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Frankenstein: um grande espetáculo audiovisual

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Frankenstein: direção de Guilhermo del Toro EXCELENTE. SÓ NÃO PRECISAVA DAQUELA NARRAÇÃO EM OFF! Com seu livro Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno , a escritora inglesa Mary Shelley criou um mito na acepção filosófica. Pôs em palavras a angústia que a humanidade experimentava naquele comecinho de século XIX, diante de um cientificismo cada vez mais dominante; aproveitando que nos esforçávamos para exercer as funções de Deus, ela criou um monstro feito com partes de nós e o animou por meio de uma eletricidade que ainda  cheirava a magia. Passados 200 anos, sua criatura continua imortal, vagando pela cultura pop com incrível vitalidade – ganhou materialidade quando assumiu as feições de um Boris Karlof, porém, jamais enganou o público: não é humano! Está mais para um arremedo de gente, que nos inspira medo, repulsa e um bom tanto de pena.           Sim, o que Mary Shelley criou foi uma boa oportunidade para discutir sobre o que nos torna humanos, dúvida...

Casa de Dinamite: começou a contagem regressiva

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Casa de Dinamite: Direção de Kathryn Bigelow AÇÃO, SUSPENSE E UMA MENSAGEM PESSIMISTA Misseis riscando o céu, ameaçadores, nos lembram que sempre há a possibilidade de uma guerra em escala mundial. Nos acostumamos a vê-los pipocando nos noticiários da TV, principalmente os que cobrem os ataques feitos contra Israel por seus inimigos islâmicos – o tal Domo de Ferro, capaz de detectar os mísseis e interceptá-los em pleno voo é um alento, que nos garante alguma sensação de segurança e proteção. Mas e se algum deles escapar? E se algum deles estiver carregando uma ogiva nuclear?           Desde que Stanley Kubrick filmou Dr. Fantástico , em 1964, a humanidade jamais conseguiu relaxar. São enormes as chances de que algum maluco com acesso ao botão do fim do mundo decida fazer uma piada sem graça. Mais tarde, em filmes como Treze Dias Que Abalaram o Mundo , sobre a crise dos mísseis cubanos, ficamos sabendo que o tema não tem graça nenhuma – é de meter medo! Agor...

Calígula: O Corte Final

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Calígula: O Corte Final: direção de Tinto Brass UM FILME REVISIONISTA, SEM A MESMA VOCAÇÃO PARA O ESPETÁCULO Nos anos 1970, Bob Guccione era um pornógrafo de sucesso. Dono da revista Penthouse, investiu algum dinheiro em produções de cinema e gostou da experiência; desenvolveu uma ambição peculiar: criar seu próprio gênero cinematográfico. Imaginou um drama épico de relevância histórica e sólidos valores artísticos, misturado com cenas de sexo explícito. Concluiu que Calígula – o tirânico imperador romano que os livros de história registraram como um louco com delírios de grandeza –, seria o protagonista ideal para transmitir credibilidade com um bom tanto de lascívia. Pronto! Deu início ao mais caro filme independente até então já produzido.           Guccione contratou o consagrado escritor Gore Vidal para escrever o roteiro e o diretor italiano Tinto Brass para garantir uma abordagem erótica com estética caprichada. Para obter o necessário verniz dramáti...

Apocalypto: mais do que um filme de perseguição

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Apocalypto: direção de Mel Gibson UM FILME SOBRE O MEDO E A VIOLÊNCIA QUE O CULTIVA Quando as ideias econômicas dos marxistas naufragaram irrecuperavelmente, o que fizeram os pensadores da esquerda? Agarraram-se à filosofia de Jean-Jacques Rousseau, o escritor suíço do século XVI, expoente do iluminismo; suas ideias forneceram munição tanto para os liberais como para os comunistas, mas foram estes últimos que se esbaldaram na sua visão de mundo coletivista. Para Rousseau, os problemas da humanidade começaram quando decidimos conviver em sociedade e instituímos a propriedade privada. Deduziu que o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe; emplacou o conceito do “bom selvagem”, que vivia em perfeita harmonia com a natureza, sem vícios ou maldades, até que veio o processo civilizatório e infundiu-lhe todo o mal. A narrativa colou!           Basta percorrer algumas poucas páginas da nossa história para entender que é justamente o contrário: o mal sempre este...

Somos Marshall: drama esportivo baseado em fatos

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Somos Marshall: direção de McG É PREVISÍVEL, POR ISSO FUNCIONA MUITO BEM Sempre evitei os filmes sobre futebol americano. Não tenho qualquer familiaridade com esse esporte – desconheço as regras, os ídolos, os times importantes e os campeonatos conduzidos pelas várias ligas esportivas. Tudo o que sei é que os jogadores usam pesados equipamentos de proteção, porque disputam cada ponto com impressionante truculência. Ah, e sei também que o esporte tem uma relação de simbiose com a vida universitária americana; para serem aceitos como jogadores, os estudantes precisam obter boas notas no boletim; para galgar até as ligas profissionais, precisam passar pelo futebol universitário.           Para ganhar a minha torcida, filmes sobre futebol americano precisam ir além do futebol; precisam exibir cinema de qualidade. Somos Marshall , dirigido em 2006 por McG, não é nenhuma obra-prima do gênero, mas tem elementos de sobra para prender a atenção do espectador e provo...

Efeito Dominó: baseado em um assalto real

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Efeito Dominó: direção de Roger Donaldson UMA REUNIÃO DE TODOS OS TIPOS DE MELIANTES Sim, Efeito Dominó , filme de 2008 dirigido por Roger Donaldson, é um ótimo thriller policial, capaz de nos prender na poltrona do começo ao fim. Porém, é preciso que se diga: é mais um daqueles filmes que enaltecem os criminosos e celebram suas ousadias. Aliás, o espectro de meliantes coberto pela trama é dos mais amplos; tropeçamos em ladrões ordinários, traficantes de drogas, exploradores da pornografia, gângsteres, ativistas, falsários, agiotas, políticos, agentes do estado... E o pior de tudo: eles protagonizam uma história real, passada na Inglaterra 1971. Para complicar, as implicâncias e desdobramentos dos crimes por eles cometidos ainda não são totalmente conhecidos, pois o caso está sob sigilo até 2054 – sim, lá na Inglaterra, como no Brasil, o sistema também se autoprotege sem qualquer constrangimento.           O filme foi construído sobre o terreno arenoso das ...

Faces da Verdade: um thriller político acima da média

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Faces da Verdade: direção de Rod Lurie VERDADE: VALOR QUE NÃO PODE SER RELATIVIZADO Sempre reservo um dia da semana para exercer o que chamo de... extrativismo cinematográfico: vasculho as plataformas de streaming com método e paciência, atento a qualquer pepita mais reluzente. Não é sempre, mas elas aparecem, presas na minha peneira criteriosa. Dessa vez, meu achado foi Faces da Verdade , escrito e dirigido em 2008 por Rod Lurie. Depois de reconhecer o nome do diretor, responsável por ótimos filmes como A Última Fortaleza e Posto de Combate , este cinéfilo garimpeiro apertou o play e não se arrependeu.           Faces da Verdade é um thriller político ágil e envolvente, com um roteiro bem costurado, diálogos bem escritos e ótimas interpretações. É entretenimento, mas tem qualidades estéticas e traz provocações que fazem pensar – nos lembra que a verdade é tudo o que de fato importa. Antes de começar a destrinchar o filme, deixe-me primeiro descer a lenha...

O Quarto do Pânico: um thriller ágil e envolvente

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O Quarto do Pânico: direção de David Fincher NARRATIVA VISUAL COMPLEXA PARA UM ROTEIRO ENXUTO Depois de trabalhar nos roteiros de grandes sucessos de bilheteria, como A Morte lhe Cai Bem , Jurassic Park e Missão Impossível , David Koepp se tornou um dos roteiristas mais requisitados de Hollywood. No início dos anos 2000, ele tropeçou em algumas reportagens sobre os tais quartos do pânico, que ganhavam espaço nas casas dos milionários preocupados com segurança; no caso de invasão por assaltantes ou malfeitores, era lá que eles se enfurnavam, até a chegada da polícia. Na mente de um roteirista talentoso, no entanto, as coisas jamais aconteceriam assim, de maneira tão simples. Certamente haveria complicações!           O conceito de um quarto do pânico é óbvio e já bastante difundido: constrói-se um cômodo em local de fácil acesso, com portas reforçadas, isolamento acústico e blindagem nas paredes, teto e piso; instalam-se monitores, para mostrar as imagens d...

Cidade das Mulheres: cinema em estado puro!

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Cidade das Mulheres: direção de Federico Fellini AH, O FASCÍNIO PELO SER FEMININO! As mulheres sempre foram – e sempre serão – o assunto principal dos homens. Política, religião e futebol são divertidos e oferecem farta munição para os debates acalorados nas mesas dos bares; ao contrário do mulherismo, no entanto, tais assuntos podem ser facilmente sistematizados, estudados e compreendidos. Entre copos de cerveja e doses seguidas de Steinhaeger, costumávamos, meus amigos e eu, todos com vinte anos, travar acirradas batalhas verbais para tentar garantir a salvação do mundo que herdaríamos. Mas quando as mulheres entravam em discussão, nunca era no plenário; era no final da noitada, com o amigo da cadeira ao lado, em voz baixa, confessional e pastosa de tão etílica.           Cada amigo tinha uma inclinação diferente. Júlio era predador. Álvaro era colecionador. Jorge era romântico. É bem verdade que todos nós, em proporções diferentes, éramos compostos dos m...

A Morte Lhe Cai Bem: humor negro e computação gráfica

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A Morte lhe Cai Bem: direção de Robert Zemeckis UM FILME À FRENTE DO SEU TEMPO! Em 1992, minha calvície ainda não dava sinais de que sairia vencedora. Precisava ir de vez em quando ao barbeiro – geralmente nas manhãs de sábado – para dar aos cabelos algum corte que me salvasse a aparência. Era sentar-me na cadeira e pronto: alguém jogava nas minhas mãos um exemplar da Revista Caras, para que me distraísse com a vanglória dos ricos e famosos. Num mundo sem celulares e sem redes sociais, publicações desse tipo eram as únicas janelas disponíveis para quem desejasse bisbilhotar a vida alheia. Com o advento da internet, o jogo virou: todo mortal agora pode manter a pose e se camuflar de celebridade.           Em tempos analógicos, havia duas possibilidades: ou você estava nas páginas de Caras, ou não estava. Se estivesse, era um vencedor; se não estivesse, que continuasse tentando. Hoje, as possibilidades são infinitas, já que todas as páginas na internet podem ...

Josey Wales, o Fora da Lei: um western revisionista

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Josey Wales, o Fora da Lei: direção de Clint Eastwood NARRATIVA VISUAL ENXUTA E MODERNA Estava com dezesseis anos quando entrei no cinema para assistir a Josey Wales, o Fora da Lei , filme de 1976 dirigido por Clint Eastwood. O astro de Hollywood tinha o nome colado ao cinema de ação e o gênero western já me soava desinteressante – naquela época já me considerava um cinéfilo exigente, com horas de voo suficientes para lançar olhos de predador sobre os filmes em cartaz. Então, reparei que o nome de Clint Eastwood aparecia duas vezes nos créditos: como ator e como diretor. Como não havia opção melhor para aquele sábado à tarde, encontrei aí uma boa desculpa para conferir.           O filme ao qual assisti naquele dia era envolvente e oferecia certa densidade dramática. Era recheado de violência e se agarrava a fortes valores morais. A fotografia era sombria e o visual flertava com o realismo. E o mais curioso: tinha algo de moderno, ainda que revirasse uma hi...

Presságio: mistério, catástrofe e muita ação

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Presságio: direção de Alex Proyas OS DOIS PRIMEIROS ATOS FUNCIONAM. O ÚLTIMO É UMA BOBAGEM! Na juventude, fui um cinéfilo mais criterioso. Só entrava numa sala de exibição se o filme valesse o preço do ingresso. Além disso, tinha que escolher entre uma lista reduzida de títulos – Curitiba contava com dezena de cinemas, onde os lançamentos ficavam em cartaz por poucas semanas. Para decidir com sabedoria onde gastar meu suado dinheirinho, a solução era vasculhar os cadernos de cultura dos jornais e as revistas especializadas; lia muito sobre cinema e quando me sentava na plateia, já sabia o que esperar.           Hoje, a oferta de filmes beira o infinito. Nas plataformas de streaming, o valor da assinatura é o mesmo, caso você assista a um único filme por mês ou a cinco por dia! Tornei-me um cinéfilo mais impulsivo. Aperto o play com facilidade, pois sei que posso mudar de ideia ao primeiro sinal de arrependimento. Foi com esse espírito armado que comecei a a...

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