exibido Face a Face, filme realizado em 1976 por Ingmar Bergman. Ludy e eu preparamos o balde de pipoca e nos acomodamos no sofá. Minha mulher, bem menos empolgada, pois já havia assistido ao filme no cinema. Para mim, seria a segunda tentativa. Na primeira, derrotado pelo sono, acordei nos créditos finais, colocando a culpa no meu cansaço – por obvio que não a colocaria nos ombros de um diretor tão respeitado e consagrado. Dessa vez fui até o final, sem me distrair, fruindo com avidez os quase 120 minutos de um cinema maduro, denso e... difícil.
        Face a Face não está entre os filmes mais consagrados de Ingmar Bergman. Aliás, juntamente com O Ovo da Serpente, foi realizado num período turbulento da vida do diretor, enquanto travava uma batalha judicial contra o estado sueco, que o acusava de sonegação fiscal. Originalmente concebido como uma minissérie para a televisão do seu país, foi transformado em filme e experimentou um certo sucesso comercial na época do lançamento. Recebeu indicações para o Óscar, mas acabou caindo no esquecimento. Foi colocado pelos críticos nas últimas posições entre os filmes de Bergman. Antes de entrar nos porquês, vamos examinar a sinopse:
        O filme conta a história da Doutora Jenny Isaksson (Liv Ullmann), uma psiquiatra que trabalha como supervisora temporária numa clínica. O marido (Sven Lindberg) está numa convenção em Chicago e a filha Anna (Helene Friberg) foi para um acampamento de verão. Como estão vendendo a casa onde moram, Jenny vai passar algumas semanas com os avós (Aino Taube e Gunnar Björnstrand), que a criaram depois que ela perdeu os pais ainda criança. Ao voltar para o seu quarto de infância, Jenny é assombrada por pesadelos e alucinações – a imagem assustadora de uma velha zarolha é a mais recorrente. Então, em uma festa, ela conhece Tomas Jacobi (Erland Josephson), um médico divorciado com quem tem um caso, mas seus encontros sexuais não são bem-sucedidos. Ela também passa por uma experiência traumática, quando sofre uma tentativa de estupro. Aos poucos, a sanidade de Jenny começa a desmoronar, até que numa manhã de domingo, no quarto onde passou a infância, tenta se matar, tomando um frasco inteiro de comprimidos para dormir. Agora, no limbo entre a vida e a morte, sonho e realidade se confundem em sua mente, num dolorido processo terapêutico que a fará revirar as neuroses e as certezas que guarda nas profundezas da alma.
        Quando realizou Face a Face, Ingmar Bergman esbanjava autoconfiança. Tinha no currículo obras de peso como A Flauta Mágica, O Sétimo SeloCenas de um Casamento , Sonata de Outono e Gritos e Sussurros. Os sucessos no teatro também eram expressivos e as finanças, iam muito bem, obrigado. O diretor, portanto, estava na confortável posição de poder realizar o que bem entendesse. Entretido com a linguagem da televisão, que lhe abria novos horizontes em termos de público, optou por pisar em um terreno confortável: seu filme emprega um pequeno elenco, mantém seus personagens confinados em espaços fechados e aborda temas psicológicos a partir de uma perspectiva investigativa. Como resultado, Face a Face ficou arrastado e apático. O que respiramos é a atmosfera gélida do temperamento nórdico, enquanto vemos o tema principal ser apresentado e reapresentado diversas vezes, de forma insistente e com poucas variações.
        Aqui, Bergman parece se contentar em repetir as fórmulas bem-sucedidas dos seus filmes anteriores. Seu virtuosismo no emprego dos simbolismos e dos recursos da linguagem teatral enriquecem a narrativa, mas quando chega o momento das cenas oníricas, ficamos com a impressão de que o diretor preferiu não descer até as camadas mais profundas. Durante as filmagens fez várias alterações nos sonhos da protagonista, movendo-os ao longo da trama e até mesmo alterando seu conteúdo. Isso enfraqueceu o roteiro e resultou em cenas demasiado expositivas, mais preocupadas em fornecer explicações ao espectador do que proporcionar uma experiência psicológica mais intensa.
        Mas nada disso reduz o impacto da história apresentada em Face a Face. Ao expor a intimidade da controlada e gélida Doutora Jenny, mostrando sua busca por resgatar emoções complexas, Bergman nos traz a oportunidade de lidar com sentimentos desconfortáveis, mas autênticos. Aqui, a performance de Liv Ullmann – musa onipresente em seus filmes – é ponto crucial. O diretor escreveu para ela um dos seus papéis mais completos, que ela desempenhou com gana teatral. Lagrimas e lamentos que descambam em risos incontroláveis, para depois culminar em mais choro e desespero, oferecem o típico espetáculo que esperamos receber das atrizes premiadas.
        Confesso que travei uma batalha feroz contra o sono e depois de ter acompanhado a longa, arrastada e dolorosa cena em que Jenny tenta se suicidar – o diretor poderia ter alcançado maior dramaticidade se tivesse sido mais objetivo – não esperava grandes surpresas narrativas. Mas eis que ele nos coloca para acompanhar a incrível cena em que a Doutora tem diante de si a filha ávida por explicações acerca da tentativa de suicídio. E mais ao final, outro momento mágico surge enquanto a protagonista observa seus avós idosos lidando com a iminência da morte. Ela parece, finalmente, compreender mais uma verdade sobre o amor e sobre os relacionamentos humanos.
        Bergman sempre foi um diretor com muito a dizer e mesmo em suas obras mais repetitivas esbanja talento e recursos narrativos. Fiquei feliz por ter vencido o sono e apreciado um cinema de alta qualidade, muito acima da média.

Resenha crítica do filme Face a Face

Ano de produção: 1976
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Liv Ullmann, Erland Josephson, Aino Taube, Gunnar Björnstrand, Kristina Adolphson, Marianne Aminoff, Gösta Ekman, Helene Friberg, Ulf Johanson, Sven Lindberg, Jan Erik Lindqvist, Birger Malmsten, Sif Ruud e Göran Stangertz

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