A Chegada

EM A CHEGADA, NOS SENTIMOS COMO CRIANÇAS, EM PLENO PROCESSO DE AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM


A Chegada: filme dirigido por Denis Willeneuve

        A espiritualidade jamais foi tema central na minha vida. Estive o tempo todo concentrado em assuntos mais humanistas. Com o tempo, essa abordagem racional me despertou a vontade de saber mais sobre... espiritualidade! Ludy e eu participamos de um grupo de estudos, onde conhecemos um pouco mais sobre o espiritismo. Na verdade, contribuo com minhas provocações e ceticismos para polemizar durante os encontros semanais. Lembro que numa das discussões entrei de sola especulando sobre a linguagem:
        – Ora, se os espíritos não possuem trato vocal, por óbvio não podem se comunicar em nosso idioma! E se o fazem por pensamento, então não há a necessidade de estruturar o discurso de forma narrativa, com começo meio e fim! A língua deles deve ser uma doideira...
        Ludy me deu um chute na canela, para avisar que estava me excedendo. Com certeza os demais membros do grupo não estavam interessados nesse tipo de divagação. Fiquei com o tema ecoando na cabeça por alguns dias, até esquecê-lo por completo. Então, numa bela noite, tive o prazer de assistir ao filme A Chegada, do diretor Denis Villeneuve. De repente, o tema estava lá, de novo, na minha frente!
        A Chegada é um filme de ficção científica. O título se refere à presença de alienígenas do espaço aportando na Terra de forma retumbante. Mas, diferente dos clichês do gênero, o problema que isso gera para a humanidade é mais prosaico: a dificuldade de comunicação. Como se entender com seres tão diferentes, que nem sequer usam aparelho vocal para se comunicar? É aí que entra em cena a Doutora Banks, uma renomada linguista vivida na tela por Amy Adams.
        Nada de físicos, químicos, engenheiros, matemáticos ou líderes políticos. O primeiro ser humano a se entender com os Aliens é uma acadêmica, estudiosa da linguagem. E as implicações que isso gera são cruciais para o filme. Willeneuve também deve ter ficado fascinado com o tema – e é claro, com o conto do escritor americano Ted Chiang, no qual Eric Heisserer se baseou para escrever o roteiro. O diretor estruturou seu filme de acordo com a construção do conto original, misturando passado, presente e futuro num intrincado vai-e-vem narrativo.
        De fato, o idioma molda a nossa compreensão do mundo e a forma como raciocinamos. A fala e a leitura se processam no tempo, letra por letra, palavra por palavra, frase por frase. É essa dimensão temporal que alicerça nossas narrativas e toda a nossa comunicação. Mas os Aliens que chegaram não se comunicam como nós. Sua linguagem não está alicerçada no tempo. Não há começo, meio ou fim em suas frases e pensamentos. Como entendê-los?
        A Doutora Banks segue um caminho inteligente, pavimentado por muita ciência e filosofia. Suas lembranças da filha, seu esforço metodológico para desvendar o idioma alienígena, seu envolvimento com o colega interpretado por Jeremy Renner... Willeneuve embaralha tudo, sem receio de dificultar para o grande público. E faz isso com propriedade, mostrando pleno domínio da linguagem cinematográfica. A Chegada é um filme intrincado, denso, focado na personagem central. Deixa o espectador livre para tirar suas conclusões.
        Kubrick seria mais ousado, como de fato foi em 2001: Uma Odisseia no Espaço. Mas o filme de Willeneuve está no circuito comercial e deve atender aos mínimos requisitos dos produtores. Por isso a trama envolvendo os militares e uma possível hecatombe global imprime um caráter de urgência aos trabalhos da Doutora Banks, que precisa desembaralhar-se das suas questões envolvendo passado, presente e futuro para salvar a humanidade. Mas nada disso depõe contra o filme, realizado com muito bom gosto.
        O ritmo imposto por Willeneuve equilibra momentos de introspecção e ação. A trilha sonora – como acontece em seus outros filmes – é elaborada, marcante e sintonizada com a narrativa. A direção de arte deu personalidade aos planos ousados imaginados pelo diretor. E a atuação de Amy Adams trouxe credibilidade, charme e uma dose de melancolia, afinal, a possibilidade de Aliens ultratecnológicos baterem em nossa porta, implica no fato de que nós, humanos, ainda não sabemos da missa um terço!
        A Chegada nos faz pensar. Lembra que a ciência e a tecnologia que nos mantêm agarrados no presente cotidiano e distraídos com a pós-modernidade, talvez não tenham resposta para tudo. A boa e velha filosofia – e o estudo da linguagem que estrutura nossos pensamentos – ainda está no comando!


Crítica do filme:
A Chegada

Data de produção: 2016
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Heisserer e Ted Chiang
Elenco: Amy Admas e Jeremy Renner

Comentários

  1. Belo filme. Na lista dos meus preferidos.

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    1. Também está entre os meus preferidos, e o Denis Willeneuve é um diretor que tem minha total atenção. Seus filmes são ótimos.

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  2. O filme é ótimo, e a crônica também Fabio!

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    1. Valeu, Kleber! Um abração e muitas energias positivas com a música! Obrigado!

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  3. Gostei do ritimo impregado nesse filme. Nada daquela correria comum aos filmes de invasao alienigena. Adoro filme de ficcao, por conta de tal gosto, gasto tempo com eles. Esse filme é particularmente interessante para mim. Adorei a crítica.

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    1. Também sempre gostei de ficção científica, Erivaldo. Lia os livros de Isac Asimv e do Arthur C. Clark e sempre que podia mergulhava nos filmes do gênero. Mas a ficção científica sempre veio misturada ao gênero aventura. Depois, com Alien: O Oitavo Passageiro, misturou-se ao terror. Agora, com A Chegada, parece que resgataram o espírito de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Também gostei muito!

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  4. Adorei esse filme. Ele me envolveu , tanto na atmosfera como no tema , que acredito seja esse ritmo que se dará num encontro entre humanos e alienígenas. É com certeza um dos meus proferidos. Amei a sua crônica. Grande abraço.

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    1. Muito obrigado. Agradeço o feedback. De fato, o tema é instigante e a atmosfera que o Denis Villeneuve consegue criar é ótima. Dá muita vontade de escrever sobre sobre o filme.

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