Crítica | À Espera dos Bárbaros: Mark Rylance, Johnny Depp e Robert Pattinson brilham nesse filme intimista, com DNA de literatura

Cena do filme À Espera dos Bárbaros
À Espera dos Bárbaros: filme dirigido por Ciro Guerra

DIRETO DA LITERATURA PARA AS TELAS

À Espera dos Bárbaros, dirigido em 2019 por Ciro Guerra, é baseado no romance de mesmo nome escrito em 1980 por John Maxwell Coetzee, o sul-africano ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2003. O autor resistiu o quanto pôde e tentou segurar as rédeas da sua obra, mas acabou se rendendo aos encantos da sétima arte. Ele mesmo assinou o roteiro. Fez uma ótima adaptação e conseguiu a fluência e a eloquência que desejava, mas causou um estranhamento no universo dos espectadores – que é diferente do universo dos seus leitores. 

No cinema, o pacote vem pronto

        Nas páginas de um livro, uma história segue no ritmo ditado pelo leitor. O que o autor pode fazer é combinar as palavras e sugerir uma cadência na sonoridade que elas evocam; também pode forçar a pontuação para impor as pausas e marcar a tomada de fôlego. Ainda assim, é na leitura que a obra se abre para interpretações. No cinema, por outro lado, esse pacote vem pronto. O ritmo é dado pela duração das imagens, dos sons e da música incidental, e também pelos gestos dos atores, seus olhares, linguagem corporal, tom de voz, pronúncia... No filme, a criação coletiva acaba com a ditadura do autor, que perde o controle absoluto da sua história.

Cena do filme À Espera dos Bárbaros
À Espera dos Bárbaros: adaptação do romance de J.M. Coetzee

Os tentáculos do poder

        Escritor contundente, J.M. Coetzee se notabilizou por sua obra dedicada a criticar as mazelas de seu país e – de modo mais universal – a investigar a natureza violenta do ser humano e suas escolhas éticas. Em À Espera dos Bárbaros ele cria uma alegoria em torno de um império sem nome, cujos tentáculos garantem benesses aos que se encarregam da burocracia, mas colocam poder absoluto nas mãos dos que se arrogam a missão de defendê-lo. Escreveu um excelente filme, com interpretações memoráveis, narrativa envolvente e uma fotografia belíssima – parte indissociável do contexto dramático.

A sinopse: tudo gira em torno dos bárbaros

        O filme conta a história de um magistrado (Mark Rylance), que no final do século XIX é encarregado da administração de um lugarejo remoto, cercado por um deserto escaldante. Melancólico e compenetrado, cuida de recolher os impostos, manter a ordem, executar a burocracia, julgar as pendengas locais e estabelecer sentenças, tudo em nome de um grande império. Quando não está absorto nessa rotina aborrecida, faz-se de arqueólogo: desenterra artefatos pelas imediações. Eis, porém, que chega o intimidador Coronel Joll (Johnny Depp), com seus estranhos óculos escuros e sua postura imponente e soberba. Revestido de autoridade policial, vem em uma missão importante: investigar a movimentação dos bárbaros que circulam pelo deserto e podem, segundo suspeita, atacar os domínios do império a qualquer momento.

Cena do filme À Espera dos Bárbaros
À Espera dos Bárbaros: violência desnecessária e desmedida

        Especialista nas artes da tortura, o Coronel Joll não hesitará em causar dor nos inimigos para proteger o estado – o mesmo estado que garantia uma vida confortável para o magistrado, mas que agora revela sua face sórdida. A violência desnecessária e desmedida imposta pelos soldados de Joll, liderados pelo Oficial Mandel (Robert Pattinson) poderá alcançar o magistrado, que já não pode mais se omitir; especialmente depois de se envolver com a garota (Gana Bayarsaikhan) que aparece no lugarejo em estado de indigência, com os pés quebrados depois de ter sido torturada. A despeito do que lhe possa acontecer, o magistrado se dispõe a rever seus valores e corrigir seus erros, mas o poder de decisão já não estará mais em suas mãos.

Um protagonista em conflito interno

        Repleto de metáforas, À Espera dos Bárbaros segue uma narrativa linear, com cenas expositivas amparadas mais no campo visual, embora o texto seja sempre preciso. Mas não é um filme fácil! Traz à tona assuntos incômodos, revirados pelo protagonista na medida em que se confronta com uma realidade para a qual fechava os olhos; seu caminho para a redenção se mostra pedregoso e a desesperança é gritante. A natureza totalitária do estado se impõe, mesmo quando o império alegórico – não seriam assim mesmo todos os impérios? – desmorona num salve-se quem puder.

Cena do filme À Espera dos Bárbaros
À Espera dos Bárbaros: tudo em nome da segurança

O envolvimento do diretor colombiano

        O produtor Michael Fitzgerald adquiriu os direitos para adaptação do romance e trabalhou no desenvolvimento do filme em estreita colaboração com o próprio J.M Coetzee. Envolveram no projeto o renomado diretor de fotografia Chris Menges, que já havia conquistado dois óscares por seu trabalho em Os Gritos do Silêncio e A Missão. Por sugestão dele, convocaram para a direção o colombiano Ciro Guerra, que abraçou a oportunidade de trabalhar com grandes nomes do cinema e realizar seu primeiro filme de alcance internacional.

Concepção audiovisual apurada

        Ciro Guerra fez um trabalho notável. Ressaltou o caráter intimista da obra, mas conseguiu manter uma atmosfera épica. Ele conta que se inspirou em parte nos filmes que Akira Kurosawa realizou nos anos 1960, onde o mestre trabalhou o drama dos personagens sem perder a dimensão da epopeia que abraçam. Guerra também soube se esbaldar na luz natural que inunda À Espera dos Bárbaros pelas lentes do experiente e octogenário Chris Menges.

Cena do filme À Espera dos Bárbaros
À Espera dos Bárbaros: Mark Rylance vive um burocrata em crise de consciência

Cinema de verdade!

        Mark Rylance, Johnny Depp e Robert Pattinson, os nomes estrelados da produção, aproveitaram a oportunidade de atuar em locações reais, longe das áridas telas verdes que cercam os sets de filmagem das produções atuais. Contracenaram com atores de verdade! À Espera dos Bárbaros é cinema caprichado, com DNA de literatura, mas evoluído para sobreviver com tranquilidade no ambiente fílmico. Vale a pena conferir.

Veredito da crônica de cinema

★★★★★(5 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção criativa de Ciro Guerra, o roteiro primoroso, as atuações de Mark Rylance, Johnny Depp e Robert Pattinson, a concepção visual refinada, a fotografia primorosa e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: J.M. Coetzee conseguir transpor sua literatura para o universo da linguagem audiovisual, oferecendo ao espectador uma leitura mais fechada com a sua própria concepção.

Imperdível. É um notável exercício de cinema.

Ficha técnica do filme À Espera dos Bárbaros

Título original: Waiting for the Barbarians
Ano de produção: 2019
Direção: Ciro Guerra
Roteiro: J. M. Coetzee

Elenco:
  • Mark Rylance
  • Johnny Depp
  • Robert Pattinson
  • Gana Bayarsaikhan
  • Greta Scacchi
  • David Dencik
  • Sam Reid
  • Harry Melling
  • Bill Milner

Comentários

  1. Achei magnífico.As imagens de uma beleza estonteante contrastam com o mais feio do ser humano.Os atores desfilam literatura na interpretação.

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    1. Assim é o ser humano: tem espaço de sobra para o convívio do belo com o horroroso.

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  2. Vou ver onde tem.oara assistir.
    Vi o filme A DESGRAÇA baseado num.livro dele.

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  3. Em que plataforma posso assistir?

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  4. Me lembro vagamente, vi há algum tempo.

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