Casa de Dinamite: começou a contagem regressiva

Cena do filme Casa de Dinamite
Casa de Dinamite: Direção de Kathryn Bigelow

AÇÃO, SUSPENSE E UMA MENSAGEM PESSIMISTA

Misseis riscando o céu, ameaçadores, nos lembram que sempre há a possibilidade de uma guerra em escala mundial. Nos acostumamos a vê-los pipocando nos noticiários da TV, principalmente os que cobrem os ataques feitos contra Israel por seus inimigos islâmicos – o tal Domo de Ferro, capaz de detectar os mísseis e interceptá-los em pleno voo é um alento, que nos garante alguma sensação de segurança e proteção. Mas e se algum deles escapar? E se algum deles estiver carregando uma ogiva nuclear?
        Desde que Stanley Kubrick filmou Dr. Fantástico, em 1964, a humanidade jamais conseguiu relaxar. São enormes as chances de que algum maluco com acesso ao botão do fim do mundo decida fazer uma piada sem graça. Mais tarde, em filmes como Treze Dias Que Abalaram o Mundo, sobre a crise dos mísseis cubanos, ficamos sabendo que o tema não tem graça nenhuma – é de meter medo! Agora, chegou a vez de Kathryn Bigelow, a diretora que se especializou em filmes de ação, tocar nesse assunto delicado; seu filme Casa de Dinamite, lançado em 2025, é um thriller político repleto de tensão e sentido de urgência. Nos mostra qual seria a reação dos governantes e militares no poder, caso um míssil balístico intercontinental fosse lançado, sem mais nem menos, contra uma grande cidade americana.
        Sim, caro cinéfilo, quando li esta chamada para o filme, também visualizei a mesma cena: um projétil se choca contra um aglomerado de edifícios e explode, levantando uma nuvem de fogo e fumaça que se espalha com velocidade hipersônica e engole uma cidade inteira, com a mesma sede de extermínio do tal meteoro que trouxe um péssimo dia para os dinossauros. Por óbvio que apertei o play! Filmes de catástrofe ainda têm um apelo divertido. Descobri, porém, que Casa de Dinamite não é um filme de catástrofe, nem está interessado em exibir cenas que os cinéfilos já estão acostumados a ver por aí. Quer justamente falar sobre o que não estamos acostumados a ver: o aparato secreto que os governantes usam para tentar sobreviver ao apocalipse.
        Casa de Dinamite é resultado da colaboração entre Kathryn Bigelow e Noah Oppenheim. A primeira, que já foi casada com James Cameron, dirigiu ótimos filmes, como Caçadores de Emoção, Guerra ao Terror e A Hora Mais Escura. O segundo, ex-jornalista e ex-presidente da rede de TV NBC, tem as melhores credenciais para falar sobre o mundo da política e seus bastidores. Enquanto ela garantiu um discurso audiovisual competente e focado em bons personagens, ele escreveu um roteiro enxuto, mas denso de informações. Conseguiram credibilidade e verossimilhança. Mas antes de entrar em mais detalhes, deixe-me descrever a sinopse do filme:
        Assim que o sistema de defesa detecta o lançamento de um míssil na direção do território americano, a capitã Olivia Walker (Rebecca Ferguson), encarregada da Sala de Situação da Casa Branca, e o seu chefe, o almirante Mark Miller (Jason Clarke), dão início a uma videoconferência com as principais autoridades: o Secretário de Defesa, Reid Baker (Jared Harris), o General do Comando Estratégico, Anthony Brady (Tracy Letts), o conselheiro de segurança, Jake Baerington (Gabriel Basso) e o Presidente dos Estados Unidos, (Idris Elba). Eles têm 18 minutos para eliminar a ameaça. As tentativas de interceptar o míssil fracassam e a arma nuclear está na direção de Chicago. A cadeia de decisões se vê diante de uma situação limite, com níveis de estresse inimagináveis. Enquanto isso, o relógio está correndo!
        Sim, Casa de Dinamite se vale do velho truque da contagem regressiva para criar tensão e mostrar seus personagens sendo obrigados a tomar decisões urgentes e cruciais. A questão é que 18 minutos é um período de tempo curto demais para sustentar um longa-metragem. Qual foi a solução encontrada pelos realizadores? Lançaram mão de outro velho truque narrativo: o Efeito Rashomon, usado pela primeira vez pelo cineasta japonês Akira Kurosawa, em seu clássico de 1950 intitulado Rashomon. Lá, o assassinato de um samurai e o estupro de sua mulher são mostrados quatro vezes seguidas, cada uma apresentando o ponto de vista de uma testemunha diferente. Dessa forma, o diretor conseguiu um efeito dramático carregado de tensão e suspense, colocando o espectador ansioso para encontrar a verdade ao final.
        Os realizadores de Casa de Dinamite decidiram dividir o filme em três capítulos, onde os mesmos fatos se repetem. Contudo, ao contrário do que já vimos em outros filmes similares, não há divergências entre as versões narradas; apenas alguns detalhes expositivos são acrescentados a cada repetição, para que o espectador passa montar o quebra-cabeças. O truque funciona, graças ao roteiro bem costurado e à habilidade da diretora em lidar com os elementos de ação e suspense.
        O que mais me chamou a atenção foi a convincente recriação do aparato de telecomunicações que está à disposição dos tomadores de decisão. O filme também mostra como as informações circulam com agilidade e as decisões são tomadas de forma orgânica. A verossimilhança, no entanto, ficou por conta da habilidade em lidar com carga emocional dos personagens, que revela os seres humanos por trás das traquitanas tecnológicas.
        A principal mensagem que Casa de Dinamite nos deixa é essencialmente pessimista: acaba com as nossas esperanças de que um tal Domo de Ferro possa nos proteger contra ameaças nucleares. Como desabafa o Secretário de Defesa em certa cena, as chances de sucesso correspondem a um reles cara ou coroa; seria como acertar uma bala com outra bala! Os especialistas militares contestaram tal afirmação: garantem que a eficiência dos seus aparatos chega a 100% e não a 61%, como mostra o filme. Bem, fica aqui a palavra dos líderes militares contra a eloquência da máquina de Hollywood, que adora meter medo no grande público.
        Casa de Dinamite é um thriller angustiante, mas envolvente. Nos deixa grudados na poltrona, loucos para saber como a cidade de Chicago terminará evaporada com fúria apocalíptica. Mas quem espera pela cena previsível que descrevi lá no começo desta crônica, vai se decepcionar. Os realizadores preferiram omiti-la – o público já está careca de ver esse tipo de catástrofe encenada com a ajuda de truques digitais.

Resenha crítica do filme Casa de Dinamite

Título original: A House of Dynamite
Título em Portugal: Prestes a Explodir
Ano de produção: 2025
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Noah Oppenheim
Elenco: Idris Elba, Rebecca Ferguson, Gabriel Basso, Jared Harri, Tracy Letts, Anthony Ramos, Moses Ingram, Jonah Hauer-King, Greta Lee, Jason Clarke, Malachi Beasley, Brian Tee, Brittany O'Grady, Gbenga Akinnagbe, Willa Fitzgerald, Renée Elise Goldsberry, Kyle Allen, Kaitlyn Dever, Francesca Carpanini, Abubakr Ali e Angel Reese

Comentários

Confira também:

O Despertar de uma Paixão: ao final, muitas reflexões

Encontro Marcado: explicando para a morte qual é o sentido da vida

Siga a Crônica de Cinema