Crítica | Vivos: Frank Marshall conta a história dos sobreviventes dos Andes com autenticidade e realismo, equilibrando drama e ação

Vivos: direção de Frank Marshall
SOBREVIVERAM GRAÇAS AO... HEROÍSMO
Vivos, filme de 1993 dirigido por Frank Marshall, é o remake melhorado de uma produção desastrada – com o perdão do trocadilho – dirigido em 1976 por René Cardona: Os Sobreviventes dos Andes. Aquele era um filme mexicano de baixo orçamento, com entonação francamente sensacionalista; esta é uma produção da Disney, com viés dramático e uma abordagem bem mais cuidadosa. Ambos os filmes contam a história trágica de sobrevivência, que dominou a mídia por semanas em 1972, porque os personagens tiveram que cometer canibalismo para continuar vivos.Vamos aos fatos:
Tudo aconteceu em outubro daquele ano, quando o avião fretado por um time de rugby de Montevidéu caiu na Cordilheira dos Andes. A maioria sobreviveu à queda, mas as equipes de resgate não conseguiram localizá-los; com pouquíssimos suprimentos, resistiram por incríveis 72 dias ao se alimentar dos corpos de seus colegas mortos. No final, apenas 16 dos 45 passageiros sobreviveram, graças ao esforço heroico de dois deles, que atravessaram as montanhas numa caminhada de 12 dias até encontrar socorro.

Vivos: Frank Marshall conta a história real dos sobreviventes dos Andes
Uma experiência limite
O filme de Frank Marshall mostrou que o canibalismo está longe de ser o aspecto mais importante dessa história. Vivos flagra os os personagens passando por uma experiência limite, que os levou a confrontar sua condição humana em um nível quase espiritual. Enfrentaram muito mais do que frio, avalanches e dor física; tiveram que encarar o medo, a desesperança e a certeza de um fim agonizante; tiveram que se unir, superar diferenças e vencer obstáculos que pareciam intransponíveis.
Um único relato em livro
É claro que uma tal história despertou o interesse de várias editoras, que entraram em concorrência para publicá-la. Os sobreviventes, organizados em um comitê, estabeleceram que um único relato seria escrito; escolheram a proposta do editor americano J.B. Lippincott, que convocou o romancista e dramaturgo inglês Piers Paul Read para redigir o livro. A princípio, Read recusou o desafio – julgou a história horrível e... indigesta, com potencial para descambar para o sensacionalismo. Mesmo assim, foi a Montevideo e conheceu os sobreviventes, todos católicos como ele, o que levou a uma identificação imediata. Aceitou escrever o livro, publicado com o título de Alive: The Story of the Andes Survivors.

Vivos: essa história foi primeiro contada em um livro
Um estrondoso sucesso editorial
Read entrevistou cada um dos personagens e suas famílias, inclusive as dos que pereceram na cordilheira; o processo foi doloroso, mas o escritor assumiu o papel de confidente e gravou os depoimentos em suas minúcias mais incômodas. O texto final não agradou a todos; alguns sobreviventes esperavam que apenas os fatos heroicos fossem destacados. O editor, contudo, previu tal risco e se protegeu: incluiu no contrato uma cláusula que impedia qualquer forma de censura. O texto de Piers Paul Read foi publicado na íntegra em 1974 e se tornou um sucesso editorial. Vendeu milhões de cópias em diversos países.
Uma nova chance para a história
Passados quase 20 anos, a Disney comprou os direitos para o cinema e iniciou a produção de Vivos. O diretor Frank Marshall – que já havia trabalhado como produtor nas trilogias de Indiana Jones e De Volta para o Futuro – foi até Montevideo e se reuniu com o grupo de sobreviventes. Os encontrou calejados e temerosos, depois do rompante sensacionalista da produção mexicana, mas conseguiu convencê-los de que esta nova adaptação seria fiel ao livro e privilegiaria o alcance drmático. Vejamos como ficou a sinopse:

Vivos: uma tragédia marcada por atos heroicos
Na dependência dos atos heróicos
Em Vivos, Carlitos Páez (John Malcovich) relembra os trágicos acontecimentos de vinte anos atrás, quando ele e seus colegas, alegres e distraídos, faziam a festa no voo 571 da Força Aérea Uruguaia. Num piscar de olhos a situação mudou e o avião se desmembrou em pedaços contra uma montanha. Restou apenas a fuselagem, com 33 sobreviventes. Nando Parrado (Ethan Hawke) é um deles; ferido na cabeça, entra em coma. O capitão do time, Antonio Vizintin (John Haymes Newton), assume a liderança, com a ajuda de Roberto Canessa (Josh Hamilton) e Gustavo Zerbino (David Kriegel), estudantes de medicina, que fazem o possível para ajudar os feridos.

Vivos: condições difíceis durante as filmagens
A esperança de que uma equipe de resgate os encontre é o que move o grupo, mas ela se desfaz quando percebem que será impossível enxergá-los do alto. Os dias passam e a situação dos sobreviventes só piora. Quando Nando acorda do coma, precisa superar a perda da mãe e da irmã, que também estavam no voo; reúne forças para arriscar tudo numa penosa caminhada pela cordilheira, na companhia de Canessa. O grupo depende dessa incrível ousadia para ser resgatado.
Filmagens em condições desafiadoras
Os realizadores de Vivos contrataram outro católico para escrever o roteiro final: John Patrick Shanley, vencedor do Oscar pelo roteiro original de Feitiço da Lua e também roteirista do excelente Dúvida. Ele contou com a consultoria de Nando Parrado – o sobrevivente interpretado no filme pelo ator Ethan Hawke. As filmagens foram desafiadoras e aconteceram no Canadá, em uma geleira da Colúmbia Britânica. Por quatro meses a equipe de 150 pessoas enfrentou condições adversas, com deslocamentos diários de helicópteros até o local do set, onde a fuselagem de um avião Fairchild F-227 foi montada. À mercê das condições climáticas e de iluminação, precisaram montar um acampamento de emergência e contar com a ajuda de uma equipe de especialistas em segurança, que monitorava a possibilidade de avalanches.
Vivos: Frank Marshall focalizou o drama de cada personagem
Equilíbrio entre drama e ação
Ao transportar o espectador para o cenário desolador que cercou os sobreviventes, Vivos passa autenticidade e realismo. O diretor explorou os planos abertos, mas manteve as lentes concentradas nos personagens. Há os dominados pelo pânico, os corajosos, os que se preocupam em liderar, os solidários, os fortes que sucumbiram, os fracos que encontram forças de superação... O diretor impõe um senso de dignidade: enaltece os feitos heroicos, mas não esconde os deméritos; expõe os dramas internos, mas não deixa de ressaltar a ação diante do imperativo externo.O impulso de ira até o final com os personagens
Do ponto de vista comercial, Vivos não é um filme confortável. A ideia do canibalismo gera resistência por parte do público e a certeza de encontrar personagens destinados a sofrer, desmotiva outros tantos. Todavia, quando começamos a assistir a esse filme, somos tomados por um impulso de seguir adiante, até o final. Não pela simples curiosidade mórbida, mas porque queremos saber o destino dos personagens com os quais nos identificamos e nutrimos uma profunda empatia.
Vivos: uma história limite para qualquer ser humano
Um segundo remake
Vale a pena lembrar que essa história trágica teve uma terceira adaptação para o cinema, realizada mais recentemente, em 2023, pelo cineasta espanhol Juan Antonio Bayona. Ele revisitou o tema em seu filme A Sociedade da Neve, onde conseguiu uma abordagem mais emocional e verdadeira; desvendou camadas ainda mais profundas de alguns personagens e entregou um filme bem produzido. Já escrevi uma crônica a respeito, que talvez você queira conferir.
Veredito da crônica de cinema
★★★☆☆(3 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção competente de Frank Marshall, a atuação do elenco bem entrosado, o roteiro compenetrado de John Patrick Shanley e a abordagem realista da produção .
O que decepciona: o filme se rende ao melodramático, focalizando no imperativo de sobrevivência, mas perde a oportunidade de se aprofundar no psicológico dos personagens principais.
Vale a pena. É uma produção envolvente.
Ficha técnica do filme Vivos
Título original: AlivesAno de produção: 1993
Direção: Frank Marshall
Roteiro: John Patrick Shanley
Elenco:
- Ethan Hawke
- Josh Hamilton
- John Haymes
- Bruce Ramsay
- David Kriegel
- Jack Noseworthy
- Kevin Breznahan
- David Cubitt
- Gian DiDonna
- John Cassini
- Richard Ian Cox
- Nuno Antunes
- Gordon Currie
- Sam Behrens
- Michael Tayles
- Steven Shayler
- Michael Sicoly
- Jerry Wasserman
- Tony Morelli
- José Zúñiga
- Frank Pellegrino
- Illeana Douglas
- Ele Keats
- Jan D'Arcy
- Danny Nucci
- Vincent Spano
- Michael DeLorenzo
- Josh Lucas
- Chad Willett
- Michael Woolson
- Diana Barrington
- Christian Meoli
- Jake Carpenter
- Silvio Pollio
- Jason Gaffney
- Seth James Arnett
- Patrick Ramano
- Aurelio Dinunzio
- Fiona Roeske
- John Malkovich
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