Stillwater: Em Busca da Verdade: ficção cercada de realidade

Cena do filme Stillwater
Stillwater: direção de Tom McCarthy

UM DRAMA HUMANO PARA ALÉM DOS ESTEREÓTIPOS

Um americano vai para Marselha, na França, onde a filha está presa por um assassinato que não cometeu, e empreende uma busca por provas que possam libertá-la. Só essa curta sinopse já tem poder para fisgar, mas então você percebe que o pai resoluto é ninguém menos do que Matt Damon, o astro de Hollywood calejado nos filmes de ação. Esfregando as mãos de felicidade – nada como um bom thriller policial para animar a noite de um cinéfilo – você aperta o play sem pestanejar. No entanto, Stillwater: Em Busca da Verdade, dirigido em 2021 por Tom McCarthy está longe de ser um filme de ação. Não segue a cartilha dos thrillers, nem se dedica a cultuar o tipo de personagem durão e infalível, que resolve as querelas com tiros e pancadaria. Trata-se de um drama humano, vivido por personagens bem construídos. Tem poder para envolver o espectador do começo ao fim e deixá-lo sem piscar.
        A primeira observação a fazer é que esse filme tem o certificado de qualidade da grife Tom McCarthy, um cineasta experiente e premiado com dois Óscares – melhor filme e melhor roteiro original – por seu longa Spotlight – Segredos Revelados. Mas se lá o diretor investigava a fundo uma história real envolvendo casos de pedofilia na igreja católica de Boston, aqui ele embarca numa história fictícia, que ele mesmo criou.
        A segunda observação é que a presença de Matt Damon encabeçando o elenco não é apenas um detalhe curioso. O diretor tentou deliberadamente causar um efeito de estranhamento, trabalhando com o estereótipo cinematográfico do americano implacável, que chega à Europa disposto a eliminar todos os bandidos que conseguir, para depois empreender um mergulho em profundidade na sua psique. O ator consegue projetar na tela as sombras dos incontáveis personagens que já interpretou, mas elas vão se dissipando na medida em que o filme vai tomando rumos inesperados.
        Antes de seguir em frente, vejamos a sinopse de Stillwater: Em Busca da Verdade: o filme conta a história do viúvo Bill Baker (Matt Damon), um desempregado da indústria petrolífera que vive dos bicos que encontra na construção civil, na cidade de Stillwater, no estado de Oklahoma. Ele vai visitar a filha, Allison (Abigail Breslin), que cumpre pena há cinco anos em Marselha por ter matado sua colega de quarto na universidade. Durante a visita, a filha entrega para o pai uma carta, como novas pistas que poderão inocentá-la. Diante da recusa dos advogados em retomar o caso, o próprio Bill decide dar uma de detetive. Sem falar francês e sem qualquer experiência investigativa, ele vai meter os pés pelas mãos. Por sorte, contará com a ajuda de Virginie (Camille Cottin), uma pretensa atriz que vive com a filha, a pequena Maya (Lilou Siauvaud). Acolhido por elas, Bill parece ter encontrado uma nova família, mas segue tenaz em seu propósito de encontrar o verdadeiro assassino.
        Tom McCarthy criou essa história há cerca de dez anos, a partir de fragmentos de pequenas outras histórias que vinha coletando aqui e ali. Junto com o roteirista Marcus Hinchey, ele desenvolveu um roteiro inicial, mais centrado na busca do protagonista em tentar entender a natureza do crime e encontrar o verdadeiro culpado. Trabalharam por um ano e formataram um autêntico thriller de ação, mas a falta de profundidade dos personagens não agradou ao diretor. A ideia foi abandonada.
        Anos depois, Tom McCarthy retomou a história, mas dessa vez resolveu trabalhar em parceria com os roteiristas Thomas Bidegain – que assinou o roteiro de Os Irmãos Sisters, dirigido por Jaques Audiard – e Noé Debré, para reescrever as sequências ambientadas na França. Os três passaram outros dois anos detalhando a construção do protagonista, mais interessados em assumir uma estética realista, em contraposição à abordagem estilizada dos filmes de ação.
        Em Stillwater: Em Busca da Verdade, acompanhamos uma história envolvente, narrada de forma orgânica a partir das escolhas e decisões dos personagens que a vivem. Há, sim, momentos de ação, mistério e suspense, mas o filme acaba abrindo mais espaço para os envolvimentos amorosos e românticos, e também para discutir algumas questões morais e éticas que normalmente passam batidas nos thrillers. Drogas, alcoolismo, política, pendengas ideológicas, questões migratórias... Os temas vão sendo expostos sem floreios, e cada personagem oferece pontos de vistas diferentes sobre eles.
        Ao final, o filme expõe um contundente dilema moral, cravado no âmago dos dois personagens principais. Por fora, Bill, o pai, se parece com Matt Damon, mas por dentro é um valentão com fortes valores religiosos e familiares, devastado pelos erros que cometeu no passado. Por fora, a filha, Allison, se parece com Abigail Breslin, a garotinha que gostávamos de abraçar em Pequena Miss Sunshine, mas por dentro é uma mulher crescida, amargurada e embrutecida pela vida e escolheu.
        Não me arrependi de assistir ao filme Stillwater: Em Busca da Verdade. Trata-se de uma obra séria, madura e construída em detalhes, com apuro visual e um raro virtuosismo narrativo. Irradia cinema de qualidade e nos faz um convite para a reflexão. Vale a pena conferir!

Resenha crítica do filme Stillwater: Em Busca da Verdade

Ano de produção: 202
Direção: Tom McCarthy
Roteiro: Tom McCarthy, Marcus Hinchey, Thomas Bidegain e Noé Debré
Elenco: Matt Damon, Abigail Breslin, Camille Cottin, Deanna Dunagan, Idir Azougli, Anne Le Ny, Moussa Maaskri e William Nadylam

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