Crítica | Roubando Vidas: o thriller de suspense de D. J. Caruso patina em pontos cruciais e aposta tudo no ponto de virada

Cena do filme Roubando Vidas
Roubando Vidas: direção de D. J. Caruso

QUASE MEMORÁVEL

Thrillers de suspense são oportunidades para acompanhar conflitos psicológicos em profundidade. Costumam apresentar personagens densos e complexos, envolvidos em tramas intrincadas, que demandam astúcia, inteligência e sangue frio. Se7en: Os Sete Crimes Capitais e O Silêncio dos Inocentes são os exemplares mais lembrados pelos cinéfilos que apreciam o gênero. Infelizmente, Roubando Vidas, filme de 2004 dirigido por D. J. Caruso, não está à altura desses títulos; ainda assim, é um filme que merece ser visitado. Tem boas atuações, um ritmo bem conduzido e surpreende com reviravoltas inesperadas. Não decepciona, mas... poderia ser melhor!

Baseado num romance envolvente 

        Roubando Vidas foi adaptado de um romance com o mesmo título escrito pelo inglês Michael Pye em 1999, mas traz diferenças em relação ao material original. O livro é sobre Martin Arkenhout, um jovem holandês de 17 anos que viaja pela Flórida. Ele mata outro jovem da sua idade, rouba seus documentos e assume sua identidade. Faz o mesmo com outro sujeito meses depois, e depois, e depois... Passada uma década de crimes em série, ele agora está na Holanda, fingindo ser Christopher Hart, um professor inglês. Então o romance muda de tom e perspectiva. Passa a ser narrado em primeira pessoa por John Costa, um curador de museu que dá uma de detetive; investiga o tal professor Christopher Hart, que havia roubado algumas gravuras valiosas. Sem saber que assassino em série já havia assumido a identidade do professor inglês, Costa desfia um novelo de mistérios e tropeça em reviravoltas desconcertantes, que conseguem envolver o leitor até a última página.

Cena do filme Roubando Vidas
Roubando Vidas: D. J. Caruso extrair boas interpretações

Caça ao assassino em série

        Já o filme Roubando Vidas é um tanto diferente. O protagonista é o jovem Martin Asher (Paul Dano), que viaja para Quebec, no Canadá; depois de matar o companheiro de viagem, rouba seus documentos e assume sua identidade. Passados vinte anos, quem entra em cena é a agente do FBI, Illeana Scott (Angelina Jolie); ela é contratada pela polícia do Canadá para ajudar a solucionar os assassinatos em série cometidos por um psicopata, que assume a identidade de cada uma de suas vítimas.

Cena do filme Roubando Vidas
Roubando Vidas: adaptado sob medida para Angelina Jolie

        Com a ajuda de James Costa (Ethan Hawke), proprietário de uma galeria de arte que testemunhou o último assassinato, a detetive faz um retrato falado do psicopata e deduz que o próprio James Costa será a próxima vítima; arma uma arapuca, usa o comerciante de arte como isca e chega até Christopher Hart (Kiefer Sutherland). Porém, como acontece em todo thriller policial que se preze, o espectador tropeçará em uma reviravolta depois de outra, até que o caso esteja resolvido em definitivo.

Personagem sob medida para Angelina Jolie

        Para escrever a adaptação de Roubando Vidas, os produtores convocaram o roteirista Jon Bokenkamp, criador da série de TV Blacklist – que depois também escreveria os roteiros dos filmes A Estranha Perfeita e Chamada de Emergência. Ele apresentou o conceito da adaptação e passou três anos escrevendo diferentes tratamentos, até chegar ao roteiro efetivamente filmado. O roteirista criou a personagem da detetive Illeana Scott, que não aparecia no livro, e a desenhou sob medida para que Angelina Jolie pudesse interpretá-la. O espectador a reconhece como uma policial forte e competente, mas também a vê como uma mulher vulnerável, o que alimenta o clima de suspense.

Cena do filme Roubando Vidas
Roubando Vidas: só querem chegar ao ponto de virada!

Trama adaptada para Hollywood

        O personagem de Ethan Hawke, por outro lado, oferece o contraponto aos humores sombrios da moça e permite que a história deslize por caminhos incertos. É claro que os fãs do livro torcerão o nariz: onde foi parar a elegância e a trama intrincada criada pelo escritor Michael Pye? Foi simplificada para agradar os paladares do público americano. Ainda bem que o diretor D. J. Caruso, calejado na correria das produções para a TV, como as séries Smallville e The Shield, sabe trabalhar com atores e extrair o melhor deles. Impõe seu estilo narrativo ágil e envolvente.

Alguns pontos fracos

        Caruso também sabe manipular os elementos que geram suspense, mas aqui, para nossa infelicidade, prefere concentrar seus esforços na preparação e na erupção das reviravoltas; quer fisgar o espectador para depois surpreendê-lo com o inesperado. Eis aqui outro ponto fraco do filme: roteirista e diretor deixaram de lado o desenvolvimento psicológico dos personagens e ficaram presos no emaranhado de reviravoltas – que, aliás, podem ser intuídas pelos espectadores atentos.

Cena do filme Roubando Vidas
Roubando Vidas: no começo, a participação de Paul Dano impressiona

Faltou direção de arte

        Também lamentei a displicência dos realizadores em relação à direção de arte. Ora, pelo simples fato de apresentar um personagem que é dono de galeria, era de se esperar um tratamento visual mais sofisticado, que denotasse certa sensibilidade artística. Outros muitos pontos perdidos em comparação com o livro de Michael Pye! Há, no entanto, um atributo de grande qualidade em Roubando Vidas: toda a sequência inicial com a participação do ator Paul Dano!

Ainda assim, um bom entretenimento

        A atmosfera sombria e a força dramática conseguida logo no começo do filme sugerem que o longa seguirá na trilha dos grandes sucessos do gênero. Infelizmente, os realizadores preferiram pisar terrenos menos pedregosos e abraçaram os clichês protocolares das produções para a TV. Ah, e para não desmerecer este que é, afinal, um bom entretenimento, quero ressaltar a excelente trilha sonora assinada pelo compositor minimalista Philip Glass. A atmosfera de mistério que respiramos ao longo do filme é graças à sua intervenção.

Veredito da crônica de cinema

★★★☆☆(3 / 5 estrelas)

O que brilha: as atuações de Angelina Jolie, Ethan Hawke e Paul Dano, a trilha sonora de Philip Glass e a trama envolvente criada pelo escritor inglês Michael Pye

O que decepciona: a simplificação de uma trama elegante, a falta de desenvolvimento psicológico dos personagens, a displicência com a direção de arte e a preocupação excessiva com o ponto de virada no final.

Vale a pena. Consegue entreter e proporcionar suspense.

Ficha técnica do filme Roubando Vidas

Título original: Taking Lives
Ano de produção: 2004
Direção: D. J. Caruso
Roteiro: Jon Bokenkamp

Elenco:
  • Angelina Jolie
  • Ethan Hawke
  • Kiefer Sutherland
  • Gena Rowlands
  • Olivier Martinez
  • Tchéky Karyo
  • Jean-Hugues Anglade
  • Paul Dano
  • Justin Chatwin
  • André Lacoste
  • Billy Two Rivers
  • Richard Lemire
  • Julien Poulin
  • Marie-Josée Croze
  • Emmanuel Bilodeau
  • Christian Tessier

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