Crítica | Ripley: Steven Zaillian desce até as profundezas da mente de um psicopata e realiza uma minissérie primorosa

Cena da minissérie Ripley
Ripley: minissérie dirigida por Steven Zaillian

RETRATO EM PRETO E BRANCO DE UM PSICOPATA

A minissérie Ripley, criada, escrita e dirigida em 2024 por Steven Zaillian, é uma adaptação brilhante do romance O Talentoso Ripley, que Patricia Highsmith escreveu em 1955. Lá a escritora americana apresentou o personagem Tom Ripley, um vigarista que se consagrou como um dos mais desprezíveis psicopatas da literatura. Rendeu uma série de livros, que fizeram a fama da autora; além de vários contos, ela escreveu 22 romances, vários deles adaptados para o cinema – inclusive Pacto Sinistro, dirigido por Alfred Hitchcock. Agora, disponível na Netflix, os fãs do personagem encontrarão um excelente motivo para revistar o personagem e suas tramoias. 

Um convite para maratonar

        Antes de apertar o play na minissérie, os cinéfilos atentos buscarão na memória a adaptação de 1999 intitulada O Talentoso Ripley, dirigida por Anthony Minghella e estrelada por Matt Damon, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Cate Blanchett e Philip Seymour Hoffman. Trata-se de um filme excelente, que já contou a mesma história, porém em formato de longa-metragem. Esta minissérie em oito episódios oferece uma leitura mais detalhada do romance, com muito mais densidade e alguns novos desdobramentos.

Cena da minissérie Ripley
Ripley: Steven Zaillian optou pelo preto e branco e acertou!

A sinopse: um vigarista encantado com a vida boa

        Parecida com a do filme, a sinopse da minissérie é fácil de ser resumida: Tom Ripley (Andrew Scott) é um vigarista nova-iorquino às voltas com pequenos golpes. Por uma confluência de acasos, ele é convocado por um milionário para viajar até a Itália e tentar convencer seu filho, Dickie Greenleaf (Johnny Flynn) a retornar para a América. Acontece que o playboy vive numa encantadora vila da Sicília e leva uma vida confortável e glamourosa, junto com a namorada, Marge Sherwood (Dakota Fanning). Tom se imiscui na vida de Dickie e passa a usufruir da mesma boa-vida; com assustadora frieza ele vai minando o relacionamento do casal e toma posse de seus pertences, enquanto revela seus instintos assassinos.

A mente monocromática de um psicopata

        Quando se dispôs a realizar uma nova adaptação do romance de Patricia Highsmith, Steven Zaillian mergulhou tão fundo nas motivações e reações dos personagens que escreveu um roteiro de 500 páginas; desceu a níveis de detalhamento que não caberiam em um longa-metragem, então preferiu criar uma minissérie. Competente e compenetrado, Zaillian é o roteirista de filmes como A Lista de Schindler, O Gângster e O Irlandês, além de criar e dirigir a minissérie The Night Of. Seu nome, portanto, é o grande fiador de Ripley, e razão de sobra para conferir seus oito episódios.

Cena da minissérie Ripley
Ripley: um personagem incômido, olhos nos olhos com o espectador

Visual elegante e sofisticado

        A primeira coisa que você vai notar é que a minissérie é inteiramente rodada em preto e branco. A fotografia é de tirar o fôlego! Além dos enquadramentos precisos e arquitetados com exaustiva racionalidade, o jogo de luz e sombra remete aos filmes impressionistas e resgata a atmosfera noir dos thrillers policiais do passado. A Itália dos anos 1960, chique, elegante e sofisticada, não é retratada aqui como tema de cartões postais, mas como um pano de fundo saturado de informações e referências; dessa forma, o diretor conseguiu contar uma história sombria e retratar em profundidade um personagem tão sinistro quanto desprezível, que não consegue se encantar com toda a beleza que pulsa ao seu redor. Em certos momentos, você vai lamentar que a série não tenha sido realizada em cores, mas a culpa é do personagem!

Eis que entra em cena um atormentado Caravaggio!

        Zaillian dedica bastante tempo para observar o gélido Ripley em seus movimentos meticulosos: perambula pela noite, limpa poças de sangue, ensaia as conversas que terá, trama os próximos passos... Tudo no tempo certo, sem ansiedade e sem se deixar levar pelas incontáveis distrações que o rodeiam. O protagonista que o diretor enquadra é o mesmo psicopata que encontramos nas páginas do romance, mas em Ripley ele ganhou um aliado inusitado: o pintor Caravaggio! Sim, o famoso pintor renascentista italiano, expoente do período Barroco, cujas obras estão espalhadas pelas igrejas de Roma, para deleite dos turistas.

Cena da minissérie Ripley
Ripley: Steven Zaillian encantou-se com a história de Caravaggio

A luz, sempre a luz!

        Quando esteve na Itália pela primeira vez, Zaillian conta que ficou encantado com um quadro de Caravaggio, com o qual se deparou num pequeno museu em Perugia; absorto com a pintura, foi surpreendido por um guarda que, ao perceber seu interesse, chegou por trás e provocou: “La luce, sempre la luce”, referindo-se ao impressionante jogo de claro e escuro que virou marca registrada do artista. Pronto! A cena foi parar nas páginas do roteiro da minissérie e mais tarde motivou a inclusão do próprio Caravaggio no rol dos personagens – o pintor italiano também cometeu um assassinato e amargou suas consequências.

Afinal de contas, o que é um psicopata?

        Os especialistas em psicologia levantarão o dedo e bradarão definições amparadas nos diagnósticos das várias doenças mentais, que afetam o caráter e causam desvios de comportamento; falarão em atitudes antissociais, rompantes impulsivos e reações violentas. Todavia, ressaltarão que, a depender do contexto, o diagnosticado pode não ser agressivo, nem representar perigo real para outras pessoas.

Cena da minissérie Ripley
Ripley: ótimo elenco e um roteiro que desce aos detalhes

Psicopatas: prato cheio para a sétima arte

        Já nós, os cinéfilos, reconhecemos de imediato um psicopata: ele costuma transitar pelas histórias mais escabrosas do cinema. É frio, desprovido de empatia e... maligno! Jamais sente remorso ou culpa; é calculista, cruel e quase sempre desempenha o papel do vilão. Um bom psicopata – bom num sentido fático, é claro – é um ingrediente especial em qualquer thriller policial ou de mistério; vai elevar os níveis de suspense e nos causar arrepios de medo. É esse o efeito que Tom Ripley vem causando, desde que nos foi apresentado por Patricia Highsmith em meados da década de 1950.

Sim, o danado é mesmo talentoso!

        Na minissérie Ripley, nos deparamos o tempo todo com dilemas morais. Não queremos torcer por um protagonista tão sórdido e ficamos com raiva nos momentos em que ele se safa; porém, estranhamente, nos envolvemos com seus atos calculados e reconhecemos que todos eles se encaixam dentro de uma bizarra ordem. Seguimos atentos, porque, de alguma forma, geramos empatia com o talentoso vigarista.

Veredito da crônica de cinema

★★★★★(5 / 5 estrelas)

O que brilha: a precisão do roteiro, o espetáculo visual, a direção segura de Steven Zaillian e o notável trabalho dos atores.

O que surpreende: o minucioso estudo do personagem, a um nível de detalhamento que nos leva a sentir empatia por ele.

Imperdível. É uma série irretocável.

Ficha técnica da série Ripley

Ano de produção: 2024
Direção: Steven Zaillian
Roteiro: Steven Zaillian

Elenco:
  • Andrew Scott
  • Dakota Fanning
  • Johnny Flynn
  • Eliot Sumner
  • Margherita Buy
  • Maurizio Lombardi
  • Kenneth Lonergan
  • Ann Cusack
  • Bokeem Woodbine
  • Vittorio Viviani
  • Louis Hofmann
  • Fisher Stevens
  • John Malkovich

Comentários

Confira também:

Crítica | Crash: No Limite: Paul Haggis cruzou histórias, tocou em temas espinhosos e fez um filme emocionante.

Crítica | Faces da Verdade: Rod Lurie entrega um thriller político ágil e envolvente, onde a verdade tem valor absoluto

Siga a Crônica de Cinema