O Fabuloso Destino de Amélie Poulin

O QUE UMA GAROTA SOLITÁRIA E INVENTIVA É CAPAZ DE VIVER EM PARIS... É FABULOSO 



O Fabuloso Destino de Amélie Poulin: filme dirigido por Jean-Pierre Jeunet

        – Qual é o gênero desse filme? – perguntei, fazendo pouco caso.
        – Ah, acho que é comédia... Tem romance, um pouco de drama... Vamos assistir! Com certeza você vai gostar.
        Ludy detesta repetir filmes. Para se dispor a ver O Fabuloso Destino de Amélie Poulin pela segunda vez, é porque gostou muito. E se ela gostou... Apaguei as luzes, nos acomodamos no sofá e apertei o play. Em pouco tempo estava hipnotizado.
        Esse filme francês é de 2001, mas de tão conservado, poderia ser de 2020. Nas mãos do diretor Jean-Pierre Jeunet, o roteiro de Guillaume Laurant ganhou uma atmosfera mágica e algo fantasiosa, com pitadas generosas de bom humor. É leve, envolvente, ágil e divertido, mas o que primeiro salta aos olhos é a direção de arte. Já no início percebemos nele a sensibilidade artística que o cinema francês tanto valoriza. Mérito de Jean-Pierre Jeunet e da designer de produção Aline Bonetto.
        Cena atrás de cena nos deparamos com lindos cenários, figurinos impecáveis e objetos de cena bem desenhados. Tudo em seu devido lugar, com as cores certas, na textura apropriada, na proporção ideal... Um cuidadoso trabalho, como não encontramos com frequência nem mesmo nas produções hollywoodianas. A trilha sonora, criada pelo compositor e multi-instrumentista Yann Tiersen a partir de diversas canções de sua autoria, é tão envolvente que nos transporta instantaneamente para Paris.
        Ah... Em certos momentos chegamos a duvidar de que a Paris, captada pelas lentes do diretor de fotografia Bruno Delbonnel em cores tão vivas e saturadas, possa de fato existir. Então, nos lembramos de que todos conhecem bem essa cidade vibrante, charmosa e cosmopolita – mesmo quem jamais morou por lá, ou sequer passeou como turista. Sim, Paris existe no imaginário de todo espectador e em O Fabuloso Destino de Amélie Poulin se exibe com seu imenso poder de sedução.
        Quem lê essas palavras escritas com inegável empolgação pode concluir que o filme não passa de um apanhado de belas imagens e canções. Nada disso! A estética do diretor Jean-Pierre Jeunet se desenvolve com fluência pelo campo visual, mas está ancorada em uma narrativa sólida e criativa. Valendo-se de um narrador onisciente, ele segue um texto muito bem escrito e alcança, em vários momentos, um resultado que beira o poético.
        Porém, o mais importante é que o diretor tem uma boa história para contar. Uma história singela, é verdade, mas cativante! Seu filme é sobre Amélie, uma jovem encantadora, criativa e... solitária! Para revelar seu fabuloso destino, começa pela infância, quando é diagnosticada com um suposto problema cardíaco. A menina é criada em isolamento e alfabetizada em casa pela mãe – que morre em circunstâncias tragicômicas. Agora, na juventude, trabalhando como garçonete no charmoso bairro de Montmartre, Amélie descobre sua vocação para observar as pessoas, compreendê-las em seus pormenores e descobrir como ajudá-las. Encontra aí um sentido para sua vida e passa a realizar pequenos gestos de altruísmo – executando planos tão mirabolantes quando engraçados.
        Amélie quer o que todos perseguem: encontrar um amor, viver momentos de felicidade, sentir-se realizada... Decide buscá-lo usando os mesmo planos mirabolantes que emprega em favor dos vizinhos e amigos. Acredita que seus pequenos gestos de amor ao próximo são capazes de mudar o mundo e por isso é merecedora de encontrar seu fabuloso destino.
        A atriz Audrey Tautou, bela e encantadora, compõe uma personagem introspectiva e inteligente, que se regozija em contemplar a arte vibrando em praticamente tudo ao seu redor. Também confere a ela um certo ímpeto infantil, o que a torna adorável. Mas o que sua Amélie deixa transparecer com mais nitidez é a solidão.
        No final das contas, é disso que trata o filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulin, da solidão! Ela brota de todos os personagens, definindo suas vidas, influenciando suas escolhas. Alguns a combinam com doses de melancolia, outros com raiva, outros com escapismo. A solidão de Amélie é uma velha conhecida sua, por isso não a importuna tanto. A garota parece ter compreendido que um pouco de solidão faz bem. Ajuda na introspecção, na contemplação, no amadurecimento... Ajuda inclusive a arranjar tempo para assistir a muitos e muitos filmes, prestando atenção nos mínimos detalhes. Aqueles que passam despercebidos para a maioria dos espectadores.
        Ainda que fale de solidão, O Fabuloso Destino de Amélie Poulin não é um filme triste. É alegre, divertido e otimista. Um ótimo filme, recomendado também para os casais. Ludy e eu experimentamos e curtimos demais!



Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.


 

Filme: O Fabuloso Destino de Amélie Poulin


Ano de produção: 2001
Direção: Jean-Pierre Jeunet
Roteiro: Guillaume Laurant
Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Rufus, Lorella Cravotta, Serge Merlin e James Debbouze



Comentários

  1. Adoro esse filme!! Amo filmes franceses!
    Recomendo um filme francês, que também é com a Audrey Tautou, chamado Bem me quer, Mal me quer. Vale a pena

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, obrigado pela dica! Esse ainda não vi. Já estou colocando na minha lista! Abraços!

      Excluir
    2. Legal, espero que goste.
      Você usa o filmow? É uma rede social só de filmes, séries, curtas, é bem legal, acho que você vai gostar.
      Esse é meu perfil lá, se você entrar, pode me adicionar ;)
      https://filmow.com/usuario/renatinha

      Excluir

Postar um comentário

Gostou do texto? Deixe sua opinião.

Leia também: