A Mulher na Janela: suspense em torno de um crime


A Mulher na Janela: filme dirigido por Joe Wright

UM SUSPENSE PSICOLÓGICO COM FINAL NADA SUTIL

O esporte da semana tem sido descer a lenha em A Mulher na Janela, filme recém lançado pela Netflix. É compreensível. Ao se deparar com nomes como Amy Adams, Gary Oldman e Julianne Moore, dirigido por um Joe Wright, os cinéfilos vão com tanta sede ao pote que, ao perceber que a quantidade de cinema oferecido não condiz com o que é vendido na embalagem, terminam frustrados. Mas não é bem assim! O filme oferece cinema do bom, ainda que o final da história entre na sala com a sutileza de um elefante tocando trombone de vara!
        Não li o romance de A. J. Finn, The Woman in the Window, que originou o filme. Não posso, portanto, entrar no mérito da qualidade literária dessa obra que alcançou sucesso no mercado editorial e trouxe notoriedade para seu autor – ainda que a custa de polêmicas. Mas posso examinar a adaptação para o cinema, feita por Joe Wright filmando um roteiro escrito por Tracy Letts. O roteirista é mais conhecido pelo seu trabalho como ator – o leitor talvez se lembre dele no papel de Henry Ford II no filme Ford vs Ferrari – e pelo roteiro do pesado Killer Joe - Matador de Aluguel, dirigido por Willian Friedkin.
        A Mulher na Janela conta a história da Doutora Ana Fox, uma psicóloga infantil confinada num casarão em Nova Iorque. Às voltas com o alcoolismo, ela também sofre de agorafobia, o exato oposto da claustrofobia: seu medo é de lugares públicos e espaços descobertos. Quando os novos vizinhos da casa em frente se mudam, ela jura de pés juntos que viu a dona da casa ser assassinada. Mas quem acreditará nela?
        O ponto que me incomodou nesse filme foi a demora para criar empatia com a Doutora Fox. O espectador enxerga verdade num personagem quando consegue se pôr no seu lugar, mas o roteiro demorou demais para fornecer informações suficientes. Perdeu tempo fazendo suspense e segurando a narrativa com distrações. Quando vem o ponto de virada, ainda não temos certeza se amamos ou se odiamos a protagonista.
        Joe Wright é um diretor eclético. Já assinou filmes como O Destino de Uma Nação, Hanna e Orgulho e Preconceito, entre outros. Em A Mulher na Janela ele mostra sua costumeira competência, realizando cenas com timing preciso e apurada concepção visual. O elenco estrelado e competente eleva o nível da produção e garante momentos de ótimo cinema. O problema ficou por conta do roteiro.
        Um suspense psicológico, ainda que traga referências elegantes a Hitchcock e finque bases no carisma de Amy Adams, precisa surpreender. Excluindo os iniciados em psicologia, que eventualmente podem se deliciar com algumas minúcias, o espectador comum termina o filme sem saber ao certo se ama ou se odeia a Doutora Fox. Essa dúvida é suficiente para pôr abaixo todo o filme.


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.



Filme: A Mulher na Janela


Ano de produção: 2021
Direção: Joe Wright
Roteiro: Tracy Letts
Elenco: Amy Adams, Gary Oldman, Anthony Mackie, Fred Hechinger, Wyatt Russell, Brian Tyree Henry, Jennifer Jason Leigh e Julianne Moore

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