Crítica | Inimigo Íntimo: o último filme de Alan J. Pakula é um thriller envolvente, com dois protagonistas que duelam no final

Cena do filme Inimigo Íntimo
Inimigo Íntimo: direção de Alan J. Pakula

CINEMA SUFICIENTE PARA COMPORTAR DOIS PROTAGONISTAS

O diretor americano Alan J. Pakula realizou uma extensa filmografia, mas é lembrado de imediato por títulos como Todos os Homens do Presidente e A Escolha de Sofia, que alcançaram lugar de destaque entre os grandes filmes de Hollywood. Sua última obra foi Inimigo Íntimo, realizada em 1997, um ano antes da sua morte. Na época do seu lançamento, o filme veio cercado de polêmicas, alimentadas pela mídia em torno de uma suposta guerra de egos travada nos bastidores pelos astros Brad Pitt e Harrison Ford. Se ela aconteceu, evaporou-se em irrelevância; passou despercebida pelos cinéfilos que hoje visitam o filme para fruir seu cinema de qualidade e sua história muito bem contada.

A mídia se esbaldou com as fofocas

        Menciono aqui este embate entre os atores, porque talvez ele tenha contribuído para deixar essa história ainda mais densa e envolvente. Os críticos especializados costumam ressaltar as qualidades do roteiro original, criado por Kevin Jarre, filho do grande compositor Maurice Jarre, mas condenam as sucessivas intervenções de outros roteiristas, encarregados de moldar a história para acomodá-la às conveniências dos atores. Por fim, a mídia se esbaldou com as fofocas que retrataram o filme como um “quase desastre”; alimentou a fogueira promocional que aumentou a temperatura nas bilheterias. Antes de continuar, é mais prudente lembrar da sinopse de Inimigo Íntimo.

Cena do filme Inimigo Íntimo
Inimigo Íntimo: Allan J. Pakula precisou acomodar dois astros em seu filme

A sinopse: um policial hospedando um terrorista

        O filme conta a história do irlandês Francis McGuire (Brad Pitt), que aos 8 anos, em 1972, assiste ao assassinato do próprio pai, fuzilado ali mesmo, na sala de jantar, por um mascarado que invade sua casa. Tamanha violência só pode ter efeitos nefastos na personalidade do garoto. Ele cresce para se tornar um líder do IRA, dedicado a exterminar qualquer membro do exército britânico. Em 1992, quando seus comandados são mortos numa emboscada em Belfast, McGuire consegue fugir para Nova Iorque, onde chega com uma importante missão: conseguir um arsenal de misseis Stinger, que serão usados para abater os helicópteros britânicos. Escondido sob uma identidade falsa e com o apoio financeiro de um juiz simpatizante da sua causa, ele vai morar na casa do sargento da polícia Tom O'Meara (Harrison Ford).

Cena do filme Inimigo Íntimo
Inimigo Íntimo: um thriller ágil, com ótima trama

        Crente que o rapaz é um imigrante honesto, dedicado a construir uma nova vida na América, O'Meara acolhe McGuire na intimidade da sua família e estabelece com ele sólidos laços de confiança. O que desconhece é que, junto com Megan Doherty (Natascha McElhone) e Sean Phelan (Paul Ronan), também membros do IRA o guerrilheiro McGuire se envolverá em negociatas sujas com o traficante de armas Billy Burke (Treat Williams). E fará de tudo para embarcar seus mísseis para a Irlanda, mesmo que a violência desenfreada respingue sobre inocentes, como o honesto sargento da polícia de Nova Iorque, sua mulher e suas três filhas.

Oportunidade dramática para Brad Pitt

        Inimigo Íntimo é um thriller ágil, envolvente e repleto de cenas de ação, que consegue desenhar um retrato nítido, ainda que superficial, dos seus protagonistas. A ideia surgiu nos anos 1980, quando os produtores contrataram Kevin Jarre para desenvolver a história e escrever o roteiro. No início dos anos 1990, o roteiro foi apresentado para o astro em ascensão Brad Pitt, que ficou empolgado, mas ainda não tinha as credenciais dramáticas e a popularidade necessárias para segurar o filme sozinho – essas só vieram depois da sua atuação em Lendas da Paixão, Entrevista Com o Vampiro e Os 12 Macacos. A solução foi convocar Harrison Ford para o projeto.

Cena do filme Inimigo Íntimo
Inimigo Íntimo: Na época, Brad Pitt ainda não era reconhecido como ator dramático

Vieram os choques de ego

        Harrison Ford exigiu que seu papel fosse reescrito, para expandir a presença do seu personagem e deixá-lo com a mesma importância do protagonista original; para tal tarefa, foram recrutados os roteiristas David Aaron Cohen e Vincent Patrick. E tiveram muito trabalho! Com a diminuição do personagem Francis McGuire, houve o temor de que o alcance dramático da história se perdesse. Em meio aos choques de ego, o próprio Brad Pitt ameaçou abandonar o projeto e deixou entrever que a produção poderia terminar em desastre.

O problema de ter dois protagonistas

        A direção segura de Alan J. Pakula trouxe o equilíbrio necessário. Inimigo Íntimo virou um ótimo filme, fora dos padrões hollywoodianos, é verdade, mas repleto de qualidades. Os realizadores temiam que o público não assimilasse a presença de dois protagonistas, ambos apresentados como mocinhos, que se enfrentariam no embate final; o senso comum dizia que um deles tinha que ser o bandido. O diretor provou que isso não passava de bobagem: ressaltou o idealismo e o ímpeto jovial do guerrilheiro Francis McGuire, que segue destemido em defesa de uma causa que o espectador compreende em toda a sua extensão.

Cena do filme Inimigo Íntimo
Inimigo Íntimo: Harrison Ford emprestou suas credenciais para o filme

Uma história irlandesa

        De outro lado, Alan J. Pakula enalteceu a honestidade e a firmeza de caráter do sargento Tom O'Meara, cujo senso de retidão é exemplar. Por fim, deixou claro que as circunstâncias que colocaram os dois personagens frente a frente eram apenas isso: circunstâncias. O que determinaria a essência da história – não uma história americana, mas uma irlandesa! – seria a força de cada um dos indivíduos em conflito.

Duelo de roteiristas 

        O que deixou os críticos – e os próprios realizadores – mais assustados talvez tenha sido o fato de que o roteiro ainda não estava definido quando as filmagens começaram. O roteirista Terry George foi chamado para tentar dar mais ênfase ao personagem de Brad Pitt, enquanto o próprio Alan J. Pakula contratou o roteirista Robert Mark Kamen para reescrever algumas cenas no calor dos sets de filmagem.

Cena do filme Inimigo Íntimo
Inimigo Íntimo: o último filma da carreira de Allan J. Pakula

Sem espaço para aventureiros

        Na máquina comercial de Hollywood não parece haver espaço para improvisos, principalmente se os investidores estão de olho em problemas que possam enfraquecer a bilheteria. Porém, com um diretor competente, que assume o controle criativo e impõem sua visão da dramaturgia, o resultado é um filme preservado em sua integridade. Essa foi a sorte de Inimigo Íntimo, uma obra bem resolvida, que vale a pena ser revisitada.

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção competente de Alan J. Pakula, as atuações de Brad Pitt e Harrison Ford, a trama envolvente e a narrativa ágil.

O que surpreende: apesar das constantes intervenções no roteiro, inclusive durantes as filmagens, o diretor conseguir manter a consistência dramática por todo o filme.

Acima da média. É um thriller ágil e envolvente.

Ficha técnica do filme Inimigo Íntimo

Título original: The Devil's Own
Título em Portugal: Perigo Íntimo
Ano de produção: 1997
Direção: Alan J. Pakula
Roteiro: David Aaron Cohen, Vincent Patrick e Kevin Jarre

Elenco:
  • Harrison Ford
  • Brad Pitt
  • Margaret Colin
  • Rubén Blades
  • Treat Williams
  • George Hearn
  • Mitch Ryan
  • Natascha McElhone
  • Paul Ronan
  • Simon Jones
  • Julia Stiles
  • Ashley Carin
  • Kelly Singer

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