O Destino de Uma Nação: Winston Churchill arca com a maior das responsabilidades

Cena do filme O Destino de Uma Nação
O Destino de Uma Nação: filme dirigido por Joe Wirght

UM GRANDE POLÍTICO, TRAZIDO À VIDA POR UM GRANDE ATOR

Não sei como está o cartaz de Winston Churchill nos dias de hoje. E emprego essa expressão antiquada – ainda existem cartazes sobrevivendo ao imperativo digital? – para deixar claro minhas suspeitas de que, entre os estudantes brasileiros, o grande primeiro-ministro britânico não passa de um borrão reticulado, impresso num capítulo qualquer da apostila de história. No máximo, um nome de rua! Em popularidade, sua estampa rechonchuda e embaçada pela fumaça do charuto parece perder terreno para a do guerrilheiro barbudo e de boina. É que muitos jovens ainda não atinaram para o fato de que, sem a intervenção dele, hoje estaríamos todos falando alemão e cansando o braço em saudações nazistas. Ainda bem que Joe Wright, cineasta que traz no currículo filmes como Orgulho e Preconceito, Desejo e Reparação, O Solista e Hanna, arregaçou as mangas para realizar, em 2017, o filme O Destino de Uma Nação, uma cinebiografia que captura o personagem em toda a sua dimensão histórica, mas o retrata com contornos mais... humanos!
        O filme flagra Winston Churchill há poucos dias de se tornar primeiro-ministro. Sob pressão, ele abraça uma das mais pesadas responsabilidades que um político de sua época poderia assumir: liderar a Inglaterra no esforço de guerra contra os nazi-fascistas. À frente do gabinete de crise, ele enfrenta pesados desafios e precisa fazer escolhas cruciais, como o resgate dos soldados britânicos encurralados na praia francesa de Dunquerque – episódio dramático, retratado com assombroso realismo por Christopher Nolan no seu filme Dunkirk. Mas antes de continuar essa história, vamos pôr na mesa uma rápida sinopse de O Destino de Uma Nação.
        Quando cai o primeiro-ministro Neville Chamberlain (Ronald Pickup), no início do verão de 1940, o mais quente até então registrado na Europa, quem assume é Winston Churchill (Gary Oldman). De temperamento difícil, ele já começa se desentendendo com sua nova secretária, Elizabeth Layton (Lily James), logo no seu primeiro dia de trabalho, mas é contido pela esposa Clementine (Kristen Scott Thomas). Depois de se encontrar com o rei George VI (Ben Mendelsohn), ele forma seu governo, mas decide manter seus oponentes próximos: nomeia Chamberlain e Viscount Halifax (Stephen Dillane) para o gabinete de guerra. Quando os nazistas avançam sobre os países baixos, o parlamento se apressa a tramar um acordo de paz com Hitler, mas Churchill vai na direção contrária. Tenta buscar apoio com o primeiro-ministro francês Paul Reynaud (Oliver Broche), mas não consegue. Tenta o apoio do presidente americano Franklin D. Roosevelt (David Strathairn) e nada! Churchill então busca apoio popular, mas falha diante do episódio em Dunquerque. Encurralado politicamente, ele está inclinado a considerar uma paz negociada, mas o rei George o aconselha a ouvir o povo. É o que ele faz! E descobre que os britânicos estão dispostos a lutar, custe o que custar.
        Biografias sobre o Churchill, existem várias. Obras e análises sobre seus feitos políticos e militares, também. Nada mais lógico, portanto, que os realizadores evitassem a armadilha de estruturar uma cinebiografia clássica. Ao se ater a um recorte da vida do biografado, o roteiro impecável escrito por Anthony McCarten – que também assinou os roteiros de A Teoria de Tudo, Bohemian Rhapsody e Dois Papas – abriu espaço para falar não apenas dos conflitos externos que ele enfrentou – a guerra e as disputas políticas no seu próprio país – mas também daqueles que povoaram seu turbulento mundo interno. O Churchill que vemos aqui é um personagem complexo, com defeitos e qualidade. Tão humano a ponto de ser pego em demonstrações de insegurança ou acossado por dúvidas.
        O diretor Joe Wright trabalhou com Anthony McCarten no roteiro e solucionou diversas passagens com o emprego de façanhas técnicas notáveis. Algumas cenas, como a aquela em que Churchill confabula com passageiros do metrô, foram trabalhadas em detalhes – apesar de jamais ter realmente acontecido, foi construída como um símbolo da capacidade do líder político de se manter em sintonia com a opinião pública, por meio do acompanhamento de pesquisas de opinião.
        Mas, ainda que tenha um desenho de produção cuidadoso, uma fotografia caprichada e um ritmo envolvente, o filme pode decepcionar aqueles que esperam rigor histórico e precisão biográfica. Há muitas dramatizações inventivas e algumas licenças poéticas, que jogam a favor do personagem, vivido com incrível energia por um Gary Oldman quase irreconhecível. Seu trabalho primoroso rendeu o Óscar de melhor ator, tornando-se um convite irrecusável para assistir ao filme.
        O bom de escrever a respeito de uma cinebiografia é que não há riscos de spoilers. Em O Destino de Uma Nação os aliados vencem a guerra e Winston Churchill entra para os livros de história como um dos maiores líderes políticos do mundo livre. Seu cartaz tem tudo para continuar em alta!

Resenha crítica do filme O Destino de Uma Nação

Ano de produção: 2017
Direção: Joe Wright
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Lily James, Ronald Pickup, Stephen Dillane, Nicholas Jones, Samuel West, David Schofield, Richard Lumsden, Malcolm Storry, Hilton McRae, Benjamin Whitrow, Joe Armstrong, Adrian Rawlins, David Bamber, Paul Leonard, Demetri Goritsas, Olivier Broche e Brian Pettifer

Comentários

  1. Bem como o grande personagem da história, Churchill me encantou ainda mais quando caiu nos braços desse ator maravilhoso. Apesar do momento pesado ele diverte a gente com tanto senso de humor e amor com sua esposa. Gostei tanto do filme que já assisti 3 vezes.

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    1. Também gostei das pitadas de humor! O filme me agradou demais!!!!!

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