Crítica | Sonhos de Trem: Clint Bentley entregou um drama contemplativo e visualmente deslumbrante

Sonhos de Trem: direção de Clint Bentley
UMA JORNADA PELA VIDA
O curto romance Sonhos de Trem, escrito em 2011 pelo americano Denis Hale Johnson, oferece uma narrativa breve e sensível sobre a vida de um personagem lacônico; um homem comum, que nasceu, cresceu, trabalhou, construiu família, amou, sofreu e morreu enquanto o mundo ao seu redor insistia em girar com inércia transformadora. O filme Sonhos de Trem, dirigido em 2025 por Clint Bentley, é uma adaptação primorosa dessa história. Com ares de cinema independente, desfia uma narrativa fluente e orgânica, que combina imagens deslumbrantes, música envolvente e um texto aguçado, num resultado poético e emocionante. No cinema, esta obra aberta de grande valor literário nos chega como um pacote fechado, mas embrulhado em belo papel de presente!Ótimas referências cinematográficas
Sei que os cinéfilos compenetrados torcerão o nariz para as comparações que ousarei fazer com os filmes Árvore da Vida e Dersu Uzala, mas vamos lá: o que me transportou para o primeiro filme foi a voz cativante do narrador onisciente (Will Patton), embalada pela música de Bryce Dessner, que remontam ao estilo e ao ritmo narrativo adotado por Terrence Malick. Ao segundo filme, cheguei graças à atitude introspectiva do protagonista diante do imperativo da natureza e da sua capacidade em extrair aprendizado das relações humanas, tratados com ímpeto universal por Akira Kurosawa. Sonhos de Trem, afinal, não vem embalado em um pacote tão fechado, não é mesmo?
Sonhos de Trem: Clint Bentley filma um drama sensível e emocionante sobre um homem comum
A sinopse: as dificuldades para se reconstruir
O filme conta a história de Robert Grainier (Joel Edgerton), um lenhador que trabalha para a indústria ferroviária no estado do Idaho, durante a virada do século XX. Orfão, abandona a escola na juventude e vive como um trabalhador sem rumo, até conhecer Gladys Olding (Felicity Jones), com quem se casa e tem uma filinha, Kate. Eles constroem uma casa e levam uma vida dura, mas proveitosa. Robert se ausenta por longos períodos, enquanto trabalha cortado árvores para a ferrovia. Ele conhece outros sujeitos e testemunha acontecimentos violentos e trágicos. A vida não o poupará da dor, impondo uma perda devastadora que o fará experimentar muita tristeza e testará sua capacidade de se reconstruir.Uma adaptação brilhante
O diretor Clint Bentley tem no currículo o filme Jockey, de 2021 e a indicação para o Oscar de melhor roteiro adaptado pelo filme Sing Sing, que escreveu em parceria com Greg Kwedar. A dupla se debruçou sobre o roteiro de Sonhos de Trem, por vários anos, tentando transformar em filme um romance conciso, que fala principalmente sobre banalidades da vida – amor, família, trabalho, alegrias, tristezas, a morte rondando, o luto, a esperança... Os roteiristas conseguiram manter a profundidade emocional da história e exercitaram uma narrativa fluente e orgânica.
Sonhos de Trem: Joel Edgerton em uma atuação contida, mas intensa
Conteúdo de alcance universal
Sonhos de Trem resvala na história da expansão territorial americana do início do século XX, mas o faz mantendo o alcance universal – todos nós já vivemos os desafios da modernidade, colecionamos relacionamentos no trabalho, guardamos na memória acontecimentos corriqueiros aos quais atribuímos significados, tivemos que nos afastar da família enquanto tentamos ganhar a vida... Cada espectador se identificará mais com uma ou outra passagem específica, mas encontrará uma afinidade profunda com o protagonista.Atuações intensas e contidas
A fotografia deslumbrante de Sonhos de Trem é assinada por Adolfo Veloso. Ele se vale apenas da luz natural e consegue superar todos os desafios técnicos, especialmente nas cenas noturnas, iluminadas apenas por velas. Como resultado, isso permitiu ao diretor Clint Bentley expressar com eloquência a verdade emocional dos seus personagens. É claro que a atuação lacônica e ao mesmo intensa de Joel Edgerton foi decisiva, sem contar que Felicity Jones, Kerry Condon e William H. Macy também contribuíram para elevar a qualidade dramática do filme.
Sonhos de Trem: a capacidade de se reconstruir depois de uma perda devastadora
Um incrível trabalho de edição
Como cinéfilo curioso, que adora especular, enxerguei Sonhos de Trem como o típico filme que nasce na moviola. Baseado em um romance curto, que se expressa de maneira breve e precisa, imagino que o diretor tenha se aproveitado de certa flexibilidade no roteiro para afinar a narrativa na hora da edição. Imagens, sons, narração em off, música incidental... Trabalhando com o editor Parker Laramie, Clint Bentley deve ter se concentrado em encontrar diferentes soluções, alterando sequências lidando com flashbacks e dosando exposição e dramatização na medida certa. Seu trabalho final esbanja maturidade e sensibilidade artística.Faltou a religiosidade
Sonhos de Trem é sobre como nós, humanos, somos capazes de nos reconstruir depois de uma perda devastadora. Como nos reencontramos e ousamos seguir com a vida, ainda que a noção de finitude continue assombrando de um jeito fantasmagórico. Apesar da profunda melancolia que irradia, o filme consegue chegar ao final acenando com alguma dose de otimismo. Confesso, no entanto, que senti falta do conteúdo religioso. Os realizadores mantiveram distância das questões espirituais – o tema é tratado pelo protagonista apenas ao nível das superstições e de uma religiosidade primitiva. Mas isso é uma questão filosófica, que não interfere no resultado estético do filme. Estamos diante de uma obra relevante, que merecer estar entre os melhores filmes de 2025.Ficha técnica do filme Sonhos de Trem
Título original: Train DreamsAno de produção: 2025
Direção: Clint Bentley
Roteiro: Clint Bentley e Greg Kwedar
Elenco:
- Joel Edgerton
- Felicity Jones
- Kerry Condon
- William H. Macy
- Will Patton
- Nathaniel Arcand
- John Diehl
- Paul Schneider
- Clifton Collins Jr.
- Alfred Hsing
- Chuck Tucker
- Rob Price
- Beau Charles
- Johnny Arnoux
- John Patrick Lowrie
- Branden Lindsay
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