O Plano Perfeito: enaltecendo a esperteza de um reles ladrão

Cena do filme O Plano Perfeito
O Plano Perfeito: direção de Spike Lee

O DIRETOR FICOU REFÉM DE UM ROTEIRO IMPERFEITO

Um assalto à filial de um grande banco em Nova Iorque, que envolve reféns e acaba se tornando um espetáculo midiático, mexe com a imaginação dos nova-iorquinos. Não, não se trata de Um Dia de Cão, dirigido em 1975 por Sidney Lumet. O objeto desta crônica é O Plano Perfeito, dirigido em 2006 por Spike Lee. Apesar das referências – e da franca homenagem ao trabalho de Lumet – esse filme traz diferenças substanciais. Ao invés de partir de um evento destrambelhado para nos revelar personagens complexos, destrincha uma sequência de acontecimentos bem planejados, sem se preocupar em investigar os personagens para além das camadas epidérmicas. É um thriller policial ágil e envolvente, estrelado por nomes famosos, mas sem fôlego para deixar a sala de cinema. Vale o preço do ingresso, porém oferece conteúdo esquecível.
        É verdade que este cronista tem uma certa implicância com histórias que enaltecem os grandes roubos e enxergam esperteza nos que deveriam ser vistos como meros assaltantes ardilosos. Os únicos filmes do gênero que me animo a acompanhar são os que não fazem concessões morais e dão tratamento justo aos protagonistas fora da lei. Ainda que sejam ladrões roubando ladrões, devem pagar por suas falhas de caráter. Mas há um problema: como saber se um filme passa por esse crivo? O único jeito foi assistir a O Plano Perfeito usando a minha peneira. Encontrei muito cascalho que gostaria de ver descartado, mas antes de fazer isso, precisamos examinar a sinopse.
    O Plano Perfeito é sobre um espetacular assalto perpetrado por Dalton Russell (Clive Owen) a uma agência bancária em Manhattan, junto com outros três comparsas. Seguindo um planejamento minucioso, fazem funcionários e clientes de reféns. E também fazem muita fumaça, o que alerta a polícia e chama a atenção da mídia. Quem chega para controlar a situação pelo lado da lei é o detetive Keith Frazier (Denzel Washington), com a ajuda do seu assistente Bill Mitchell (Chiwetel Ejiofor) e a colaboração do capitão John Darius (Willem Dafoe). Porém, os assaltantes estão pensando vários lances à frente e vieram preparados para fazer os policiais de bobos. Quem fica preocupado de verdade é o dono do banco, Arthur Case (Christopher Plummer), que mantém segredos guardados nos cofres da agência assaltada. Segredos tão cabeludos que o obrigam a contratar a poderosa lobista Madeleine White (Jodie Foster), para garantir que não sejam revelados. Porém, é justamente pelos segredos do banqueiro que o assaltante Dalton Russell está disposto a correr todos os riscos. Ele não hesitará em usar os reféns para completar seu plano perfeito.
        A trama de O Plano Perfeito, inventada pelo roteirista Russell Gewirtz, tem pontos fracos. Sua intenção era a de retratar o personagem principal como um grande ladrão, capaz de cometer o crime perfeito. Apesar de evitar ações violentas, o meliante é movido pela ganância e está disposto a arriscar a vida de muitos inocentes, mas o roteirista achou que, por causa da habilidade do personagem em não deixar provas nem pistas, o espectador torceria por ele. Para complicar, o roteirista evitou mostrar o policial antagonista como um tolo, fácil de ser enganado. Então, tentou dotá-lo com alguma retidão moral e o apreço pelo cumprimento da lei, mas não foi o suficiente. O detetive não consegue ser um oponente à altura do criminoso e chega ao final com cara de quem não entendeu nada do que estava acontecendo!
        Outro ponto fraco do roteiro é a presença do banqueiro Arthur Case – diga-se de passagem, caracterizado de forma por demais estereotipada. Ele não passa de um sujeito desprovido de bom senso! Onde já se viu? Guardar nos cofres do próprio banco um documento que poderia incriminá-lo, ao invés de simplesmente destruí-lo. O roteirista só usou esse recurso para inventar um vilão ainda mais sórdido e inescrupuloso. Dessa forma, o espectador poderia torcer pelo assaltante de banco, acreditando que ele estaria apenas roubando de outro ladrão ainda mais abjeto. Para complicar, a personagem mais interessante e promissora do filme, a lobista vivida por Jodie Foster, não consegue decolar. Envolta por uma densa atmosfera de mistério, ela não acrescenta nada de relevante à trama. Termina como começou.
        No mais, o roteiro de O Plano Perfeito segue costurando banalidades, que o espectador já conhece de outros filmes similares. Quem estava originalmente escalado para assumir a direção era o experiente Ron Howard, que realizou os ótimos O Preço de Um Resgate, Uma Mente Brilhante e Rush – No Limite da emoção. Mas o diretor desistiu do projeto para filmar A Luta Pela Esperança. Seu posto então foi assumido por Spike Lee, um diretor habilidoso, autor de filmes que metem o dedo em feridas sociais e raciais, como os ótimos Faça a Coisa Certa e Malcon X. Ele chamou Russell Gewirtz para retrabalhar o roteiro durante a pré-produção e criou uma linha narrativa ágil, com cenas em flashforward para mostrar o envolvimento dos vários reféns. Isso trouxe uma certa sofisticação, que elevou o nível do filme.
        Ainda assim, O Plano Perfeito continuou sendo um filme esquecível, a não ser por uma cena impactante: quando o ladrão interpretado por Clive Owen examina o videogame de um garoto que está entre os reféns e se surpreende. O jogo é tão violento e faz uma apologia tão depravada ao crime, que causa asco até mesmo no bandido asséptico. E o melhor é que a crítica embutida na cena vem com o tradicional alcance racial abraçado por Spike Lee em seus filmes – as imagens do videogame mostram que o jogador ganha pontos quando, na pele de um criminoso negro, consegue matar outros criminosos negros!
        É... A direção de Spike Lee fez muito bem a O Plano Perfeito. Além de ao menos tentar neutralizar o culto ao assalto perfeito, o diretor fez ótimas referências a Um Dia de Cão, mostrando que está interessado em fazer cinema de qualidade. Ainda que o roteiro não tenha ajudado, o filme acabou se tornando aquele de maior bilheteria em sua carreira!

Resenha crítica do filme O Plano Perfeito

Título original: Inside Man
Título em Portugal: Infiltrado
Ano de produção: 2006
Direção: Spike Lee
Roteiro: Russell Gewirtz
Elenco: Clive Owen, Denzel Washington, Jodie Foster, Christopher Plummer, Willem Dafoe, Chiwetel Ejiofor, Kim Director, Waris Ahluwalia, Al Palagonia, Florina Petcu, Carlos Andres Gómez, Lemon Andersen, Peter Gerety, Cassandra Freeman, Ashlie Atkinson, Gerry Vichi, James Ransone, Marcia Jean Kurtz, Peter Frechette e Peter Kybart

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